sábado, 5 de julho de 2014

Vou fazer uma pausa!


Meus prezados e minhas prezadas,

Estou me transferindo de Brasília para o sul de Minas Gerais, na região de Pouso Alegre, onde pretendo viver o restante dos dias da minha existência.

Devido à mudança, ficarei, por uns dias, ausente do meu blog, até me estabelecer no local onde vou residir e reatar os contatos. Peço a sua compreensão.

A partir de agora terei mais tempo para dedicar-me a ASSESSORIAS a grupos, paróquias, dioceses, congregações religiosas etc. Os que desejarem me contatar, para uma possível assessoria, poderão fazê-lo, provisoriamente, pelos seguintes e-mails:


Um grande abraço!

José Lisboa

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Momento atual


Por que a Copa está acontecendo?

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Há um ano o Brasil foi tomado por uma invasão de manifestações. Pelo ritmo da coisa, parecia que iam acontecer grandes transformações no país. Entre essas transformações, o que parecia mais evidente era que não aconteceria o Campeonato Mundial de Futebol em nosso país. O refrão “não vai ter Copa” passou a ser repetido durante vários meses. Porém, na medida em que se aproximava a realização da Copa, o refrão foi diminuindo. Aos poucos o verde-amarelo foi tomando conta das ruas e o refrão passou a ser considerado “coisa do passado”, praticamente ignorado pela quase totalidade da população brasileira.

            A Copa veio, teve início, está acontecendo a todo vapor, os estádios estão lotados, as ruas enfeitadas, os gringos satisfeitos com a acolhida dos brasileiros. E o que há um ano parecia profecia agourenta, hoje foi sepultado pela maré das cores da nossa bandeira espalhadas por todos os cantos do Brasil. As manifestações estão praticamente vazias. Somente algumas dezenas ou pouquíssimas centenas de pessoas ainda arriscam sair às ruas para gritar alguns chavões que quase ninguém escuta.

            Tenho procurado estudar a razão de tudo isso. Por que certos brasileiros, de repente, parecem acordar de um sono profundo, fazem muito barulho e depois desaparecem de cena, como se nada tivesse acontecido? E isso não aconteceu somente no ano passado. É algo comum à nossa cultura. Quem não se lembra dos “caras pintadas” que saíram às ruas para exigir a renúncia de Collor de Mello? Passando aquele momento eles entraram em letargia para só acordar mais de vinte anos depois. Parece-me que esse fenômeno tem explicações.

            A primeira e principal delas, a meu ver, é que esse tipo de manifestação é promovido e teleguiado pelas elites brasileiras que, usando dos recursos públicos que estão em sua mão (como, por exemplo, a grande mídia), insuflam as pessoas. Mas, como não têm propostas concretas e verdadeiramente voltadas para as reais necessidades do povo, terminam por perder a credibilidade. As elites tentam com essas manifestações criar um clima de insatisfação, visando desestabilizar o momento político e tirar vantagens disso. Mas quando percebem que “o feitiço pode se voltar contra o feiticeiro”, elas mesmas se encarregam de jogar uma ducha fria sobre os fatos. E como lamentavelmente mais de dois terços da população brasileira é formado de analfabetos funcionais, esse contingente de pessoas termina por ser massa de manobra das elites e deixando-se influenciar pelos jargões e refrões. Porém, mesmo sendo analfabetas funcionais, aos poucos vão se dando conta de que tudo não passa de fumaça que, aos poucos, se desmancha no ar. E, de repente, resolvem ficar em casa, vestir-se de verde-amarelo e torcer pela seleção canarinho.

            A segunda explicação está na burrice da atual esquerda brasileira, incapaz, incompetente, desunida, arrogante e ególatra. Quem me fez perceber essa realidade nua e crua foi Rubem Alves. No seu livro Variações sobre o prazer (São Paulo: Planeta, 2013) Alves, muito perspicazmente, faz uma relação entre consciência crítica e erótica. Diz, sem meios-termos, que é a erótica que julga as coisas “em função do prazer que elas lhe causam” (p. 64). E, refazendo-se a Nietzsche, afirma que a esquerda, e no nosso caso a esquerda brasileira, como o espírito alemão criticado pelo filósofo, se encontra com os “intestinos perturbados”, sofre de uma tremenda indigestão: “a esquerda se parece com o espírito alemão, identifica consciência crítica com intestinos perturbados. A consciência crítica da esquerda é sempre a consciência infeliz: padece de indigestão crônica” (p. 64).

            Continuando sua crítica, Alves relembra que as pessoas são corpo. E, como tais, gostam de coisas gostosas e rejeitam as que não são gostosas. E aprofundando ainda mais a sua crítica, o autor dispara sem dó e piedade, dizendo que “toda a esquerda é cartesiana, acredita nos poderes da razão. Argumenta com ideias claras e distintas. Por oposição, são os nazismos, os fascismos e a propaganda que se movem no mundo subterrâneo dos sentimentos sem nome, do irracional. A esquerda usa, como armas contra o irracionalismo, a transparência ideológica e as ideias claras e distintas, que moram na consciência. A esquerda gosta de luzes. Ela ignora que as ideias que moram nas luzes não conseguem se comunicar com o corpo” (p. 77).

            A crítica de Alves dói bastante, mas é a pura verdade. Até hoje, a nossa esquerda não conseguiu se desvencilhar de um linguajar e de um método que ignora por completo a realidade corporal do ser humano. Continua falando e agindo como se o mundo tivesse parado na segunda metade do século passado. Enquanto a direitona consegue sacudir os corpos humanos e envolvê-los numa dança erótica que visa atingir suas intenções e objetivos, a esquerda burra continua pensando como Descartes, como se o ser humano não tivesse corpo e fosse apenas um ser pensante abstrato. Alves conclui: “É preciso entender que a batalha não se trava entre consciência e inconsciência, razão e não razão, entre a cabeça e o corpo. A batalha se trava entre deuses e demônios, ambos habitantes do corpo e, como tais, criaturas do inconsciente” (p. 78).

            E se alguém ainda tem dúvida disso basta olhar a situação da atual esquerda brasileira: totalmente dividida em meros frangalhos, disputando entre si míseros pedaços de poder, incapaz de se unir para derrotar o inimigo comum, enquanto a direita, disfarçada de democracia e de socialismo, deita e rola em cima de tudo e de todos. Mais uma vez aquela que seria a “autêntica esquerda” chegará às eleições completamente dividida e obterá resultados inexpressivos. Veremos que em seus breves programas políticos se limitarão a repetir velhos refrões e chavões contra o capitalismo, sem apresentar propostas concretas para pessoas que, além de pensar, hoje têm necessidades básicas que lhe são sinaladas por um corpo vivo. A essa esquerda se junta outra esquerda burra, aquela eclesiástica, que influenciada pelo maniqueísmo é incapaz de ajudar a esquerda política a se dar conta de que o mundo mudou. Caberia à esquerda eclesiástica, a partir dos mais elementares ensinamentos evangélicos, lembrar aos demais esquerdistas que, no mundo real, anjos e demônios estão misturados. Que essa coisa de fazer política sem querer “sujar as mãos”, ou seja, sem se unir a outras forças democráticas menos esquerdistas é pura ilusão e não leva a lugar nenhum.

