sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Sentido do Natal


Natal: comemoramos, mas não entendemos

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Conhecemos a origem da festa cristã do Natal. Ela remonta aos tempos da chegada do cristianismo à capital do império romano. Ao chegar a Roma os cristãos encontram, por volta do dia 25 de dezembro, uma festa ao deus Sol. Tratava-se de uma celebração para comemorar o solstício de inverno do polo norte. A partir dessa data os dias começavam a ser mais longos, o frio ia diminuindo, o calor aumentando. A terra ia ficando aquecida e favorecendo o plantio. Numa tentativa de inculturação, o cristianismo vai substituindo essa festa pela comemoração do nascimento de Jesus, considerado a “luz do mundo”, ou “a luz da vida” (Jo 8,12).

            Embora significativa, a festa do Natal não entrou de imediato no calendário litúrgico cristão, voltado inicialmente, e quase que exclusivamente, para a celebração da Páscoa, memorial da morte e da ressurreição de Jesus. Com o passar do tempo a celebração do nascimento de Jesus foi sendo misturada com a comemoração de São Nicolau, santo que teria vivido no IV século, um velhinho bondoso que, segundo a tradição, distribuía esmolas e presentes para as pessoas, especialmente para as crianças. Aos poucos acontece a “noelização” do Natal, ou seja, a substituição do Menino Jesus por Papai Noel. A comemoração do nascimento do Menino Jesus cede lugar ao velhinho de barbas brancas que, na noite de Natal, sai deslizando pela neve com o seu trenó, a fim de levar presentes para as pessoas.

            De acordo com uma tradição, São Francisco de Assis teria feito uma tentativa de resgate do significado cristão do Natal, armando o primeiro presépio da história. Ele queria expressar plasticamente a singeleza, a pobreza, a ternura e a humildade do Filho de Deus. Buscava, assim, retornar às fontes evangélicas e dar outro sentido àquela celebração. Mas, também depois disso, a celebração do Natal não conseguiu encarnar na prática o que ela devia significar. Os presépios se sofisticaram e aquela que deveria ser a festa da singeleza do nascimento do Filho de Deus virou uma comemoração qualquer, praticamente desvestida do seu sentido cristão mais profundo.

            Com a chegada do capitalismo deu-se a comercialização do Natal. Este passou a ser uma festa do consumo. Houve um distanciamento total do Menino Jesus, o qual foi substituído por personagens e símbolos insignificantes e sem sentido. No hospital onde estou fazendo tratamento, por exemplo, já foi feita a decoração do Natal. Não há nenhum símbolo e nenhuma figura que lembre aquela criança que, segundo o evangelho de Lucas, teria nascido pobre, numa manjedoura, na periferia de uma cidade periférica da periferia do império romano. Uma rede de lojas aqui do Distrito Federal está fazendo uma propaganda intitulada “Natal sem estresse”. As pessoas podem ficar despreocupadas, pois essa rede possui mais de cinco mil produtos à disposição da clientela e ninguém precisa ficar estressado, pois as lojas vão garantir produtos em quantidade suficiente para todos fazerem suas compras natalinas.

            Ora, tudo isso mostra que nós celebramos o Natal, mas não entendemos nada da sua mensagem cristã. Num país como o Brasil, onde os que se declaram cristãos chegam a quase 90% da população, isso é muito triste e revela a fragilidade desse cristianismo, incapaz de entender e, sobretudo, de viver de sua essência. Ao mesmo tempo revela a responsabilidade desses cristãos, particularmente de suas lideranças, diante do que acontece. De fato, a comercialização do Natal é apenas um dos aspectos de um cristianismo que, em nosso país, foi perdendo progressivamente a sua capacidade profética de sacudir as consciências, principalmente dos próprios cristãos.

            Recentemente o teólogo Renold BLANK, através de seu livro Deus e sua criação (Paulus, 2013), nos ajudou a repensar o Natal numa perspectiva mais cristã, ou seja, mais evangélica. Partindo do dado fundamental da fé, o qual afirma que, através de sua encarnação, Jesus nos revelou a verdadeira identidade de Deus (Jo 14,9), Blank nos convida a refazer nosso modo de celebrar o Natal. Diz ele: “Somente na religião cristã veneramos um Deus que se revela na pequenez de uma criança, em sua impotência e fraqueza, mas também em sua carência de amor. Costumes natalinos desenvolvidos ao longo de séculos expressaram esse saber em imagens que são, em parte, folclóricas. Todas elas, porém, permaneceram, por assim dizer, na superfície do evento” (p. 189).

            Eis a melhor definição para a atual celebração natalina, mesmo por parte dos cristãos: pura superficialidade. E isso por várias razões. Em primeiro lugar porque, ao fomentar o consumo, esse tipo de celebração se distancia daquele que é a razão de sua existência, o Menino Jesus, nascido pobre e simples na periferia de uma cidade insignificante. Em segundo lugar, porque ao se apresentar como uma criança totalmente desprotegida, necessitada de tudo, inclusive de carinho e de amor, o Natal deveria revelar a verdadeira face de Deus. Não um Deus onipotente, poderoso, castigador, dominador, mas um Deus humilde e simples e que quer ser venerado assim. Mas os cristãos não entenderam até hoje esta lição do Natal e continuam adorando um Deus distante, poderoso e até mesmo aterrorizador. Um Deus general, controlador, fiscal, e que fica cobrando de nós um monte de dívidas. Por fim, o Natal se tornou uma festa superficial porque não afeta os nossos relacionamentos. Há troca de presentes, congratulações, lágrimas etc., mas deixamos tudo como está. Como cristãos não nos importamos como o que está acontecendo. Não nos importamos com as injustiças, com a miséria, com as desigualdades, com os males que afetam uma sociedade, que se orgulha de ser cristã.

            Blank afirma que no Natal, “Deus mostra que ele não está interessado no poder. Em vez disso, ele vai ao encontro dos seres humanos no sorriso de uma criança. De uma criança, porém, ninguém tem medo [...]. Um Deus que se manifesta na forma de uma criança necessitada de proteção, esse Deus pode ser amado porque não precisamos ter medo dele” (p. 190-191). Disso se conclui que o verdadeiro espírito de Natal não está nas lojas, nas ceias e nem mesmo nas celebrações sofisticadas ou, às vezes, tediosas que se fazem nas igrejas. Celebrar o Natal de verdade, dentro da dinâmica da encarnação de Jesus, é amar um Deus que rejeitou todas as formas de poder e de dominação. Mas é, acima de tudo, renunciar a todos os “mecanismos do poder, seja no plano político, seja no plano religioso ou privado. Diante de uma história secular de poder do cristianismo, isso deve ser ressaltado com toda clareza” (p. 191-192).

            O Natal nos revela que Deus não quer ser visto, venerado, adorado como rei potente, todo-poderoso, vingativo, castigador, rico e amigo dos ricos. Ele quer ser acolhido, amado, adorado como um Deus fraco, que escolhe a fraqueza e os fracos; que escolhe o caminho da insignificância, da pequenez, da pobreza. Ele quer ser visto pelos cristãos e pelas cristãs como o Deus dos pobres, dos pequenos, dos humildes e dos simples. Um Deus-criança que suscita ternura, desperta carinho, alegria e do qual não é preciso ter medo.

            O fato de ainda continuarmos vendo Deus de outra forma, e vivendo de maneira diferente daquela através da qual ele se manifestou, prova que não entendemos nada do Natal. Celebramos, gastamos, enfeitamos ruas e casas, mas não percebemos a mensagem essencial desta festa. Revela a nossa responsabilidade de cristãos e de cristãs em reverter essa situação. Precisamos retornar com urgência ao espírito original do Natal. Àquele verdadeiro espírito que o evangelista Lucas quis nos comunicar quando registrou que o Filho de Deus foi colocado “na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7).

