Em
busca da unidade perdida
José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e
professor universitário
Tentei acompanhar de perto a visita
do papa Francisco aos “lugares santos” da Palestina e de Israel para comemorar
os cinquenta anos da histórica visita de Paulo VI àquelas terras, no ano de
1964, em pleno período da realização do Concílio Vaticano II. Aquelas terras
possuem um valor afetivo muito grande
para boa parte da humanidade, uma vez que são o berço do cristianismo, o espaço
da atuação de Jesus de Nazaré, de seus primeiros discípulos e das primeiras
comunidades cristãs.
Mesmo
que um cristão nunca tenha ido até lá, aquela região permanece para ele um
referencial simbólico de grande monta. Logo, o que ali acontece se reveste de
um caráter profundamente afetivo e
termina mexendo com todo o inconsciente coletivo cristão. Mas, antes mesmo do
cristianismo, aquelas terras são a razão de ser do povo hebreu, povo sofrido e maltratado até hoje, em cujo seio nasce
a experiência do seguimento de Jesus, do qual o cristianismo herda um
patrimônio espiritual incalculável. Sem o povo judeu não haveria cristianismo. Além
disso, aquela região tem ainda um significado muito grande para o povo islâmico
e, de modo particular, para o povo palestino, obrigado até hoje a viver na
incerteza, na insegurança, na dor e no sofrimento, sem ter direito a um
reconhecimento pleno e definitivo de sua pátria. A convivência pacífica dessas
três grandes religiões e o reconhecimento real de uma pátria para o povo
palestino é de fundamental importância para o futuro da paz mundial. Assim
sendo, urge encontrar um caminho para se chegar a essa tão sonhada paz.
Acompanhei
de modo particular o encontro do papa Francisco, bispo da Igreja de Roma, líder
mundial dos católicos, com o patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, líder
da grande e valiosíssima Igreja Ortodoxa, portadora de uma grande riqueza
espiritual para todo o cristianismo. Fiz questão de seguir ao vivo pela
televisão este momento histórico, pois não puder fazer isso a cinquenta anos
atrás, quando Paulo VI e Atenágoras se encontraram. Quis seguir este momento
por estar convencido de que a unidade do cristianismo no futuro passará por
aquilo que acontecer entre essas duas grandes Igrejas.
Confesso
que esperava gestos mais ousados de ambas as partes, após cinquenta anos do
primeiro grande encontro, no qual os dois líderes de então retiraram a mútua
excomunhão que vigorava entre as duas Igrejas, desde a triste ruptura no século
XI. Senti muito formalismo e pouca espontaneidade no encontro. Os estudiosos
dizem que a fisionomia das pessoas costuma revelar muita coisa. Fiz questão de
observar atentamente este detalhe: os rostos dos que estavam presentes ao
encontro. Não havia alegria, nem mesmo nos dois principais protagonistas; aquela
alegria que devia caracterizar o reencontro de irmãos, depois de um longo
período sem se ver. O que se via eram expressões de uma profunda tensão. Os dois líderes pareciam estar menos tensos, mas a
platéia ao seu redor manifestava visivelmente sinais de muita tensão. Aliás, em
alguns rostos era bem visível a raiva,
o ódio, o fechamento. Fiz um esforço, mas não consegui em nenhum momento
enxergar pelo menos o esboço de um sorriso na face dos outros padres e bispos
que rodeavam o papa e o patriarca. Isso, para mim, diz muita coisa.
Sabe-se
que o ambiente onde se deu o encontro entre Francisco e Bartolomeu, tido como o
sepulcro de Jesus e o local de onde partiu o anúncio da ressurreição, é ainda
hoje palco de verdadeiras disputas entre as Igrejas cristãs. Têm-se
conhecimento inclusive de cenas recentes de violência física entre membros das
diferentes Igrejas neste local, que deveria ser um ponto de comunhão, de união
e de convivência amorosa. Há uma verdadeira luta pelo controle dos espaços
físicos e isso só nos pode causar dor e tristeza.