            Assim, por exemplo, ao invés de se associar à “paixão brasileira”, no momento representado pelo futebol, insiste em negar o óbvio, acreditando que o povo brasileiro vai abrir os olhos e rejeitar a Copa Mundial de Futebol. Ao invés de se apoderar, positivamente, daquilo que está no sangue dos brasileiros, e promover uma reflexão gostosa que causa prazer, a esquerda pretende burramente impor aos brasileiros que não vibrem com um evento mundial que está acontecendo no país e mobiliza a metade da população do planeta. Ao invés de reconhecer as conquistas, as melhorias, os avanços obtidos até agora, mesmo por quem não a representa totalmente, a esquerda insiste em negar que o país cresceu e superou muitos obstáculos e situações críticas. Desta forma termina fazendo o jogo das elites que, com simples encenações midiáticas, manipula as massas e impede um avanço mais significativo em direção a “outro mundo possível”.

            Continuando dessa forma a esquerda jamais conseguirá mobilizar as pessoas e contribuir efetivamente para uma mudança na direção daquele mundo justo com o qual tanto sonhamos. É hora de uma grande revisão, de sair da ilusão e ser mais realista. Os nossos métodos de esquerda utilizados no passado tiveram seu valor para aqueles tempos. E disso não devemos ter vergonha. Mas o mundo mudou. Talvez esteja na hora da esquerda aprender com o esquerdista Paulo Freire, que dizia: “Desaprender os saberes acumulados a fim de aprender a sabedoria não dita do corpo”. Mais corpo nas ideias, pois, diz ainda Alves, o “corpo sabe ensinar, naturalmente, da mesma forma que a centopeia sabe andar sem tropeçar” (p. 78).

quinta-feira, 12 de junho de 2014


Nova tentativa de assassinato da Teologia da Libertação

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

                A Teologia da Libertação (TdL) foi gestada na 2ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (CELAM), realizada em 1968 em Medellín, na Colômbia. Naquela ocasião os bispos do nosso continente tentaram aplicar o Concílio Vaticano II à realidade que marcava a vida dos nossos povos e dos nossos países. Logo depois, a TdL foi sistematizada pela obra de Gustavo Gutiérrez e de outros teólogos, os quais tentaram fazer uma reflexão teológica que desenvolvesse a intuição de Medellín, que era centrar a sua atenção sobre o ser humano do continente, frustrado em suas legítimas aspirações, devido às enormes injustiças e à opressão que assolavam os diversos países.

                Depois de alguns anos de aceitação e de esforço para traduzir na prática as suas intuições, a TdL passou a ser incompreendida e perseguida. Isso aconteceu de modo particular a partir de 1978, com o início do pontificado do polaco Wojtyla. Este papa, assessorado por uma Cúria ultraconservadora, foi podando sistematicamente e cruamente todas as iniciativas da Igreja da Libertação. Censurou e até cassou alguns dos mais renomados teólogos da libertação, nomeou bispos tradicionalistas e perseguiu aqueles que tinham desenvolvido em suas dioceses uma pastoral da libertação. Esta política continuou no pontificado do alemão Ratzinger. Com a chegada do papa Francisco houve uma diminuição da perseguição, mas ainda existem resquícios de tentativas de assassinato da TdL.

                A mais recente tentativa de assassinato aconteceu poucos dias atrás. Segundo informação do site do Instituto Humanitas da Unisinos, os membros da presidência do CELAM, em sua visita anual à Santa Sé, afirmaram em entrevista que a TdL está “muito velha, se não é que já está morta”. Embora tenha reconhecido os esforços dos teólogos da libertação, o presidente do CELAM, dom Carlos Aguiar Retes, disse que depois da TdL “temos uma reflexão teológica mais sapiencial” que abandonou a luta de classes e a confrontação entre ricos e pobres. Com estas afirmações o ilustre prelado, presidente do CELAM, tentou desacreditar a TdL: ela está velha ou morta e não é uma teologia “sapiencial”.

                Os membros da presidência do CELAM, resquícios de um episcopado alinhado com a Cúria Romana de Wojtyla e Ratzinger, ainda tentam sufocar uma teologia original, autêntica e que incomodou muita gente, especialmente os empacotados de roxo e os purpurados que frequentavam as luxuosas casas e as cozinhas das “raposas” (Lc 13,32) que patrocinaram a opressão, a injustiça e a miséria em nosso continente.

                Mas um simples olhar mostra que a TdL não morreu e nem envelheceu. Ela continua nova e vigorosa, antes de tudo no legado que nos foi deixado por pastores como Oscar Romero, Dom Hélder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga e Dom Angélico Sândalo Bernardino, só para citar alguns nomes. O legado desses pastores da libertação ultrapassou as fronteiras da própria Igreja Católica Romana e as fronteiras do tempo. Hoje, no mundo, centenas de milhares de mulheres e homens continuam a testemunhar a sua fé, graças ao testemunho desses pastores da libertação. Milhares de iniciativas surgiram por conta da ação pastoral desses bispos católicos e continuam existindo e agindo, apesar dos ventos que sopram em sentido contrário.

                Também alguns bispos e pastores de outras Igrejas irmãs, como a Igreja de Confissão Luterana, a Igreja Anglicana, a Igreja Metodista, a Igreja Presbiteriana, descobriram na TdL o caminho para uma ação mais incisiva em nosso continente e no mundo. Não posso deixar de lembrar a figura de dois representantes destas Igrejas: o pastor presbiteriano Jaime Wright e o pastor luterano Milton Schwantes, verdadeiros ícones das Igrejas da Reforma no Brasil e que encontraram na TdL o caminho para a evangelização. Ainda hoje homens e mulheres dessas Igrejas, teólogas e teólogos, pastoras e pastores desenvolvem suas atividades de anúncio da Boa-Notícia tendo como ponto de apoio a TdL. Sem falar depois nas inúmeras iniciativas ecumênicas ainda hoje em pleno vigor e que tiveram o seu berço na TdL. Basta lembrar, por exemplo, o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) com a sua vasta produção de subsídios para a animação bíblica popular. Por fim, cabe lembrar também a maravilhosa experiência das Comunidades Eclesiais de Base, expressão máxima de uma Igreja que bebe na fonte da libertação. Alguns tentam hoje minimizar essas comunidades, mas elas continuam aí, existindo como jeito novo de ser Igreja. No último Intereclesial, realizado no início deste ano em Juazeiro do Norte (CE), a terra do Padim Ciço, elas mostraram a sua força e a sua pujança.