            Precisamos fazer o Natal voltar a ser a festa do nascimento do Menino Jesus. Precisamos desvestir o Natal de toda caricatura neoliberal, comercial e exploradora. Os cristãos e as cristãs precisam voltar a ser discípulos do menino de Belém. Um bebê pobre, indefeso, carente, pequeno e bem humano. Precisam mudar suas concepções e suas experiências do Deus de Jesus. Melhor dizendo, os cristãos e as cristãs precisam mudar de deus, deixando de ser idólatras, adoradores de um falso deus. Nós, como o menino de Belém, precisamos aprender a amar de verdade, pois somente o amor verdadeiro revoluciona o espírito do Natal. É claro que isso não é fácil, pois, “de repente fica menos fácil cantar os antigos hinos de Natal, sem começar ao mesmo tempo a amar as pessoas, abrir-lhes o coração e responder suas perguntas com amor” (Blank, p. 195). Não podemos celebrar o Natal sem responder às grandes perguntas que a humanidade de nossos dias, especialmente o mundo dos pobres e excluídos, coloca para o cristianismo. Não há outro caminho para devolver ao Natal o seu espírito cristão senão aquele de um Deus incômodo que nos desestabiliza por completo ao se apresentar como uma criança que “toma inequivocamente partido pelos escravos e contra o sistema de dominação político-econômico” (Blank, p. 199). Um Deus que, na manjedoura de Belém, opta decididamente pelos derrotados, pelos excluídos e pelos marginalizados.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Advento


Advento: “quem sabe faz a hora”

 José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            No cristianismo, especialmente no Catolicismo Romano, a celebração do Natal é sempre precedida de um tempo de preparação conhecido como Advento. São quatro semanas nas quais os cristãos e as cristãs se preparam para celebrar o nascimento de Jesus. São características do Advento as atitudes de espera e de expectativa. A atitude da espera remonta ao tempo dos reis, quando estes costumavam visitar alguma cidade ou algum lugar. O povo ficava esperando o rei e essa espera se revestia ao mesmo tempo de expectativa acerca daquilo que o rei iria trazer para os súditos. Na maioria das vezes a espera e a expectativa eram revestidas de muita angústia, um vez que a visita de um rei quase sempre significava más notícias para o povo: mais impostos, mais decretos, mais opressão etc. Por essa razão esse tempo de espera era acompanhado de muita passividade, exceto quando alguns cidadãos mais exaltados resolviam se rebelar contra o rei e espera-lo com uma revolta, a qual geralmente era sufocada brutalmente pelo exército do rei.

            Na liturgia cristã a espera e a expectativa, típicas do tempo do Advento, têm uma conotação bem diferente. Não se trata de esperar um rei poderoso que vai chegar, trazendo más notícias para os seus súditos. Por isso não é um tempo de angústia e de tristeza, mas de uma expectativa alegre, uma vez que aquele que vai chegar é alguém profundamente simples e humilde; uma criança totalmente dependente e carente de tudo. E, enquanto criança carente e dependente, não mete medo. Pelo contrário, suscita nas pessoas sentimentos de ternura, de compaixão e de confiança. A espera cristã, da qual fazemos memória no Advento, também não é uma espera passiva, mas um convite a confiar e agir, pois aquele que vai chegar nos anima na direção do engajamento e do compromisso.

            Todo e qualquer tempo litúrgico que celebramos na Igreja tem como finalidade nos lembrar uma dimensão permanente da existência cristã. Não se trata de viver determinadas atitudes por um período e depois nos esquecermos totalmente delas. Nesse sentido, o tempo do Advento quer nos chamar a atenção para uma dimensão constante da existência cristã. Todo cristão, toda cristã, toda comunidade eclesial precisa viver num permanente estado de espera e de expectativa do Senhor que está para vir. A Igreja aproveita da celebração do Natal para relembrar, durante quatro semanas que o antecedem, esta condição permanente da vida cristã. A espera e a expectativa cristãs não devem acontecer apenas no período do Advento, mas durante toda a vida de um cristão e de uma cristã. As primeiras comunidades cristãs perceberam isso com muita nitidez. Em suas reuniões e celebrações costumavam suplicar: Maranatá, expressão aramaica que literalmente significa “vem Senhor” (Ap 22,20; 1Cor 16,22). Aliás, uma expressão já usada pelos judeus, antes do cristianismo. Normalmente quando um judeu encontrava outro judeu costumava dirigir-se a ele com essa expressão, manifestando a sua crença na eminente vinda do Messias.

            Enquanto dimensão permanente da vida cristã o Advento, a espera e a expectativa expressam antes de tudo a convicção de que o Deus de Jesus se manifesta sempre na história, ou seja, na realidade da vida cotidiana. Ele se faz sempre presente em nossa existência, convidando-nos ao seguimento de seu Filho e a nos engajarmos em ações concretas que revelem a presença do Reinado de Deus no meio de nós.

Porém, a característica principal dessa manifestação é a surpresa. Deus não avisa que ele vai chegar, que ele vai se manifestar, que ele vai se revelar às pessoas e às comunidades. Ele chega de improviso (Mt 24,43-44): “Eis que venho como um ladrão” (Ap 16,15). Geralmente as manifestações de Deus se dão de maneira bem simples: em situações, lugares e pessoas que nós nem sequer imaginamos. Por esse motivo Jesus nos convida a ficarmos atentos e atentas para sabermos “interpretar o tempo presente” (Lc 12,54-57), ou seja, para percebermos nos acontecimentos do momento em que estamos vivendo os apelos de Deus.

            Por essa razão um outro elemento significativo que caracteriza o Advento, enquanto estado permanente da vida cristã, é a vigilância (Lc 12,35-48). Vigiar não é ficar apavorado, com medo, com ânsia, com insônia, temendo a chegada de um carrasco. Vigiar é dispor-se a escutar o chamado divino que se manifesta no cotidiano da vida e dispor-se a realizar a tarefa que ele quer nos confiar. Os Evangelhos expressam tal convicção através de uma simbologia estupenda: “Estejam com os rins cingidos e com as lâmpadas acesas” (Lc 12,35). A vigilância é, pois, essa atitude de quem está antenado, sintonizado com a realidade para nela perceber os apelos divinos.

Note-se que não se trata de estar sintonizado diretamente com Deus, mas com a realidade na qual Deus se manifesta. Há muitos que perdem tempo querendo descobrir a voz de Deus e se esquecem de que ele está falando por meio dos sinais dos tempos, através daquilo que está acontecendo no mundo. Pelo menos é o que a Bíblia nos ensina através dos relatos de vocação. O vocacionado ou vocacionada fica querendo saber diretamente de Deus o que ele quer, mas ele sempre os convida a ver, a ouvir, a enxergar, a dar-se conta da realidade onde ele está se manifestando (Êx 3,7-10).

O tempo do Adento é, pois, uma oportunidade que temos de reavivar a nossa espera e a nossa expectativa, entendidas como dimensões permanentes da vida cristã. Porém, não sei se isso está realmente acontecendo em nossas Igrejas. E isso por duas razões. Em primeiro lugar porque os cristãos, de um modo geral, são também infectados pela onda de consumismo que antecede o Natal. Salvo raríssimas exceções, os cristãos e as cristãs se preparam para o Natal indo às compras, frequentando shoppings e gastando o que não podem. Em segundo lugar porque, depois da compra de presentes, se lembram de ir ao templo fazer algumas orações e assistir a alguma missa ou culto. Reduzem a espera e a expectativa a atos de beatice e de carolice. A reza, por si só, não conduz ao clima do Advento, entendido como espera e como expectativa da vinda de Cristo, do jeito e da forma como ele costuma se manifestar. A reza, por si só, não conduz à vigilância, ou seja, à capacidade de ler os sinais dos tempos. A reza excessiva, diferentemente do que se pensa, pode levar à incredulidade (Mt 28,17; Lc 24,41).