Ora,
isso não pode continuar acontecendo. A unidade dos cristãos é indispensável para
o futuro da humanidade. Não podemos continuar insistindo na paz mundial, se os
seguidores daquele que foi considerado “o Senhor da paz” (2Ts 3,16) continuam
se digladiando, a começar do local em que, segundo a tradição, teria sido
colocado o corpo do Mestre, após a sua crucifixão, e de onde ele teria saído
vitorioso sobre a morte. Todos os apelos das Igrejas pela paz no mundo se
tornam insignificantes se a humanidade sabe que os cristãos continuam
divididos, disputando entre si inclusive a posse pelos “lugares santos”. Os
discípulos e as discípulas de Jesus têm o grave dever de buscar a unidade, se
não quiserem continuar sendo acusados de serem os responsáveis pelas divisões
existentes hoje no mundo. Historicamente o cristianismo é o grande responsável
por grandes tragédias mundiais, como a primeira e a segunda guerra mundial. Os
países envolvidos nestas tragédias são herdeiros da cultura cristã, incapaz de
fomentar, ainda hoje, a harmonia e a paz entre os povos.
No
que diz respeito à busca da unidade entre as Igrejas cristãs históricas há que
se voltar ao modelo anterior às grandes rupturas entre a Igreja de Roma e a
Igreja do Oriente, no século XI, e entre a Igreja Romana e os herdeiros de
Lutero e Calvino no século XVI. E o que existia antes? Inicialmente cada Igreja
local tinha a sua autonomia, como núcleo de discípulos e discípulas de Jesus.
Estas Igrejas, na medida em que iam se constituindo, escolhiam alguém para
presidi-las e, consequentemente, para presidir a ceia do Senhor ou Eucaristia.
Este presidente tinha nomes diferentes, conforme a cultura do local em que se
encontrava a Igreja. Podiam ser chamados de bispos, presbíteros e diáconos.
Quando, por acaso, surgia entre elas alguma dificuldade isso era resolvido
através de encontros, de reuniões, de sínodos e, mais tarde, de concílios. Tal
costume foi introduzido ainda na época dos apóstolos, como nos atestam os
escritos neotestamentários (At 15,13-35).
Algum
tempo depois, quando as Igrejas adotam o sistema piramidal vigente no Império,
os bispos passam a deter o poder de consagrar os novos bispos, os presbíteros e
os diáconos. Aos poucos as Igrejas locais vão se constituindo ao redor dos
bispos, os quais, sempre segundo o esquema imperial, passam a ter também
funções de administração de um grupo de Igrejas locais de uma determinada
região. Com o passar do tempo, as Igrejas vão se aglutinando em torno de três
grandes Igrejas locais: Roma, Alexandria e Antioquia. Mais tarde, especialmente
durante o concílio de Éfeso e de Calcedônia, reconheceu-se o direito de algumas
Igrejas locais se reunirem em torno da Igreja de Jerusalém, tido como a
primeira Igreja. Em 381 se reconhece a posição da Igreja de Constantinopla,
capital do império oriental.
Assim
sendo, as Igrejas locais, todas com sua autonomia, vão se congregando em torno
de cinco grandes Igrejas que se situavam em pontos estratégicos do Império
romano: Roma, Alexandria, Antioquia, Jerusalém e Constantinopla. E com isso foi
se criando a tradição de que os cinco bispos destas Igrejas formavam uma
espécie de pentarquia. As cinco
Igrejas passam a ser consideradas patriarcados
e os cinco bispos, chamados patriarcas,
tidos como sucessores dos apóstolos e pastores supremos, são vistos como
escolhidos pelo Espírito Santo para guiar a Igreja em posição de igualdade.
Isso se baseava numa tradição segundo a qual estas cinco Igrejas eram de origem
apostólica, isto é, tinham sido fundadas por apóstolos de Jesus.