                No campo da reflexão teológica, depois da chegada do papa Francisco, houve uma retomada da TdL, até então sufocada e proibida pelos monsenhores curiais. O pai da TdL, Gustavo Gutiérrez, publicou recentemente com o Cardeal Gerhard Ludwig Müller , atual Prefeito da Congregação Vaticana para a Doutrina da Fé, um texto no qual retomam os principais elementos dessa teologia. O livro, originalmente escrito em alemão, foi traduzido para o português e publicado no início deste ano por Edições Paulinas, com o título: Ao lado dos pobres. Teologia da Libertação. Muito significativa a intervenção do Cardeal Müller, especialmente no capítulo quatro do livro, no qual o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé fala das controvérsias em torno da TdL. Antes de tudo o Cardeal Müller reconhece a sua legitimidade, afirma a sua necessidade para a Igreja e diz tratar-se de uma autêntica teologia. Lembra que a teologia latino-americana ajudou a corrigir a “clássica doutrina social da Igreja”, construída a partir de um dualismo entre mundo natural e mundo sobrenatural.

O Cardeal Müller reconhece também a legitimidade da mediação socioanalítica, lembrando inclusive que esse tipo de recurso não é novidade na teologia católica. Grandes teólogos, como Tomás de Aquino, já tinham utilizado tal método, uma vez que é impossível fazer teologia abstrata, ou seja, sem partir da realidade. O Cardeal chega mesmo a reconhecer a importância da mediação da análise marxista e até da referência à luta de classes, lembrando-nos que o marxismo não deve ser confundido com o totalitarismo ideológico leninista e stalinista. Aliás, diga-se de passagem, foram os teóricos do capitalismo, que não conheciam o pensamento marxista, que confundiram Marx com Lênin e Stalin. Para o Cardeal Müller, ao mencionar a luta de classes, a TdL não entende desenvolver uma guerra de eliminação de uma classe, mas apenas lembrar que “a história não se desenvolve a partir do desenvolvimento harmônico de suas virtualidades, mas mediante o antagonismo de princípios e de interesses opostos”. A menção à luta de classes é um convite a participar “na luta da graça contra o pecado e, concretamente, também, de uma encarnação da salvação nas estruturas sociais promotoras da vida e uma superação do pecado e de sua objetivação em sistemas exploradores”. Isso porque “a graça e o pecado não existem simplesmente de modo puramente idealista e espiritualista em si, mas sempre unicamente junto com sua encarnação e materialização nas condições de vida humanas”.

A fala da presidência do CELAM tem um lado positivo: mostra que no momento, em Roma, há um clima de distensão, de mais respeito e de mais diálogo. Até alguns meses atrás seria impensável que bispos discordassem abertamente do pensamento do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Tal discordância era punida severamente, mesmo que fosse apenas com o puro isolamento e descrédito dos interessados. A presidência do CELAM ousou discordar do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que, como vimos, tem outro olhar sobre a TdL. E isso é positivo.

Porém, é lamentável que tenham tentado, a partir de Roma, decretar a caduquice e a morte da TdL; tenham efetivado mais uma tentativa de assassinato da teologia latino-americana. É lamentável porque foram essas tentativas que fizeram a Igreja Católica regredir em nosso continente, perdendo a credibilidade e um número cada vez mais expressivo de fiéis, como têm apontado as recentes pesquisas, mesmo que os eclesiásticos queiram minimizar esses dados. Na Europa, onde a TdL nunca foi admitida, o catolicismo agoniza, a Igreja envelhece rapidamente, tornando-se cada dia mais feminil e senil. Os prelados do CELAM deveriam aprender com o europeu Cardeal Müller, o qual afirma no texto acima mencionado que a Igreja, tanto no nosso continente como no mundo inteiro, “não pode renunciar à continuação e ao uso da Teologia da Libertação”, pois “a pretensão metodológica da Teologia da Libertação, de empregar uma práxis transformadora, outra coisa não é senão a nova formulação do evento original da teologia em absoluto”. Por isso, no “contexto regional e para a comunicação teológica mundo afora, a Teologia da Libertação é imprescindível” (p. 109).

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Momento eclesial


Em busca da unidade perdida

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Tentei acompanhar de perto a visita do papa Francisco aos “lugares santos” da Palestina e de Israel para comemorar os cinquenta anos da histórica visita de Paulo VI àquelas terras, no ano de 1964, em pleno período da realização do Concílio Vaticano II. Aquelas terras possuem um valor afetivo muito grande para boa parte da humanidade, uma vez que são o berço do cristianismo, o espaço da atuação de Jesus de Nazaré, de seus primeiros discípulos e das primeiras comunidades cristãs.

Mesmo que um cristão nunca tenha ido até lá, aquela região permanece para ele um referencial simbólico de grande monta. Logo, o que ali acontece se reveste de um caráter profundamente afetivo e termina mexendo com todo o inconsciente coletivo cristão. Mas, antes mesmo do cristianismo, aquelas terras são a razão de ser do povo hebreu, povo sofrido e maltratado até hoje, em cujo seio nasce a experiência do seguimento de Jesus, do qual o cristianismo herda um patrimônio espiritual incalculável. Sem o povo judeu não haveria cristianismo. Além disso, aquela região tem ainda um significado muito grande para o povo islâmico e, de modo particular, para o povo palestino, obrigado até hoje a viver na incerteza, na insegurança, na dor e no sofrimento, sem ter direito a um reconhecimento pleno e definitivo de sua pátria. A convivência pacífica dessas três grandes religiões e o reconhecimento real de uma pátria para o povo palestino é de fundamental importância para o futuro da paz mundial. Assim sendo, urge encontrar um caminho para se chegar a essa tão sonhada paz.

Acompanhei de modo particular o encontro do papa Francisco, bispo da Igreja de Roma, líder mundial dos católicos, com o patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, líder da grande e valiosíssima Igreja Ortodoxa, portadora de uma grande riqueza espiritual para todo o cristianismo. Fiz questão de seguir ao vivo pela televisão este momento histórico, pois não puder fazer isso a cinquenta anos atrás, quando Paulo VI e Atenágoras se encontraram. Quis seguir este momento por estar convencido de que a unidade do cristianismo no futuro passará por aquilo que acontecer entre essas duas grandes Igrejas.