O que se espera é que as lideranças cristãs saibam orientar bem as pessoas neste período do Advento. Que não fiquem iludindo os fiéis e reduzindo a preparação para o Natal a um amontoado de rezas, de novenas, de velas coloridas e de incenso. Que sejam capazes de ajuda-las a perceberem os sinais dos tempos e a serem, de fato, vigilantes. Capazes de estimulá-las ao compromisso e à ação. No Advento se deveria cantar com paixão o refrão da música de Geraldo Vandré: “Vem, vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Quem, no Advento, cruza os braços e espera acomodado as manifestações de Deus, não entendeu nada do espírito desse tempo litúrgico. “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino do Céu. Só entrará aquele que põe em prática a vontade do meu Pai, que está no céu” (Mt 7,21). Quem reduz seu Advento a rezas, novenas, loas, missas e cultos, não compreendeu nada do que ele significa. Não está cultivando a verdadeira espera e a verdadeira expectativa cristãs.

sábado, 15 de novembro de 2014

Atualidade


Preconceito contra nordestinos:
Perda da racionalidade e da essência do cristianismo

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Nasci no Nordeste brasileiro, no município de Araci (Bahia), numa região conhecida como “Polígono da Seca”. Nasci no meio da caatinga, porque nasci na zona rural. No período entre 1961 e 1963, quando eu estava entre os cinco e sete anos de idade, a região enfrentou uma grande seca. Lembro-me bem que com apenas cinco anos de idade já acompanhava meu pai e minha mãe no enfrentamento da seca. Eles não me faziam trabalhar, mas eu, com a curiosidade própria de criança, observava tudo muito bem. Depois cresci, ganhei o mundo, fui estudar na Europa, tornei-me teólogo e rodei por todo o Brasil em encontros e assessorias. Fiz amigos por toda parte, inclusive no sul do país, onde sempre fui tratado com muito carinho, respeito e consideração. Não me lembro de ter sido maltratado alguma vez no sudeste ou no sul do país por causa de minhas origens nordestinas.

            Porém, nas eleições de 2010 e nestas últimas eleições senti-me profundamente maltratado e discriminado, pois o preconceito contra os nordestinos, espalhado pelas redes sociais, atingiu-me profundamente e deixou-me muito triste. Deixou-me triste, sobretudo, não apenas porque sou nordestino, mas porque atitudes como essas revelam a face perversa do ser humano, capaz de desatinos como esse. Fiquei triste porque a história da humanidade mostra com suficiência o quanto o ódio, a discriminação e o preconceito contra determinadas categorias de pessoas foram capazes de gerar massacres e sofrimentos para a humanidade. E, mesmo assim, não aprendemos a lição. Continuamos, burramente, a repetir o mesmo erro.

            Mas a tristeza maior é saber que, na maioria das vezes, tais atitudes partem de pessoas que se dizem ou se professam cristãs. São frequentadoras de templos, de cultos, de missas, “comedores de hóstia”, devotos da Bíblia Sagrada. Andam proclamando por toda parte que “aceitaram Jesus”, mas o crucificam diariamente ao discriminar ou cultivar preconceitos contra certas categorias de pessoas.

O Censo de 2010 revelou que 93% da população brasileira se declara adepta de uma religião. Quase 90% afirma pertencer a uma confissão cristã. O que nos autoriza a dizer que boa parte, senão a totalidade daqueles e daquelas que discriminam os nordestinos é formada de cristãos e de cristãs. Mesmo porque, de um modo geral, os que se declaram ateus ou agnósticos e as pessoas das religiões não cristãs, que vivem no Brasil, costumam ser mais tolerantes. Pelo menos esta é a minha experiência.

            Antes de mais nada é preciso dizer que todo preconceito contra determinadas pessoas ou grupos de pessoas é fruto da ignorância, ou seja, da falta de conhecimentos mais elementares. E como tenho percebido que tais atitudes partem quase sempre de pessoas que possuem formação acadêmica ou científica, isso se torna ainda mais grave e a responsabilidade dessas pessoas, diante da humanidade e diante de Deus, aumenta ainda mais. Hoje qualquer pessoa que tenha cursado o ensino fundamental e o ensino médio sabe o que dizem as diversas ciências. Somos todos, sem exceção, descendentes dos hominídeos, macacos-homens, ou homens-macacos, que habitavam a Terra a partir de quatro milhões de anos atrás. Estes, por sua vez, são descendentes dos primatas. Hoje há certo consenso, por parte dos cientistas, de que a vida humana teria surgido na África, de um único e mesmo tronco, quando, por uma obra maravilhosa do processo evolutivo, alguns descendentes dos primatas desenvolveram melhor o seu cérebro, tornando-se “homo erectus” (que anda a pé) e, um pouco depois, “homo sapiens” (capaz de desenvolver tecnologias para facilitar a vida). Esse processo levou ao que os antropólogos chamam de hominização, ou seja, o ser humano desenvolveu a capacidade de pensar, de refletir, inclusive sobre si mesmo, e de saber que é um ser pensante. Portanto, somos todos descendentes dos primatas, dos hominídeos; somos todos parentes uns dos outros. O fato de ter nascido numa determinada região do planeta não torna alguém superior a ninguém. Esse dado não elimina a sua condição de descendentes dos primatas e de parente de todos os humanos da Terra. Pode, sim, tirar a sua condição de hominização, pois quem acredita ser superior aos demais seres humanos por ter nascido em uma região da Terra já perdeu a sua capacidade de pensar, de refletir com lógica e racionalidade. Já perdeu a principal característica que o distingue dos primatas.

            Dito isso, convém salientar que toda forma de preconceito e de discriminação é uma negação explícita da fé cristã. Os textos do Segundo Testamento, fundamentados no Primeiro Testamento, são muito claros em rejeitar toda forma de preconceito contra determinadas classes de pessoas. Jesus, o fundador e o fundamento da fé cristã, combateu de forma veemente todo preconceito e toda discriminação. O Evangelho de Marcos, considerado o mais antigo dos evangelhos canônicos, apresenta Jesus, logo no início de seu ministério, como alguém que se mistura com publicanos, cobradores de impostos e prostitutas (Mc 2,13-17). Estas categorias de pessoas, dentro da cultura judaica da época, eram vítimas de preconceitos e, por isso, profundamente discriminadas e excluídas do convívio social.

Do ponto de vista geográfico e regional, a elite judaica desprezava os samaritanos, pois os considerava um povo que tinha se misturado com não-judeus, durante o período do cativeiro babilônico. E, como povo misturado, não era de “pura raça”. O preconceito era tão forte que os judeus não falavam com os samaritanos (Jo 4,9). Jesus quebra esse preconceito regional, dialogando publicamente com uma mulher samaritana (Jo 4,7-27), fazendo elogios rasgados a um samaritano (Lc 17,16-19) e apresentando um deles como modelo perfeito de discípulo (Lc 10,25-37). E quando um grupo de samaritanos, certamente impulsionados pelo preconceito do qual eram vítimas, se recusa a hospedar Jesus em um dos seus povoados, os discípulos querem se vingar. Mas Jesus não aceita tal comportamento vingativo e os repreende, entendendo perfeitamente o gesto daquelas pessoas (Lc 9,52-56).

Os exemplos podiam ser multiplicados, se quiséssemos mostrar mais exaustivamente como Jesus se posicionou contra toda forma de preconceito e de discriminação. Mas podemos parar por aqui para lembrar um outro aspecto da vida de Jesus, que não é acidental e ter um valor incalculável para a compreensão do que estamos dizendo. Trata-se do fato de que, ao encarnar-se, o Filho de Deus não escolhe nascer em Jerusalém, centro cultural, religioso e político daquele período da história judaica, mas na periferia, na Galileia. A Galileia no tempo de Jesus era discriminada, da mesma forma que o Nordeste brasileiro hoje é discriminado por certas pessoas do Sudeste e do Sul. Era tida como terra de gente atrasada, ignorante, inculta e o seu povo considerado “zé povinho” pelos mandatários de Jerusalém. A Galileia era tida pela elite de Jerusalém como a região cujo povo “ficava nas trevas” (Mt 4,16), um eufemismo para afirmar “civilizadamente” que era uma terra de gente ignorante.