Um
pouco antes da formação dos patriarcados, provavelmente ainda no final do
primeiro século da era cristã, se introduziu o costume de se apelar para a
Igreja de Roma, quando surgia algum tipo de problema entre as Igrejas locais.
Isto porque não era mais possível reunir todos os bispos que presidiam as
Igrejas, uma vez que o número de Igrejas locais tinha aumentado e a realização
de um concílio se tornava cada vez mais difícil e oneroso. Muita coisa era
resolvida através de sínodos ou concílios regionais ou provinciais. Mas quando
não se conseguia um consenso, apelava-se para a Igreja de Roma, cujo bispo era
convidado a dar a palavra final sobre o assunto. E o que o bispo de Roma dizia
era tido por todas as Igrejas como a palavra definitiva sobre a questão. Disso
surgiu a expressão latina: Roma locuta,
causa finita est, ou seja, “Roma falou, a causa está encerrada.
Este
costume de apelar para Roma surgiu a partir de uma tradição, segundo a qual os
apóstolos Pedro e Paulo teriam sido martirizados naquela cidade. E por serem
considerados os apóstolos mais representativos do anúncio do Evangelho de Jesus
ao mundo (Gl 2,7), a Igreja de Roma passa a ser vista como aquela que tem a primazia sobre as demais Igrejas, ou
seja, aquela que pode dar uma palavra final sobre determinadas questões. Porém,
inicialmente esta primazia não significava um primado e nem o bispo de Roma era considerado sucessor de Pedro.
Não se atribuía ao bispo de Roma as prerrogativas que lhe serão atribuídas mais
tarde, inclusive com a interpretação literal de textos bíblicos, como aquele de
Mateus (16,17-19).
Uma
interpretação desse tipo vai aparecer pela primeira vez no século V, com o papa
Bonifácio I (418-422); se radicaliza com o papa Gregório VII. Este papa,
reagindo à intromissão de imperadores e príncipes na Igreja, empreende uma
reforma que culmina na absolutização do poder papal. Gregório VII (1073-1085) entendia
que o poder do papa, tornado automaticamente
santo a partir do momento em que era eleito (daí o título de “santidade” ou
de “santo padre” atribuído ao papa), estava acima de todos e acima de tudo.
Somente o papa recebeu o “poder das chaves”, ou seja, o poder de “ligar e
desligar” (Mt 16,19). Por essa razão todas as pessoas da Terra devem se
submeter ao seu poder. Tal interpretação chega ao seu auge no final do século
XIX, quando o primeiro Concílio realizado no Vaticano, por forte pressão do
papa Pio IX, decreta a infalibilidade papal.
Pode-se
concluir, então, que a primazia da Igreja de Roma, que vigorou durante o
primeiro milênio, não incluía uma centralização de poder absoluto, a ponto de
fazer do bispo de Roma um super bispo e da Cúria Romana uma monarquia absoluta,
com poderes absolutos, a ponto de intervir autoritariamente e indevidamente
sobre a vida das Igrejas locais. A primazia era da caridade, ou seja, para
ajudar as Igrejas locais a viverem em paz e concórdia. Jamais foi pensada em
termos absolutos, autoritários e de dominação, como lamentavelmente aconteceu
no segundo milênio, sendo inclusive uma das causas das muitas divisões na
Igreja. Por essa razão, para se chegar à unidade desejada, é indispensável que
a Igreja de Roma volte a ser o que
era no início, renunciando a todo tipo de autoritarismo e de mando sobre as
demais Igrejas. Que volte a ser serviço de caridade para a unidade e não
exercício de poder monárquico absoluto sobre todo o cristianismo. É
indispensável também que as demais Igrejas, inclusive aquelas nascidas a partir
da Reforma, acolham esta função da primazia da Igreja local de Roma. Sem esse
esforço mútuo, a unidade entre os cristãos não virá e a mensagem do Evangelho
será cada vez mais enfraquecida pelo contra-testemunho da divisão.
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