Confesso que esperava gestos mais ousados de ambas as partes, após cinquenta anos do primeiro grande encontro, no qual os dois líderes de então retiraram a mútua excomunhão que vigorava entre as duas Igrejas, desde a triste ruptura no século XI. Senti muito formalismo e pouca espontaneidade no encontro. Os estudiosos dizem que a fisionomia das pessoas costuma revelar muita coisa. Fiz questão de observar atentamente este detalhe: os rostos dos que estavam presentes ao encontro. Não havia alegria, nem mesmo nos dois principais protagonistas; aquela alegria que devia caracterizar o reencontro de irmãos, depois de um longo período sem se ver. O que se via eram expressões de uma profunda tensão. Os dois líderes pareciam estar menos tensos, mas a platéia ao seu redor manifestava visivelmente sinais de muita tensão. Aliás, em alguns rostos era bem visível a raiva, o ódio, o fechamento. Fiz um esforço, mas não consegui em nenhum momento enxergar pelo menos o esboço de um sorriso na face dos outros padres e bispos que rodeavam o papa e o patriarca. Isso, para mim, diz muita coisa.

Sabe-se que o ambiente onde se deu o encontro entre Francisco e Bartolomeu, tido como o sepulcro de Jesus e o local de onde partiu o anúncio da ressurreição, é ainda hoje palco de verdadeiras disputas entre as Igrejas cristãs. Têm-se conhecimento inclusive de cenas recentes de violência física entre membros das diferentes Igrejas neste local, que deveria ser um ponto de comunhão, de união e de convivência amorosa. Há uma verdadeira luta pelo controle dos espaços físicos e isso só nos pode causar dor e tristeza.

Ora, isso não pode continuar acontecendo. A unidade dos cristãos é indispensável para o futuro da humanidade. Não podemos continuar insistindo na paz mundial, se os seguidores daquele que foi considerado “o Senhor da paz” (2Ts 3,16) continuam se digladiando, a começar do local em que, segundo a tradição, teria sido colocado o corpo do Mestre, após a sua crucifixão, e de onde ele teria saído vitorioso sobre a morte. Todos os apelos das Igrejas pela paz no mundo se tornam insignificantes se a humanidade sabe que os cristãos continuam divididos, disputando entre si inclusive a posse pelos “lugares santos”. Os discípulos e as discípulas de Jesus têm o grave dever de buscar a unidade, se não quiserem continuar sendo acusados de serem os responsáveis pelas divisões existentes hoje no mundo. Historicamente o cristianismo é o grande responsável por grandes tragédias mundiais, como a primeira e a segunda guerra mundial. Os países envolvidos nestas tragédias são herdeiros da cultura cristã, incapaz de fomentar, ainda hoje, a harmonia e a paz entre os povos.

No que diz respeito à busca da unidade entre as Igrejas cristãs históricas há que se voltar ao modelo anterior às grandes rupturas entre a Igreja de Roma e a Igreja do Oriente, no século XI, e entre a Igreja Romana e os herdeiros de Lutero e Calvino no século XVI. E o que existia antes? Inicialmente cada Igreja local tinha a sua autonomia, como núcleo de discípulos e discípulas de Jesus. Estas Igrejas, na medida em que iam se constituindo, escolhiam alguém para presidi-las e, consequentemente, para presidir a ceia do Senhor ou Eucaristia. Este presidente tinha nomes diferentes, conforme a cultura do local em que se encontrava a Igreja. Podiam ser chamados de bispos, presbíteros e diáconos. Quando, por acaso, surgia entre elas alguma dificuldade isso era resolvido através de encontros, de reuniões, de sínodos e, mais tarde, de concílios. Tal costume foi introduzido ainda na época dos apóstolos, como nos atestam os escritos neotestamentários (At 15,13-35).

Algum tempo depois, quando as Igrejas adotam o sistema piramidal vigente no Império, os bispos passam a deter o poder de consagrar os novos bispos, os presbíteros e os diáconos. Aos poucos as Igrejas locais vão se constituindo ao redor dos bispos, os quais, sempre segundo o esquema imperial, passam a ter também funções de administração de um grupo de Igrejas locais de uma determinada região. Com o passar do tempo, as Igrejas vão se aglutinando em torno de três grandes Igrejas locais: Roma, Alexandria e Antioquia. Mais tarde, especialmente durante o concílio de Éfeso e de Calcedônia, reconheceu-se o direito de algumas Igrejas locais se reunirem em torno da Igreja de Jerusalém, tido como a primeira Igreja. Em 381 se reconhece a posição da Igreja de Constantinopla, capital do império oriental.

Assim sendo, as Igrejas locais, todas com sua autonomia, vão se congregando em torno de cinco grandes Igrejas que se situavam em pontos estratégicos do Império romano: Roma, Alexandria, Antioquia, Jerusalém e Constantinopla. E com isso foi se criando a tradição de que os cinco bispos destas Igrejas formavam uma espécie de pentarquia. As cinco Igrejas passam a ser consideradas patriarcados e os cinco bispos, chamados patriarcas, tidos como sucessores dos apóstolos e pastores supremos, são vistos como escolhidos pelo Espírito Santo para guiar a Igreja em posição de igualdade. Isso se baseava numa tradição segundo a qual estas cinco Igrejas eram de origem apostólica, isto é, tinham sido fundadas por apóstolos de Jesus.

Um pouco antes da formação dos patriarcados, provavelmente ainda no final do primeiro século da era cristã, se introduziu o costume de se apelar para a Igreja de Roma, quando surgia algum tipo de problema entre as Igrejas locais. Isto porque não era mais possível reunir todos os bispos que presidiam as Igrejas, uma vez que o número de Igrejas locais tinha aumentado e a realização de um concílio se tornava cada vez mais difícil e oneroso. Muita coisa era resolvida através de sínodos ou concílios regionais ou provinciais. Mas quando não se conseguia um consenso, apelava-se para a Igreja de Roma, cujo bispo era convidado a dar a palavra final sobre o assunto. E o que o bispo de Roma dizia era tido por todas as Igrejas como a palavra definitiva sobre a questão. Disso surgiu a expressão latina: Roma locuta, causa finita est, ou seja, “Roma falou, a causa está encerrada.

Este costume de apelar para Roma surgiu a partir de uma tradição, segundo a qual os apóstolos Pedro e Paulo teriam sido martirizados naquela cidade. E por serem considerados os apóstolos mais representativos do anúncio do Evangelho de Jesus ao mundo (Gl 2,7), a Igreja de Roma passa a ser vista como aquela que tem a primazia sobre as demais Igrejas, ou seja, aquela que pode dar uma palavra final sobre determinadas questões. Porém, inicialmente esta primazia não significava um primado e nem o bispo de Roma era considerado sucessor de Pedro. Não se atribuía ao bispo de Roma as prerrogativas que lhe serão atribuídas mais tarde, inclusive com a interpretação literal de textos bíblicos, como aquele de Mateus (16,17-19).