E como se isso não bastasse, o Filho de Deus decide viver com sua família em Nazaré, um povoado da Galileia profundamente discriminado pelos judeus (Jo 1,46). O título de “Nazareno” (Jo 19,19), dado a Jesus pelas autoridades religiosas e políticas da sua época não visava apenas apontar a sua origem. Tinha como objetivo principal discriminá-lo e desacreditá-lo diante do povo. Esse aspecto da encarnação de Jesus era tão significativo para o cristianismo primitivo que, segundo a versão canônica mais antiga dos Evangelhos (Mc 16,7; Mt 28,7), será preciso retornar à Galileia para “ver” Jesus. Ou seja, para ser verdadeiro, o cristianismo terá que optar pelos derrotados, pelas vítimas do preconceito. Terá que se identificar com aqueles que são excluídos do convívio social por causa de sua origem e por causa de sua pertença a uma determinada classe de pessoas

Esse detalhe geralmente passa despercebido para a quase totalidade dos cristãos. Mas, como notou muito bem Renold BLANK, em seu livro Deus e sua criação (Paulus, 2013, pp. 188-253), se levarmos a sério a fé na encarnação, somos obrigados a crer que, em Jesus, Deus opta pelos derrotados e questiona os sistemas tradicionais de valores. Ser galileu, ser nazareno, não é um detalhe periférico. É elemento central da encarnação, mistério que alicerça, fundamenta, a fé cristã. Deus quis que seu Filho pertencesse a uma classe de derrotados e discriminados pelo sistema religioso e político de sua época. E se “Deus é assim como ele se comportava em Jesus Cristo, surge disso uma exigência inevitável para todas as pessoas que nele creem: elas precisam verificar se seu sistema de valores religiosos corresponde a esses parâmetros. E se não corresponde ou somente em parte, elas precisam reconsiderar o sistema, modificar seus projetos e reorientar sua organização religiosa e eclesiástica segundo a ótica daquele Deus” (BLANK, p. 224).

Podemos, então, concluir que o preconceito e a discriminação são negação explícita da fé cristã. Podemos até rezar muito, frequentar templos, sermos comedores de hóstia na Igreja Católica, ler a Bíblia etc. etc. etc. Mas se ainda discriminamos grupos e pessoas, como os nordestinos, ainda estamos num estágio pré-cristão. Ainda não aderimos à pessoa de Jesus. A fé que dizemos possuir é sacrílega, é verdadeira idolatria, pois o Deus que Jesus veio anunciar não discrimina e não alimenta preconceito contra ninguém (At 10,34-36; Mt 5,45) e não aceita falsos adoradores que praticam esse tipo de abominação. Ele é aquele Deus que “continua a se mostrar, em Jesus, como um Deus que se inclina cheio de misericórdia aos fracos, aos descartados e aos pisoteados” (BLANK, p. 214).

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Eclesiologia


VRC com prazo de validade vencido

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Tem circulado na internet um artigo do Pe. Alfredo Gonçalves, scalabriniano, conhecido também como Pe. Alfredinho. Tive a grata satisfação de ser colega do Pe. Alfredinho na CNBB, quando ele era assessor das Pastorais Sociais e eu assessor do Setor Vocações e Ministérios. Nutro por ele uma grande consideração. O referido artigo, com o título “Vocações com prazo de validade” questiona a juventude e o modo de agir dos jovens de hoje que chegam à Vida Religiosa Consagrada (VRC). Mesmo conhecendo o autor do artigo e acreditando na sua “boa intenção”, não posso deixar de discordar de alguns aspectos do seu texto.

            Depois de ler o artigo do Pe. Alfredinho fiquei com a sensação de que ele culpabiliza os jovens de hoje e a sociedade “pela arte do disfarce, da dissimulação e do engano”. Eles são culpados por cultivarem “motivações oblíquas e obtusas para pavimentar o caminho que leva à VRC”. Desenvolvem uma “capacidade inegável de camaleão”. Eles “abraçam a vida religiosa sem qualquer compromisso”, diluindo “no oceano nebuloso e fugidio da modernidade” instituições históricas portadoras de um grande patrimônio e de autênticas tradições. Essa juventude transviada volatiza ou liquidifica os valores sólidos e solidamente enraizados em compromissos duradouros, transformando experiência em experimento. Por trás dessa juventude “líquida” estaria a sociedade contemporânea que, controlada pelo “mercado de consumo”, dita as suas leis, especialmente nesses tempos de avanço da informática que, embora útil, não deixa de, através de suas “mensagens eletrônico-virtuais”, destruir amizades, amores e até noivados.

         Tudo isso seria suportável se não faltasse alguma coisa essencial. Em seu artigo o Pe. Alfredinho omite por completo qualquer referência à responsabilidade das instituições eclesiásticas, como é o caso da VRC. Se existem “vocações com prazo de validade” é porque existem também instituições eclesiástica com “prazo de validade vencido”. O atual estilo ou formato de VRC está superado há muito tempo. O próprio Concílio Vaticano II, através do parágrafo 2 do Decreto Perfectae Caritatis, já reconhecia esse fato e pedia às congregações religiosas que realizassem uma profunda mudança, voltando às origens, ou seja ao Evangelho. Mas, nesses cinquenta anos que nos separam do Vaticano II, não houve uma revolução no estilo da VRC. Tivemos algumas tentativas, como foi o caso da inserção aqui na América Latina. Mas, no seu conjunto, a VRC, no seu modus vivendi (modo de ser) e no seu modus faciendi (modo de agir), continua esclerosada, superada, ultrapassada. Ela ainda se pauta por um estilo tipicamente medieval e, pior ainda, da Contrarreforma.

         Já na primeira metade dos anos 1970 o jesuíta Raimundo Hostie publicou o resultado de uma pesquisa, na qual salientava muito bem essa questão. Na metade dos anos 1990 Felicísimo Martinez Díez, por meio do seu livro Vida Religiosa: carisma e missão (Paulus) evidenciava o completo falimento do atual modelo de VRC e chegava à conclusão de que, para algumas congregações, só restava a morte como futuro. Trazendo dados interessantes Hostie e Díez mostravam que 75% das ordens e congregações fundadas já morreram, já foram extintas. E dizem, sem pudor, que a “causa mortis” destes institutos teria sido a “esclerose múltipla institucional”, causada pelo distanciamento das origens e pela absorção de um estilo de vida distante da radicalidade inicial.

         As pesquisas e os estudos realizados por Rulla, Manenti, Cencini e outros pesquisadores, especialmente da Faculdade de Psicologia da Universidade Gregoriana de Roma, dão conta de que, na dinâmica da psicologia da vocação, os semelhantes se atraem. Logo, se chegam até às congregações e seminários “vocações com prazo de validade” é porque foram atraídas por instituições semelhantes. Os pesquisadores mencionados chamam a atenção para a importância da propaganda vocacional das instituições eclesiásticas que atrai somente aquelas pessoas que se identificam com elas. Portanto, a responsabilidade ética e moral das instituições eclesiásticas pelos casos das “vocações com prazo de validade” é indiscutível. São elas que, com seu estilo, atraem este tipo de jovem vocacionado.

         Além do mais é preciso distinguir claramente a vocação das formas concretas históricas que ela assume no decorrer do tempo. É preciso dizer com toda a ênfase que só existe uma única vocação: o chamamento divino para ser pessoa humana (Gn 1,27-31) e para seguir Jesus Cristo (Mc 1,16-20). O Vaticano II, na Lumen Gentium (cap. V), chamou isso de vocação universal à santidade. O que vem depois é consequência disso. Assim sendo é perfeitamente possível, do ponto de vista bíblico e teológico, que alguém, para viver plenamente a sua vocação humana e cristã, possa mudar a sua forma concreta, histórica, no decorrer dos anos (1Cor 7,17-35). O problema é que a Igreja, a partir do IV século, vai absolutizando a vocação específica do padre, do frade e da freira, como sendo as únicas e verdadeiras vocações. Por isso não se aceita a possibilidade de que uma pessoa deixe a vida religiosa ou o exercício do ministério. Isso é visto como traição. Confunde-se a vocação humana e cristã com suas formas momentâneas. Porém, muitas vezes, as pessoas, para não traírem a vocação fundamental, precisam se distanciar de determinadas formas específicas esclerosadas, arcaicas e ultrapassadas.

         Outro aspecto a considerar é de ordem teológica e tem a ver com a fé. Deus não deixou de chamar pessoas para que vivam intensamente a sua humanidade e para seguir Jesus Cristo. E é preciso afirmar claramente que Deus não chama desmiolados, mas pessoas sérias. Às vezes existem momento de crise (1Sm 3,1), mas a responsabilidade não é de Deus, mas da mediação humana. Aqueles que são encarregados de comunicar o chamamento divino se corrompem e impedem que Deus chame através deles (1Sm 2,12-36).