Uma interpretação desse tipo vai aparecer pela primeira vez no século V, com o papa Bonifácio I (418-422); se radicaliza com o papa Gregório VII. Este papa, reagindo à intromissão de imperadores e príncipes na Igreja, empreende uma reforma que culmina na absolutização do poder papal. Gregório VII (1073-1085) entendia que o poder do papa, tornado automaticamente santo a partir do momento em que era eleito (daí o título de “santidade” ou de “santo padre” atribuído ao papa), estava acima de todos e acima de tudo. Somente o papa recebeu o “poder das chaves”, ou seja, o poder de “ligar e desligar” (Mt 16,19). Por essa razão todas as pessoas da Terra devem se submeter ao seu poder. Tal interpretação chega ao seu auge no final do século XIX, quando o primeiro Concílio realizado no Vaticano, por forte pressão do papa Pio IX, decreta a infalibilidade papal.

Pode-se concluir, então, que a primazia da Igreja de Roma, que vigorou durante o primeiro milênio, não incluía uma centralização de poder absoluto, a ponto de fazer do bispo de Roma um super bispo e da Cúria Romana uma monarquia absoluta, com poderes absolutos, a ponto de intervir autoritariamente e indevidamente sobre a vida das Igrejas locais. A primazia era da caridade, ou seja, para ajudar as Igrejas locais a viverem em paz e concórdia. Jamais foi pensada em termos absolutos, autoritários e de dominação, como lamentavelmente aconteceu no segundo milênio, sendo inclusive uma das causas das muitas divisões na Igreja. Por essa razão, para se chegar à unidade desejada, é indispensável que a Igreja de Roma volte a ser o que era no início, renunciando a todo tipo de autoritarismo e de mando sobre as demais Igrejas. Que volte a ser serviço de caridade para a unidade e não exercício de poder monárquico absoluto sobre todo o cristianismo. É indispensável também que as demais Igrejas, inclusive aquelas nascidas a partir da Reforma, acolham esta função da primazia da Igreja local de Roma. Sem esse esforço mútuo, a unidade entre os cristãos não virá e a mensagem do Evangelho será cada vez mais enfraquecida pelo contra-testemunho da divisão.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Conjuntura eclesial


A dimensão conflitiva do seguimento de Jesus

 José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Alguns sites de notícia vêm mostrando com mais frequência o fato de que, cada vez mais, grupos católicos ultraconservadores estão entrando em “rota de colisão” com o papa Francisco e, mais especificamente, com as ideias e as ações do pontífice. Nota-se, não tanto nesses sites, mas em alguns católicos, certa perplexidade, como se conflitos no cristianismo fossem coisas negativas ou novidades. Algumas pessoas ainda vivem mergulhadas na ingenuidade de certo irenismo, ou seja, de que se deve buscar a unidade a qualquer custo. Alguns ainda acreditam que a unidade deve estar acima de tudo.

            Pensar assim, além de ser ilusão, é falso. Jamais podemos esquecer que, como cristãos, somos seguidores de um “bandido”, crucificado porque se recusou a negociar com o poder religioso de sua época e de seu povo e com o poder romano dominador. Recusou uma falsa unidade. O próprio Jesus, segundo as quatro versões dos Evangelhos, não enganou ninguém e não prometeu tranquilidade, sombra e água fresca para seus seguidores. Pelo contrário, advertiu severamente que o seu seguimento era muito perigoso e que a opção por ele e pelo Reino provocaria divisões muito sérias: “Vocês pensam que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu lhes digo, vim trazer divisão” (Lc 12,51). Uma divisão que chegaria a arrebentar por completo o núcleo mais duro da sociedade da sua época e de sua cultura: a família. A opção por ele provocaria, sem dúvida alguma, rupturas profundas entre pai e filho, mãe e filha, sogra e nora etc. (Lc 12,53). Uma excelente metáfora para deixar bem claro o que significaria para as pessoas a decisão de colocar-se no seu seguimento.

            O conflito provocado pelo seguimento de Jesus seria tão violento, a ponto dele mesmo advertir os discípulos sobre a real possibilidade de perder a vida (Mc 8,34-37). Alguns estudiosos da Bíblia afirmam que esse “perder a vida” significava concreta e claramente a possibilidade de ser assassinado pelo sistema religioso e político, morrendo de forma ignominiosa, o que era considerado, dentro da cultura religiosa da época, uma verdadeira maldição divina (Gl 3,13). E ao que tudo indica isso deixou os discípulos apavorados, a ponto de Pedro tentar dissuadir Jesus (Mc 8,32-33), propondo retornar ao modelo que foi proposto ao Mestre no início de seu ministério: o caminho da fama e do compromisso sem compromisso, o querer agradar as massas (Mc 1,37). Coisa que Jesus rechaça peremptoriamente (Mc 1,38-39; 8,33).

            Porém, este pressuposto não dá ao cristianismo o direito de ser beligerante, de provocar conflitos ou até massacres, como lamentavelmente aconteceu no período das Cruzadas e da Inquisição. Os discípulos e as discípulas de Jesus não provocam conflitos e guerras. Eles sofrem perseguições e podem ser martirizados por causa de suas opções concretas. O que o Mestre pede deles e delas é que não fujam do conflito, tendo que renunciar à profecia ou fazer pactos ambíguos, com a finalidade de salvar a própria pele. Por isso os textos neotestamentários apresentam dois motivos que podem levar os seguidores e as seguidoras de Jesus a se encontrarem, de repente, no meio de conflitos. Esses motivos se tornam também critérios decisivos para não abandonar o conflito, pois abandoná-lo seria o mesmo que trair a causa do Mestre.

            O primeiro motivo é a defesa do povo, colocando-se contra a intransigência da religião que oprime, massacra, exige, não usa de misericórdia, pune, escraviza e excomunga. Como Jesus, os discípulos e as discípulas precisam, sem meios-termos, denunciar a arrogância do sistema religioso que, com a sua prepotência, substitui os mandamentos divinos por meros preceitos humanos (Mc 7,1-23). Ora, tal atitude põe os seguidores e as seguidoras de Jesus em confronto direto com a religião oficial, representada antigamente pelos escribas e fariseus, e hoje pela ala ultraconservadora das Igrejas. Nessa defesa do povo está incluída também uma posição de denúncia contra os sistemas políticos opressores que exploram o ser humano, transformando-o em mercadoria, em coisas, em objetos a serem descartados (Tg 5,1-6). A reação do sistema político é violenta e o conflito é certo. Aliás, o sistema religioso e o sistema político costumam se unir para defender seus interesses (At 13,50). Por trás de um discurso religioso conservador está sempre a defesa dos interesses econômicos das elites e poderosos, e todo discurso político de direita costuma se amparar sempre em sistemas religiosos ultraconservadores. Assim, por exemplo, na ditadura chilena, Pinochet comungava nas missas celebradas pelo então núncio Ângelo Sodano, e esse frequentava a casa, os almoços e os jantares opulentos oferecidos pelo ditador.