         Cabe, porém, esclarecer que essas vocações sérias chamadas por Deus não obedecem padrões e critérios convencionais estabelecidos pela instituição eclesiástica (1Sm 16,6-7). Deus é livre de chamar quem ele quer. Por isso, muitas vocações são rejeitadas pelas instituições eclesiásticas porque não se encaixam nas “formas” por elas estabelecidas. Terminam permanecendo apenas aquelas subservientes, bajuladoras, carreiristas, oportunistas etc. Mas é preciso também evidenciar que Deus não chama pessoas “boazinhas”. Ele tem preferência por aquelas que fogem completamente dos padrões convencionais das instituições eclesiásticas (1Cor 1,26-30). Basta dar uma olhada no grupo que Jesus escolheu para se perceber essa verdade. Todos, sem exceção, tinham defeitos (Mc 8,14-21). No grupo havia carreiristas (Mc 10,35-37), covardes (Mc 14,66-72) e até ladrão (Jo 12,6). Portanto, as instituições eclesiásticas precisam admitir o princípio de que Deus continua chamando e chamando pessoas assim, com a ideia de que vocação tem “prazo de validade”. Cabe-lhes a responsabilidade de educá-las para a radicalidade evangélica. Desta forma, o fracasso não está nos jovens e na sociedade, mas no modelo eclesiástico incapaz de transformar os jovens “camaleônicos” em discípulos e discípulas corajosos de Jesus (Mc 16,20; Lc 24,33-35). E a sua incapacidade advém do seu estilo pouco evangélico e mais identificado com os “tiranos deste mundo” (Mc 10,42-43).

         Lamentavelmente o Pe. Alfredinho usa, no seu artigo, uma pedagogia que a Igreja vem usando há séculos, mas que nunca funcionou, a não ser para afastar dela as pessoas. Trata-se de considerar a instituição eclesiástica como infalível e, por causa disso, atribuir todos os males à humanidade e ao mundo. Por esse motivo, na Idade Média, a hierarquia da Igreja Católica Romana não quis dialogar com as pessoas que pensavam diferente, preferindo queimá-las ou enforca-las através da “santa Inquisição”. Se tivesse dialogado a doutrina católica, hoje, seria bem diferente e ela não carregaria na sua história um dos seus piores estigmas. Na Idade Moderna não quis dialogar com o iluminismo e com a ciência, preferindo fechar-se em concepções arcaicas e ultrapassadas que ainda hoje fazem rir. Por fim, na idade contemporânea, se opôs decididamente contra as grandes conquistas da humanidade como a autonomia, a liberdade, a democracia, o socialismo e a liberdade de consciência. E no apagar das luzes do século XIX, o papa Pio IX ainda condenava e excomungava quem aderisse a essas ideias. O resultado foi que estas coisas foram conquistadas apesar da Igreja e, quase sempre, contra ela.

         Infelizmente, como afirmou recentemente um teólogo, a instituição eclesiástica continua com a sua “incapacidade de sequer perceber que estruturas precisam ser modificadas. Os respectivos portadores de decisões fecham-se, numa verdadeira cegueira diante do sistema, contra a intelecção necessária” (BLANK, Renold. Deus e sua criação, Paulus, 2013, p. 104). Mas os cristãos e as cristãs são chamados por Deus “para modificar também todas aquelas estruturas que não correspondem a sua vontade e a suas ideias” (ibidem). E não só. Terão que abolir todas as condições que levaram ao surgimento dessas estruturas que precisam ser mudadas.

Seria, pois, desejável que o Pe. Alfredinho revisse o seu artigo e não culpabilizasse apenas os jovens e a sociedade, mas deixasse bem clara a responsabilidade das instituições eclesiásticas pelo fenômeno das vocações “com prazo de validade”. É preciso, com muita humildade, reconhecer que tais instituições, inclusive a VRC, estão viciadas, dominadas por estruturas de pecado que corrompem até mesmo as pessoas mais inocentes e bem intencionadas. Os recentes acontecimentos no interior da Igreja não nos deixam mentir.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Atualidade


Morrer: um ato profundamente humano

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Dentro em breve estaremos comemorando o Dia de Finados. Veremos uma procissão de pessoas visitando os cemitérios. Alguns irão apenas formalmente, pois pega mal os vizinhos saberem que a família nem sequer visitou o túmulo dos falecidos. Outros chorarão lágrimas de crocodilo, uma vez que, enquanto seus familiares eram vivos, nunca se preocuparam com eles. Outros, ainda, farão visitas verdadeiras para, junto ao túmulo dos mortos, fazer memória de seus antepassados. Mas creio que pouquíssimos aproveitarão deste momento para meditar sobre a morte como mistério profundamente humano.

A vida termina no momento da morte da pessoa. Ao dar seu último respiro o ser humano volta à terra de onde foi retirado (Gn 3,19; Sl 90,3; Jó 34,15). A morte é um fenômeno natural que atinge todos os seres viventes. Não conhecemos nenhum ser vivo que não passe por essa experiência. Todos nós somos concebidos, gestados, nascemos, vivemos por um período e depois morremos. É a lei da natureza e da qual não há como fugir. Afeta todos os seres vivos, sem exceção.

            É claro que existem mortes fora do tempo e antes da hora. Mortes provocadas pela violência, pelo ódio, pela fome, pelas guerras, pelas drogas e pelo egoísmo humano. Este tipo de morte não é natural e nem normal. Contra essa forma de morte devemos nos opor de maneira decidida, uma vez que ela violenta um direito fundamental dos seres vivos, que é morrer depois de uma boa longevidade e de morte natural. Mas, fora isso, a morte faz parte do ritmo da vida e não há como escapar dela.

            Mas por que, sendo um fenômeno natural, temos tanto medo da morte? Por que sofremos quando alguém parte, mesmo depois de uma longa vida? Porque também isso é natural (Jo 11,33-36). Tão natural como o medo que o bebê sente quando tem que deixar o útero para entrar nesta vida, como dizem os estudiosos do assunto. A morte lança a pessoa numa dimensão nova e da qual ainda não podemos participar, por enquanto. Porque ficamos, e não vamos com a pessoa amada, sofremos com a sua perda, com a sua separação.

            Até certo tempo atrás os cristãos pensavam que a morte biológica era o resultado do pecado. Acreditava-se que os nossos progenitores, designados como Adão e Eva, não teriam morrido se não tivessem pecado. Acreditava-se também que a humanidade descendente de Adão e Eva não morreria se não tivesse acontecido aquele primeiro pecado de nossos pais (Gn 3). Essa crença estava fundamentada numa interpretação literal, e até fundamentalista, de alguns textos bíblicos (Rm 5,12).

Hoje, porém, com a ajuda dos conhecimentos científicos, já temos condições de saber que todos os seres vivos morrem e que a morte é parte da dinâmica da vida. Morrer é natural e humano. Assim sendo, não podemos mais continuar acreditando que a morte biológica é consequência do pecado de Adão e Eva, mesmo porque Adão e Eva não foram personagens históricos reais, mas apenas nomes simbólicos que representam a humanidade de todos os tempos. Adão significa literalmente humano, ou melhor, aquele que foi feito com o barro (Gn 2,7). Eva literalmente significa “a Vivente” ou “a mãe de todo vivente” (Gn 3,20).

Quando a Bíblia afirma que a morte é fruto do pecado ela não está falando da morte biológica, mas de outros dois tipos de morte. Antes de tudo da experiência pavorosa da morte que atormenta a humanidade. De fato, mesmo sabendo que vamos morrer; que a morte é natural, nós temos medo de morrer. Temos medo de morrer porque não amamos. A falta de amor gera em nós o medo e o pavor (1Jo 4,18). Aliás, existem pessoas que vivem como se não fossem morrer e quando começam a perceber que “não vão ficar para a semente” entram em pânico e em desespero. Esse medo é provocado em nós pela experiência do pecado. Porque nos sentimos pecadores, ou seja, porque não amamos, tememos a hora derradeira, o encontro definitivo com Deus.