            O segundo motivo capaz de colocar os cristãos e as cristãs no meio do conflito – e também critério para não fugir dele – é a opção pelos pobres, consequência da atitude de se colocar do lado do povo. Segundo o próprio Jesus, a Boa-Notícia que ele veio trazer é destinada antes de tudo aos pobres, aos quais é anunciada a libertação e proclamada o fim da opressão (Lc 4,18-19). Por isso, desde o início do cristianismo, a opção pelos pobres é um dos sinais da autenticidade do seguimento de Jesus (Mt 11,4-6). A falta de opção pelos pobres é a expressão mais evidente de que a comunidade cristã se encontra numa situação de pecado, ou seja, de ruptura com Deus (Tg 2,1-13).

            Por essa razão, a unidade sonhada por Jesus para a sua comunidade (Jo 17,20-21) só pode ser feita em torno desses dois critérios. A unidade não pode ser imposta a partir de dogmas e de excomunhões e nem também por meio de consensos genéricos e ambíguos. A unidade se faz única e exclusivamente a partir da livre adesão dos discípulos e das discípulas a esses dois princípios. Sem livre adesão não há unidade; há autoritarismo ou falsidade. Foi o que entenderam as primeiríssimas comunidades cristãs, ainda no tempo dos apóstolos. Quando surge o primeiro grande conflito no cristianismo, os apóstolos se reúnem para conversar. E depois de muito diálogo chegam à conclusão que se devia deixar aos seguidores e às seguidoras de Jesus a máxima liberdade, exceto em três coisas indispensáveis e inegociáveis: o rompimento com a idolatria, a exclusão das uniões ilegítimas (At 15,28-29) e a opção pelos pobres (Gl 2,10). O rompimento com a idolatria é rompimento com toda religiosidade e religião que escraviza e desumaniza. A exclusão das uniões ilegítimas significava romper com uma relação que não considera a mulher como ser humano; uma relação sem compromisso com a dignidade da companheira. Portanto também uma opção pela pessoa mais frágil, mais pobre.

            Em recente diálogo com David Lyon, Zygmunt Bauman afirmou que ser ético não significa ter uma receita para uma vida fácil e confortável. Afirmou também que ser ético não é conformar-se às normas aceitas e obedecidas pela maioria, como pensam alguns, mas, quase sempre, resistência e ruptura com elas. E, quem resiste e rompe, paga um preço (Vigilância líquida, Zahar, 2014, p. 140-141). Penso que, olhando atentamente os Evangelhos, se possa dizer o mesmo do seguimento de Jesus.

Assim sendo, acreditamos que o papa Francisco já se encontra no meio do conflito e não pensa numa falsa unidade que junte o que não pode estar junto. Não se pode, por exemplo, juntar a Igreja representada por João XXIII e a Igreja representada por Pio IX e João Paulo II. São modelos eclesiológicos inconciliáveis, como a água e o óleo. Mesmo assim, cremos que Francisco, forçado na recente canonização de papas a juntar partes inconciliáveis que o sistema religioso anterior uniu artificialmente, prosseguirá no seguimento de Jesus, convocando a Igreja Católica inteira a fazer o mesmo. Resta saber se ele encontrará pessoas católicas com a mesma coragem, ou se irá se deparar cada vez mais com opositores resistentes ou, o que é pior, com sabotadores disfarçados de “santos do pau-oco”. Esses “santos”, geralmente vestidos impecavelmente de clergyman ou de batina, que, embora não afrontem diretamente o papa, induzirão o povo a permanecer numa religiosidade melosa, idolátrica, opressora, que esquece os pobres e sofredores, silenciando de propósito acerca dos recentes apelos do atual pontífice. Vamos esperar para ver ou vamos fazer alguma coisa?

 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Eclesiologia


Uma discípula a caminho de Emaús?

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

No terceiro domingo de Páscoa do ciclo do Ano A costuma-se ler, na liturgia dominical da Igreja Católica Romana, o trecho do evangelho de Lucas, conhecido como “aparição de Jesus aos discípulos de Emaús” (Lc 24,13-35). Quem seriam esses discípulos? O texto original grego não diz. Aliás, nem usa o termo “discípulos” (mathetàs), mas a expressão grega “dúo éx autôn”, que a versão ecumênica da Bíblia traduz como “dois dentre eles”. Poderia ser um casal? Por que não? Tenho comigo uma reprodução de um lindo mural da cena de Emaús pintado pela irmã scalabriniana Elda Broilo, na qual ela representa estes dois como sendo um casal, acompanhado inclusive de uma criancinha. Esta leitura seria totalmente legítima e normal, uma vez que, segundo o próprio Lucas, no grupo de discípulos de Jesus havia também discípulas (Lc 8,1-3), que não somente o acompanhavam, mas sustentavam o grupo com seus bens.

Tudo seria tranquilo, se não fosse o machismo imperante nas Igrejas, de modo particular na Igreja Católica Romana. Lembro-me bem que em 2002, quando a CNBB completava 50 anos, durante a assembleia geral dos bispos, fomos no terceiro domingo de Páscoa para uma celebração eucarística no santuário de Aparecida. A comissão litúrgica da CNBB preparou uma encenação desse trecho do evangelho e, na encenação, colocou um discípulo e uma discípula (um casal). Isso despertou a ira de muitos bispos que apresentaram veementes protestos junto ao bispo responsável pela Comissão de Liturgia.

Para alguns desses bispos a encenação não era ortodoxa porque abria brechas para a possibilidade de se acreditar que também mulheres podiam receber os ministérios ordenados. Ora, a interpretação, além de ser esdrúxula e descabida, empobrece o próprio texto bíblico, uma vez que a intenção de Lucas não foi acentuar a questão dos ministérios ordenados. Lucas quis apenas mostrar a crise provocada nos discípulos pelo escândalo da cruz de Jesus, levando-os inclusive à perda da fé; fé que depois é recuperada e revigorada quando o Senhor ressuscitado parte e reparte o pão diante deles. Toda interpretação que for além, é mera fantasia e tentativa de forçar o texto a dizer o que ele nunca quis dizer.