Além disso, ao associar a morte ao pecado, a Bíblia não está falando da morte biológica, mas daquilo que o livro do Apocalipse chama de “segunda morte” (Ap 2,11; 20,6; 21,8), ou seja, da perdição definitiva. Trata-se da decisão deliberada da pessoa de não aceitar a salvação oferecida por Deus (Hb 10,26-31). Esta é a morte definitiva. Porém, nenhum de nós pode afirmar que alguém morreu definitivamente, ou seja, rejeitou a salvação oferecida, pois o julgamento cabe somente ao Filho de Deus (Jo 5,22). E o julgamento é sempre de salvação e não de condenação (Jo 3,17).

Ao morrer, a pessoa morre por inteira, morre na sua totalidade para depois ressuscitar. Antigamente se pensava que morria somente o corpo e que a alma, sendo imortal, permanecia viva esperando o dia da ressurreição. Hoje, com o avanço científico dos estudos bíblicos, sabemos que o ser humano é uma unidade. Quando falamos de alma e de corpo não estamos falando de duas realidades separadas, mas de um único ser humano que possui duas dimensões inseparáveis: a dimensão corporal, ou seja, de visibilidade e de relacionamento com os outros e a dimensão de interioridade, de subjetividade. Assim sendo, quando a pessoa morre, ela morre por completo.

No judaísmo antigo não existia a crença na ressurreição. Acreditava-se que a vida terminava com a morte biológica. A vida das pessoas, particularmente do homem (macho) continuava na descendência (Sl 102,28-29) e no que ele deixava como grandes realizações (Pv 10,7; Sl 112,2.6). Jó, um dos maiores cantores dessa realidade, assim proclama: “quem desce ao túmulo, nunca mais subirá” (7,9). Para o salmista “os mortos já não louvam a Javé, nem os que descem ao lugar do silêncio” (Sl 115,17). Mais tarde passou-se a acreditar que as pessoas eram colocadas no Sheol (ou Xeol), uma espécie de lugar para a purificação provisória dos mortos que esperavam a ressurreição. Porém, no judaísmo antigo, o Sheol significava simplesmente túmulo, cova ou abismo. Não se acreditava em ressurreição.

Portanto, a crença na ressurreição é tardia. Começa a aparecer depois que o povo hebreu passou pela amarga experiência do exílio, da diáspora, da dominação e da perseguição. Alguns, diante de tanto sofrimento, da prepotência do opressor, começaram a se perguntar se a vida se resumia a apenas aquilo: dor, sofrimento, injustiça etc. Começa, então, a nascer a esperança de que há algo além da morte. Inicialmente não era uma crença na vida após a morte, mas a certeza de que o opressor seria destruído e, por isso, era preciso resistir até o fim, a fim de conhecer a libertação (Dn 8-10). Aos poucos, por influência da cultura grega, essa crença vai se transformando em crença na ressurreição, ou seja, numa vida que continuaria depois da morte. Assim, já próximo dos tempos de Jesus, os escritos gregos do Primeiro Testamento, como os Livros dos Macabeus, vão falar de ressurreição dos mortos.

Mas, mesmo no tempo de Jesus, a crença na ressurreição ainda não era coisa pacífica. Conhecemos a polêmica do Mestre com os saduceus, que afirmavam não existir ressurreição (Mt 22,23). Será o cristianismo, a partir da experiência de Jesus, a proclamar definitivamente a crença na ressurreição. Paulo será o grande apóstolo da ressurreição, chegando a afirmar que se Cristo não ressuscitou a fé cristã seria ilusória (1Cor 15,16-19).

Não se pense, porém, que a vida que brota da ressurreição é algo que não tem nenhuma relação com a vida presente. A vida a partir da ressurreição é diferente, é “semente incorruptível”, mas sua origem será sempre, como diz Paulo, aquela mesma que foi “semeada corruptível” (1Cor 15,42), ou “semeada corpo animal” (1Cor 15,44). Não será outra vida diversa daquela que vivemos aqui. Estas palavras do apóstolo nos deveriam ajudar a valorizar melhor essa vida e também a morte, como experiência profundamente humana. Mais do que ficar focados ou até obcecados pelo “céu”, para onde queremos ir, deveríamos viver mais intensamente esta vida presente e nos prepararmos para morrer de uma forma profundamente humana. “Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24). Não seria a atual solidão das pessoas uma expressão visível do medo de encarar a morte de maneira mais humana e natural? Não seria a depressão, tão marcante em nossa sociedade, uma forma de negar a realidade da morte, tão natural e tão humana? Vale a pena, pelo menos no dia de Finados, pensar um pouco nisso.

***
Aproveito para informar que meus artigos sobre assuntos não ligados diretamente à temática religiosa serão publicados, a partir de agora, no blog Centro de Reflexão e de Análise da Realidade (CREAR): http://crear-lisboa.blogspot.com