            Esse episódio, acontecido em Aparecida, evidencia a necessidade de se rever a ótica machista, através da qual se continua lendo a Bíblia para excluir as mulheres de funções importantes na Igreja, inclusive o seu acesso a algumas coordenações de organismos eclesiásticos, de modo particular o acesso às instâncias de poder e de decisão e aos ministérios ordenados. Costuma-se justificar a proibição às mulheres com o argumento de que Jesus era do sexo masculino. E como algumas funções, como os ministérios ordenados, implicam uma dimensão sacramental, no sentido de que o ministro ordenado age “in persona Christi”, as mulheres não poderiam exercer de modo completo esta sacramentalidade.

            Ora, esse tipo de argumento não pode ser mais aceito porque o Segundo Testamento, em nenhum momento, realça a importância disso.           O que o Segundo Testamento considera relevante, sacramental, em primeiro lugar, é o fato de que o Filho de Deus se tornou humano, igual a nós em tudo, exceto no pecado (Hb 4,15). Os textos bíblicos não ressaltam o fato de que o Filho se tornou um humano do sexo masculino, mas que se tornou totalmente humano.

            O apóstolo Paulo deixa isso bem claro quando afirma que o fato marcante que está na origem do cristianismo não é que Cristo tenha nascido varão, mas que na plenitude dos tempos, ou seja, na hora certa, Deus nos enviou o seu Filho nascido de mulher para pagar a nossa alforria e realizar a nossa libertação (Gl 4,4-5). Esses detalhes podem passar despercebidos hoje, mas eram sumamente revolucionários no contexto cultural desta carta paulina, no qual predominavam o machismo e a escravidão. Numa época e numa cultura em que a genealogia da pessoa se fazia através de seus ancestrais masculinos, afirmar que Deus mandou o seu Filho “nascido de mulher” arrebentava por completo tal concepção machista. Paulo declara que no cristianismo não conta mais a condição sexuada da pessoa, o ser homem ou mulher, mas a inserção em Cristo (Gl 3, 28). Por isso somos todos e todas iguais, não no sentido de que o direito à diferença foi abolido, mas no sentido que todos e todas somos herdeiros ou herdeiras da mesma promessa (Gl 3,29). Logo, impedir a mulher de ter acesso a determinados espaços nas Igrejas com uma justificativa sexista é um absurdo total do ponto de vista bíblico.

            Neste sentido é que deve ser entendida a expressão dos Evangelhos, que costumamos traduzir em português com os termos “o Filho do Homem” (em grego: ‘o uiós toú anthropos). O termo “anthropos” em grego não significa o ser humano do sexo masculino, mas a humanidade, o ser humano em geral. Quando o Segundo Testamento quer falar do varão, da pessoa do sexo masculino, do macho, usa as palavras gregas andros (At 17,12) e aner (Mt 1,19).

            O segundo elemento importante, destacado pelos escritos neotestamentários, é que este “Filho da humanidade” decidiu assumir plenamente uma das mais profundas características dessa humanidade: a fragilidade, a fraqueza. Para o Segundo Testamento o que conta não é que Jesus seja macho, mas que é plenamente humano a ponto de abraçar também a nossa condição de seres frágeis e fragilizados. Coisa que, aliás, choca a mentalidade machista, segundo a qual “homem que é homem não chora”, ou seja, macho não demonstra fraqueza. Isso fica bem evidente quando o Segundo Testamento afirma que o Filho de Deus se manifestou e se fez sárx (Jo 1,14; 1Tm 3,16), termo grego que costuma ser traduzido com a palavra “carne”, mas cujo sentido verdadeiro é o de fragilidade, de fraqueza humana.

            Por fim, o terceiro aspecto evidenciado pela Bíblia cristã é o fato de que este Filho de Deus plenamente humanizado assume a fragilidade humana na sua condição mais extrema que é o despojamento, o rebaixamento humilhante, aceitando viver como escravo, morrer e morrer da pior maneira possível para aquela época (Fl 2,6-8). Essa disposição livre e soberana de Jesus de aceitar a condição de profunda humilhação, expressa pelo termo grego kénosis (Fl 2,7), é que permite a Jesus cumprir a vontade do Pai e realizar a libertação do universo e da humanidade. Não é a sua condição de macho, de varão, que lhe dá essa possibilidade, mas a sua disposição em assumir a condição humana também neste aspecto.

            Fica, pois, bem evidente que não se pode fundamentar a exclusão das mulheres das funções de poder e de decisão e dos ministérios ordenados com a desculpa de que Jesus era do sexo masculino e que, por isso, elas não estariam em condições de agir “in persona Christi”. Também não vale aquelas desculpas, como a de que Jesus não teria permitido que mulheres participassem de sua última ceia. Estudos sérios, que levam em conta o contexto da narrativa e o contexto cultural da época, não permitem chegar a tal conclusão. Seria simplesmente estúpido e ridículo que Jesus, naquele momento significativo de sua existência e de seu ministério, tivesse impedido as mulheres, que o acompanhavam desde a Galileia (Lc 8,1-3) e que estavam com ele em Jerusalém no momento de sua crucifixão e sepultura (Lc 24,10; Mc 15,40), de participar de sua última ceia.

Não se trata de dar mais poderes às mulheres, mas de, a partir da dignidade que vem do Batismo, abrir mais espaços para elas nas Igrejas, de modo que possam exercer serviços eclesiais que hoje estão reservados aos varões. Trata-se de reparar uma injustiça que fere a dignidade cristã.

Havemos, portanto, de concluir que a ampliação dos espaços da Igreja para uma presença feminina mais incisiva, como pediu recentemente o papa Francisco (EG, 103), só acontecerá de fato quando rompermos a barreira da exclusão das mulheres dos ministérios ordenados e das funções de direção e de decisão. Enquanto isso não acontecer estaremos apenas “dourando a pílula” ou tentando tapar o sol com uma peneira, uma vez que todos os outros espaços já estão sendo ocupados pelas mulheres e sem elas as Igrejas deixariam de existir. Mas para avançarmos nesta direção é preciso deixar de fazer leitura machista da Bíblia. É preciso parar de fazer leitura fundamentalista dos textos sagrados e aceitar, com mais serenidade e verdade, as implicações de uma correta e honesta hermenêutica.