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Realidade eclesial


Não adianta tapar o sol com a peneira
 
José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário
            Dias atrás publiquei em meu blog um artigo sobre a impostura dentro do ministério ordenado. O artigo também foi replicado pela agência de notícias Adital e por vários outros sites e blogs. Após a publicação do artigo recebi algumas mensagens desaforadas de pessoas completamente transtornadas, que, ao invés de pararem para refletir sobre o assunto, preferiram me “desqualificar”, como se a atitude de desqualificar alguém pudesse diminuir substancialmente a verdade dos fatos.
            É claro que ser desqualificado por determinadas pessoas não me afeta e nem me afetará, já que considero normal que certos indivíduos transtornados, incapazes de dialogar de igual para igual, prefiram a baixeza e a vulgaridade. Diante da evidência dos fatos tentam negá-los não com a clareza científica e o rigor da lógica, mas apelando para a violência, a agressividade e a difamação.
            Mas não adianta tapar o sol com a peneira. Ele continuará brilhando sobre a cabeça do tonto que fizer isso. Tomás de Aquino, na Suma Teológica, afirma que a verdade vem sempre do Espírito Santo, mesmo se proclamada por um demônio. A impostura no ministério ordenado existe desde o início do cristianismo e, creio, sempre existirá. Entendo a impostura, seguindo a indicação dos melhores dicionários, como sendo a ação de enganar com falsas aparências ou falsas imputações. A impostura é o mesmo que embuste, engano artificioso, afetação de grandeza, de superioridade, de orgulho. Toda impostura é sempre acompanhada de presunção e de vaidade. No âmbito do ministério ordenado a impostura está sempre relacionada com a sede de poder, com a avareza ou amor ao dinheiro e a ambição pela fama. É claro que na raiz de tudo está sempre o amor ao dinheiro (1Tm 6,10), fazendo com que certos ministros ordenados transformem a piedade em fonte de lucro (1Tm 6,6). Para conseguir estes três objetivos alguns ministros ordenados não temem mentir, enganar, aparentar, fazer de conta etc.
            Quero reafirmar o que disse no artigo anterior: a maioria absoluta dos ministros ordenados são pessoas equilibradas, honestas, simples, doadas, dedicadas inteiramente ao povo. Eles estão espalhados por todos os cantos, principalmente pelas periferias das grandes cidades, pelos interiores, vivendo muitas vezes em situação de pobreza, sem quase nenhum conforto, trabalhando com muita paixão e muito gosto por amor à causa do Reino. Eles não vivem de aparências e artificiosamente porque não têm ambições, a não ser aquela de servir com humildade e simplicidade a comunidade à qual foram enviados como ministros. Eu, pessoalmente, conheço centenas desses ministros ordenados.
          Porém, não se pode negar a presença no ministério ordenado de verdadeiros impostores que, mesmo em número bem inferior aos ministros honestos, causam muitos desastres dentro da Igreja e geram escândalos para o povo cristão. No momento atual a impostura se faz mais visível devido a certo marketing católico, liderado por sujeitos que transformaram a cruz de Cristo em produto de consumo, que tende a colocar em destaque exatamente estes ministros impostores e transtornados. Uma análise criteriosa, metodológica e científica da presença de certos padres na mídia confirmaria o que estou dizendo. O modo como falam, gesticulam histericamente, se vestem etc. etc. fala por si mesmo e denuncia a presença de um impostor, de um transtornado que precisa aparentar e falsificar.
            Sim, é inútil querer tapar o sol com a peneira. A impostura no ministério ordenado é uma realidade que não se pode negar a não ser com a própria impostura. Como disse no artigo anterior, nas últimas duas décadas foram publicados inúmeros estudos que não deixam dúvidas. Gostaria de citar apenas um, publicado mais recentemente e que, para mim, é a síntese de todos os estudos sérios nos quais aparece com forte evidência a questão da impostura de ministros ordenados. Trata-se do livro Sofrimento psíquico dos Presbíteros do professor da PUC de Minas Gerais, o Dr. William César Castilho Pereira. O livro com 542 páginas é pautado pela metodologia científica da pesquisa de campo, com fundamentação teórica consistente, acompanhado de coleta de dados, observação e análise qualitativa durante 15 anos. Portanto, um estudo científico sério, cujos dados finais só podem ser contestados através de um outro estudo científico igualmente sério e rigoroso.
            Mas, como já afirmava no artigo anterior, mesmo que não existissem estudos sobre o assuntos, os fatos não me deixariam mentir. Os recentes casos de pedofilia dos padres, os escândalos financeiros que penetraram até no Vaticano, as intrigas e futricas clericais das quais tomamos conhecimento a toda hora, não me permitiriam dizer que está tudo bem e que não há imposturas no ministério ordenado. Elas ressoaram inclusive no último conclave e o atual papa, Francisco, não as esconde. Volta e meia, em suas falas, ele volta ao assunto e questiona a impostura de certos ministros ordenados. Basta ler os pronunciamentos dele, especialmente aqueles dirigidos aos padres, para perceber isso com muita clareza.
            Além disso a minha experiência pessoal não me permitiria fingir, fazendo de conta que nada disso existe. Tive a graça de, como teólogo, assessorar centenas de encontros e cursos ligados à área das vocações e dos ministérios. Estive dando assessoria em todos os estados do Brasil, exceto Amapá e Roraima, embora nos encontros e cursos realizados nos outros estados do norte do país sempre encontrei pessoas desses estados. Devido aos temas estudados em minhas assessorias a questão da impostura dos ministros ordenados sempre aparecia. Pessoas simples e também pessoas com mais conhecimento acadêmico e mais capacidade de análise crítica relatavam nesses cursos e encontros diversos casos e situações. Percebia-se nitidamente que não estavam inventando e nem mentindo, mas apenas expondo situações que as deixavam, muitas vezes, tristes e decepcionadas, pois amavam profundamente a Igreja e sofriam com as formas de impostura que relatavam.
            Também durante o período que estive como assessor do Setor Vocações e Ministérios da CNBB (1999 – 2003) pude tomar conhecimento de inúmeros casos de impostura de ministros ordenados. Várias vezes entregamos dossiês completos de situações para os bispos do Conselho Permanente e da Comissão Episcopal de Pastoral. Lembro perfeitamente de um caso bem escabroso que nos foi enviado por um juiz de direito de uma comarca do estado de São Paulo, que havia julgado e condenado um padre. O juiz, que nos mandou os autos do processo, perguntava à CNBB porque os bispos não estavam atentos a esses casos e por que nada faziam para não mais permitir que situações como aquela acontecessem. Mas os bispos, inclusive aqueles do Conselho Permanente e da Comissão Episcopal de Pastoral, de fato, nunca fizeram nada. Nossos dossiês eram recebidos e esquecidos. Somente uma vez, por pressão do bispo que presidia o Setor, tratou-se dos problemas numa reunião. Mas os bispos presentes saíram pela tangente e recusaram-se a aceitar o óbvio e a tomar alguma providência.
            Pude ainda tomar conhecimento de outros casos de impostura de ministros ordenados quando fui assessor e depois presidente do Instituto de Pastoral Vocacional (IPV), com sede em São Paulo. Como o IPV, formado por congregações de carisma vocacional, tinha atividades que envolviam pessoas de todo o Brasil, era possível, em seus encontros e cursos, tomar conhecimento de muita coisa. Mesmo porque um dos objetivos do IPV era preparar animadores e animadoras vocacionais para lidar com situações e casos como o da impostura dos ministros e que acabavam interferindo no serviço de animação vocacional.
            Seria muito melhor para mim falar de outras coisas e não ter que vir a público denunciar esses casos. Mas como discípulo-missionário, seguidor de Jesus Cristo, eu não posso me calar, ainda que outros, que têm o dever de fazer isso, se calem e se omitam. O que espero é que a Igreja Católica Romana tenha a coragem de enfrentar essas situações e ouse encontrar soluções concretas para esse caso, de modo que o ministério ordenado seja cada vez menos infestado pela impostura de certos ministros ordenados. Aliás, é bom registrar que a própria Igreja Romana já dispõe de ótimos instrumentais para realizar isso. Aqui no Brasil, por exemplo, temos excelentes documentos como as Diretrizes para a Formação dos Diáconos Permanentes, as Diretrizes para a Formação dos Presbíteros, o documento sobre o Egressos, que dá orientações acerca de como lidar com seminaristas que saem ou são expulsos de seminários. Nestes documentos as orientações são bem claras e situações, como a impostura por parte de futuros ministros ordenados, levadas em conta, com indicações práticas bem precisas. Mas, tendo presente também a minha experiência, a maior parte dos bispos não leva a sério o que nestes documentos está escrito. Continuam agindo institivamente, subjetivamente e segundo as necessidades imediatas.
            Paulo Freire, há mais de quarenta anos, numa carta endereçada a um “jovem teólogo”, assim se expressava: “Já é tempo de os cristãos distinguirem essa coisa tão óbvia, que é Amor, das suas formas patológicas: sadismo e masoquismo. O contrário do amor não é, como se pensa muitas vezes, o ódio, e sim o medo de amar, que é o medo de ser livre [...]. Os Seminários, para se constituírem em vozes a favor da modificação da estrutura social, devem constituir-se desde já em centros utópicos, ou seja, em denúncia das estruturas desumanizantes nas quais os homens possam ser mais, sorrir, cantar, criar, recriar. Somente assim, os Seminários poderão ser proféticos e falar autenticamente de esperança. É o que eu também desejo e espero, de modo que a impostura entre ministros ordenados caminhe progressivamente para a sua extinção.
***
Aproveito para comunicar que os artigos de minha autoria, relacionados a questões de análise da realidade social e política, passarão a ser publicado pelo blog Centro de Reflexão e de Análise da Realidade (CREAR) cujo endereço é:

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Mês missionário


Dimensão missionária da Igreja

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            No Brasil, há algumas décadas, a Igreja Católica Romana considera outubro como mês missionário. O objetivo, certamente, é levar os católicos a tomarem cada vez mais consciência de uma das dimensões fundamentais do discipulado ou seguimento de Jesus. A Igreja é, por natureza, toda ela missionária, nos lembrava há 50 anos atrás o Concílio Vaticano II. A dimensão missionária, explica o documento conciliar Ad Gentes, brota da missão do Filho e do Espírito Santo. O Pai manda, na plenitude do tempo, o seu Filho que nasce de mulher (Gl 4,4) e envia, através de Jesus (Jo 15,26), o Espírito (Jo 14,16). O Filho, por sua vez, envia os discípulos como missionários pelo mundo inteiro (Mc 16,15), os quais são revestidos da força do Espírito (At 1,8). Portanto, uma comunidade cristã que não é missionária, não é Igreja (ekklesía), ou seja, não é comunidade de fé convocada e reunida pela Santíssima Trindade. Pode ser um clube, uma associação de pessoas religiosas, um grupo de amigos, mas não Igreja, no sentido bíblico e teológico desta palavra.

            Dizer que a Igreja é, por natureza, missionária implica saber e entender qual é a sua missão. A missionariedade decorre da missão. Qual é, então, a missão da Igreja? A mais antiga definição da missão da comunidade cristã, ou seja, da Igreja encontra-se no evangelho de Marcos: “Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Nova para toda a humanidade” (Mc 16, 15).

Três aspectos importantes da missão aparecem neste mandato que Marcos atribui a Jesus. Em primeiro lugar, o núcleo central da missão. Trata-se de “anunciar a Boa Notícia”. Mas, qual “Boa Notícia”? Lucas e Mateus nos dão a resposta. Segundo Lucas, a “Boa Notícia” é dirigida aos pobres e consiste em “proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista”. O objetivo da missão da Igreja é “libertar os oprimidos” e “proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). Mateus, por sua vez, afirma que, para Jesus, o sinal da sua messianidade está exatamente nisso: “aos pobres é anunciada a Boa Notícia” (Mt 11,5). Fica, pois, evidente que a essência da missão da Igreja é, pela palavra e pela ação, contribuir para a libertação dos pobres e dos oprimidos. O restante deve ser apenas consequência disso. Portanto, entre a opção preferencial pelos pobres e a missão da Igreja há um vínculo indissolúvel. Separar as duas coisas é o mesmo que diluir o essencial da missão. Não por acaso o papa Francisco voltou a nos relembrar recentemente este aspecto (EG, 197), que estava sendo sepultado por uma Igreja Católica, que tinha decididamente se voltado para um estilo direitista e ultraconservador durante o pontificado de João Paulo II e Bento XVI. Há razão, pois, a CNBB quando afirma que “o caminho da redenção está assinalado pelos pobres” (Estudos 107, nº 153).

O segundo aspecto importante da missão, assinalado pelo texto de Marcos, é o fato de que a Igreja precisa pensar a missão como ação destinada ao mundo inteiro. Isso significa que o anúncio da Boa Notícia aos pobres deve chegar a todos os cantos da terra. A missão da Igreja deve ser tão marcante e impactante, a ponto de ressoar em todos os lugares de nosso planeta. Este aspecto supõe uma Igreja ousada, corajosa, que não fique trancada dentro dos templos (Jo 20,19), com medo de ser contaminada ou perseguida. Supõe uma Igreja profética, que não aceita fazer pactos com os ricos e poderosos desse mundo, mas que se declara e assume com coragem a causa dos pobres, denunciando os ricos (Lc 6,24-25) e os exploradores dos pobres (Tg 5,1-6). Uma Igreja “frouxa”, medrosa, comprometida com os ricos e poderosos não é e nunca será missionária.

O terceiro aspecto da missão evidenciado por Marcos tem a ver com os destinatários: o anúncio da Boa Notícia deve ser dirigido a toda a humanidade. Todos os homens e todas as mulheres têm o direito de receber da Igreja este anúncio. E não é preciso que se “convertam” ao catolicismo. Em suas próprias culturas, em suas próprias religiosidades, em suas situações concretas, os povos e as pessoas têm o direito de receber da Igreja o testemunho de uma opção firme e decida em favor dos pobres. Este é um tipo de anúncio que todo mundo entenderá, independentemente de sua língua e de sua cultura. E é isso que falta à Igreja, especialmente à Igreja Católica. Ela não consegue sinalizar para a humanidade que está decididamente do lado dos pobres, combatendo toda forma de opressão e promovendo a libertação integral das pessoas e dos povos. Daí o fracasso da sua missão nas mais diversas partes do mundo, inclusive nos países do hemisfério sul, uma vez que falar aqui de cristianismo, de Igrejas, é o mesmo que falar de colonialismo. E as pessoas mais inteligentes, em número cada vez maior, que habitam o sul do planeta, sabem muito bem o que significou para seus países, para suas culturas e para seus povos o colonialismo implantado pelos países “cristãos”.

E não estou dizendo isso por acaso. Todos sabemos que a partir do momento em que a Igreja, contrariando a vontade de Jesus, começou a imitar e a copiar o estilo dos poderosos deste mundo (Mc 10,42-44), ela passou a entender a missão como “plantatio ecclesiae”, ou seja, como mero transplante do estilo europeu de Igreja para as demais regiões do mundo. Fazer missão, missionar, era o mesmo que impor às demais culturas a religião católica. A missão consistia em destruir e eliminar por completo as culturas, tidas como idolátricas, selvagens e pagãs, impondo a ferro e fogo o catolicismo. Foi o que aconteceu, por exemplo, na América Latina, ainda hoje marcada pela violência e pelos massacres praticados contra os indígenas pelos conquistadores espanhóis e portugueses, em nome da fé católica.

Lamentavelmente a maioria dos bispos e dos padres ainda entende a missionariedade da Igreja nesta perspectiva colonialista. Acreditam piamente que fazer missão é o mesmo que fazer proselitismo, ou seja, converter o maior número possível de pessoas para o catolicismo. A maioria deles não tem presente a perspectiva bíblica da missão, sobretudo no que diz respeito à questão do seu significado como anúncio de uma Boa Notícia para os pobres e oprimidos. Várias vezes, em reuniões de bispos, pude escutar alguns deles questionando o modo de evangelizar de instituições como o CIMI e a CPT, que optam pelo diálogo com as culturas e não pelo proselitismo barato. Esses bispos são do parecer que se deve chegar nesses espaços fazendo proselitismo, ou seja, convertendo de qualquer jeito ao catolicismo as pessoas que ali estão. Minha posição foi sempre a de que esse modo de “evangelizar” é de grupos fundamentalistas cristãos e não de verdadeiros discípulos de Jesus.

Talvez ainda precisamos aprender com os grandes santos em que consiste realmente a missão. Lembro-me, neste instante, de Charles de Foucauld, cuja vida foi um mergulho profundo no escondimento e no silêncio. Mas duvido que alguém tenha sido mais missionário do que ele. O irmão Carlos de Jesus entendeu, como santa Teresinha do Menino Jesus, que a missão é essencialmente amar o próximo e não fazer proselitismo. Por isso não tinha medo de dizer que ele estava ali no deserto não para converter os tuaregues, mas para compreendê-los. Tinha a convicção, dizia em 1905, que falar de Jesus para eles significaria afugentá-los. Não que o nome de Jesus, por si só, assustasse os mulçumanos, mas a associação que eles faziam de Jesus com os bárbaros e violentos europeus cristãos. De fato, naquele mesmo período a França dominava a região e praticava as maiores barbaridades contra os nativos, tratando-os como escravos e como objetos quaisquer. Para o irmão Carlos, numa situação como essa, bastava que os tuaregues sentissem que ele era apenas seu amigo e seu serviçal. Isso já era missão, já era evangelização.

“O amor é o meio mais poderoso de atrair o amor, porque amar é o meio mais poderoso de fazer-se amar” (Charles de Foucauld). Assim, continua o irmão Carlos de Jesus, a melhor forma de realizar a missão da Igreja é amando, mesmo sem dizer uma palavra: “sem nunca dizer-lhes uma palavra de Deus, nem de religião, sendo paciente como Deus é paciente, sendo bom como Deus é bom, amando, sendo um irmão cheio de ternura, e rezando”.

Faço votos de que o mês missionário nos ajude a entender tudo isso. Faça-nos perceber que a missão não é algo a mais a se fazer, uma pastoral a mais na Igreja, mas uma dimensão que deve perpassar toda a vida da Igreja. Faça-nos entender que missionar não é fazer prosélitos, mas anunciar a Boa Notícia da libertação dos pobres e oprimidos a todos os homens e mulheres da Terra. E acima de tudo nos faça entender que “a Igreja não é o centro. Cristo é o centro!” (Estudos da CNBB 107, nº 148). E por essa razão é indispensável “passar de atitudes fechadas à formação de uma nova cultura, que constrói cidadania no diálogo e que não tem medo de acolher o que o outro, o diferente, tem a oferecer” (Ibid., nº 157).

A missão, quando entendida desta forma, faz a Igreja deixar de se um amontoado de delirantes alienados, carolas e de beatos para ser uma Igreja laical, isto é, uma Igreja comprometida em testemunhar Jesus Cristo “em todas as circunstâncias, no interior da comunidade humana, tão marcada por dinâmicas excludentes, indiferenças, buscas desenfreadas de consumo e satisfação” (Ibid., nº 163). Quando se entende a missão na perspectiva bíblica a Igreja deixa de ser “um clube de eleitos” (Ibid., nº 146), uma “alfândega controladora da graça de Deus” (EG, nº 47), para ser “uma Igreja pobre, para os pobres, com os pobres e os que se encontram nas periferias existenciais” (Estudos da CNBB 107, nº 151).