 

domingo, 27 de abril de 2014

Teologia e práxis


TEOLOGIA DO PRAZER

José Lisboa Moreira de Oliveira, filósofo e teólogo
Ana Márcia Guilhermina de Jesus, psicóloga e militante cristã


Acaba de sair pela Paulus o nosso mais recente livro. Trata-se da Teologia do Prazer. O tema do prazer ainda é considerado um grande tabu pela maioria dos cristãos. Embora a Bíblia judaico-cristã veja esta questão com otimismo, a influência maniqueísta, infiltrada nas comunidades cristãs primitivas, terminou por se impor, levando o cristianismo a ver o prazer com bastante pessimismo. Atualmente, mesmo com os grandes avanços provocados por fatos como o Concílio Vaticano II e as descobertas científicas, a perspectiva ainda é bastante negativa. Nas Igrejas cristãs o tema não é tratado explicitamente, a não ser em certas ocasiões e quase sempre para combatê-lo.

Não têm faltado esforços por parte de algumas pessoas e por parte de alguns teólogos no sentido de aprofundar a questão numa perspectiva mais positiva, porém quase sempre na ótica da moral. Mas, apesar desses esforços, o prazer ainda é visto de forma muito negativa e nunca mereceu um tratado específico de teologia. Isso levou um franciscano, teólogo, bispo e psicólogo, Dom Valfredo Tepe, a pedir, no finalzinho do século passado, que os teólogos pensassem numa “teologia do prazer”.

            Nós resolvemos acolher o convite de Dom Valfredo Tepe e nos atrevemos a refletir sobre o assunto. Depois de quase dois anos de pesquisas, leituras e estudos, produzimos um texto que agora chega às mãos dos leitores através da Editora Paulus. Temos consciência de que não esgotamos o assunto, mas esperamos que a nossa iniciativa estimule outros estudiosos cristãos a aprofundarem ainda mais a questão, ajudando suas Igrejas a reverem suas posições e a se abrirem mais à positividade da experiência do prazer.

            O nosso estudo começa com uma análise do conceito e do sentido do prazer. Consideramos fundamental iniciar nossa reflexão apresentando as bases científicas do prazer. Uma teologia do prazer precisa começar com a constatação de que tal sensação ou experiência foi colocada no ser humano pelo Criador. As ciências, de modo particular a Psicologia e a Neurociência, ao desvendarem o mistério do prazer nos revelaram a criatividade divina que, ao “modelar” (Sl 139,13-15) a pessoa humana, dotou-a de tão complexo dinamismo. As ciências nos ajudam a perceber que o prazer faz parte da natureza humana, assim como foi pensada, sonhada e criada por Deus.

Na segunda parte do nosso texto apresentamos o ensinamento bíblico sobre o prazer. Não foi fácil abordar esta questão, dada a escassez de pesquisas e publicações específicas sobre o assunto, especialmente aqui no Brasil. As pesquisas que fizemos apontam inicialmente que há na Bíblia uma concepção positiva do prazer, embora não faltem textos que alertam sobre o risco de uma busca de prazer que desumaniza. Porém, a Palavra de Deus não demoniza a experiência prazerosa. Pelo contrário, convida o ser humano a viver prazerosamente sob a guia e proteção divinas. Para evidenciar este aspecto positivo, antes de mencionar os prazeres humanos recomendados pela Bíblia, falamos dos “prazeres divinos”. Algo muitas vezes inédito, já que o cristianismo do “ascetismo mórbido” (Tepe) nos acostumou com a imagem de um Deus sempre irado e irritado com a possibilidade de um ser humano alegre e feliz. Somente depois de falar do prazer como algo positivo é que apresentamos algumas indicações bíblicas acerca de um tipo de prazer que pode alienar e desumanizar.

            Após apresentar as bases científicas do prazer e a visão bíblica sobre o tema, fazemos uma reflexão sobre a forma como o prazer foi visto ao longo da história da Igreja. Mostramos como o cristianismo, de seguimento prazeroso de Jesus, se transformou na religião da abolição do prazer. E isso se deu pela incursão do dualismo grego e do maniqueísmo maledicente nas comunidades cristãs. Além disso, refletimos sobre a relação que se criou entre prazer, sexo e pecado, fazendo com que as Igrejas introduzissem regras bem rígidas a este respeito, as quais passaram a funcionar como verdadeiros “quebra-molas” que visam frear o gozo e o prazer. Depois dessas observações mostramos que, em toda essa história, a mulher pagou um preço amargo, uma vez que ela foi considerada o símbolo do prazer degenerado. Afirmamos que todas essas coisas transformaram o cristianismo em uma experiência triste e assustadora e que precisamos continuar vigilantes, uma vez que no atual contexto estão retornando formas cristãs dualistas e maniqueístas.

            No último capítulo do livro apresentamos algumas afirmações teológicas acerca de uma vida cristã prazerosa. Insistimos na necessidade de vermos o prazer como uma realidade plenamente divina e plenamente humana e, de consequência, olharmos para o cristianismo como mística prazerosa. Mas para que isso aconteça será indispensável repensar a relação entre seguimento de Jesus, prazer e ascese. Embora parte essencial do discipulado, a ascese precisa ser revista, de tal modo que não tire do cristianismo a sua dimensão gozosa. Isso significa que a vivência cristã do prazer inclui um processo de discernimento e uma educação para a responsabilidade, de modo que se possa falar de uma vida prazerosa ecologicamente correta, entendo por ecológico um estilo de existência que humanize sempre e cada vez mais.

            O nosso estudo se conclui com uma reflexão acerca da necessidade de que as Igrejas renunciem à pretensão de querer controlar, a todo custo, a vida das pessoas. Elas precisam mudar de pedagogia, uma vez que a atual pedagogia do controle e da imposição não funcionou e terminou por lançar os fiéis nas mãos da “indústria do prazer”.

            O nosso texto destina-se a todos os cristãos e a todas as cristãs de todas as Igrejas, sem exceção, e que queiram aprofundar essa temática tão vital e tão marcante para a vida humana. Destina-se também a todos os homens e a todas as mulheres de boa vontade que, embora não professem a fé cristã, desejam ter uma compreensão mais positiva do tema do prazer na perspectiva do cristianismo. Mesmo consciente de que não exaurimos a temática proposta, optamos por manter o simples título “Teologia do Prazer”, sem mais substantivos ou adjetivos qualificativos. Com isso queremos ressaltar o caráter teológico do tema, diante de todo o desgaste a que foi submetida a questão do prazer dentro do cristianismo e ao longo do séculos.

            Fazemos votos de que este livro toque o coração de muitas pessoas, desperte-nos para a beleza do prazer, estimule em todos nós uma vida prazerosa responsável e solidária, e suscite em muitas outras pessoas o desejo e a vontade de aprofundar ainda mais esta temática tão bonita e profundamente cristã. E se você estiver de acordo com isso, adquira o livro, estude-o e divulgue-o entre os seus amigos e amigas. Obrigado!