sábado, 12 de abril de 2014

Tempo litúrgico


Dimensão política do Tríduo Pascal

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário

            Dentro de poucos dias estaremos celebrando a festa da Páscoa cristã. Desde a mais remota antiguidade a Páscoa cristã é a celebração do mistério da ressurreição de Jesus. Porém, a liturgia pascal, desde os primórdios, uniu a celebração da ressurreição de Jesus à sua paixão e morte. Num primeiro momento pode parecer estranho que a celebração pascal, enquanto festa da vida, esteja profundamente conectada com a paixão e a morte de Jesus. Mas nisso não há nenhum exagero e nem tão pouco algo fora de lugar.

            A ressurreição acontece porque antes houve paixão e morte. Paixão entendida como a fidelidade de Jesus ao projeto do Pai até as últimas consequências (Mc 14,34-36). Morte porque aquele galileu se tornara muito incômodo para o sistema religioso e político da época e era preciso eliminá-lo de uma só vez e para sempre (Jo 5,18). Torturado, e depois eliminado da pior forma possível para aquela época, Jesus ressuscita pelo poder de Deus (At 2,24). Sua ressurreição foi a resposta dada pelo Pai aos seus torturadores e aos seus algozes. Eles pensavam que tinham eliminado para sempre a sua memória, mas, de repente, Jesus ressuscita glorioso e torna-se mais incômodo e mais vivo do que antes, para desespero daqueles que o tinham torturado e matado (Mt 28,11-15; At 5,21-42).

            Precisamos eliminar os resquícios de certa cristologia ainda presente em determinados ambientes, segundo a qual Jesus teria passado pela tortura e pela morte para aplacar a ira de seu Pai. Deus teria ficado muito zangado com os pecados da humanidade e exigia uma satisfação, uma reparação à altura. E para realizar tal reparação teria decidido desde toda a eternidade punir o próprio Filho, de modo que sua ira fosse aplacada. Chegou-se a atribuir a Santo Anselmo esse absurdo. Porém, a teoria da expiação não passa de uma falsa interpretação do pensamento deste grande teólogo. Na verdade o que Anselmo quis afirmar, com sua teoria, foi a plena e absoluta liberdade de Jesus e a plena e absoluta acolhida da decisão de Jesus por parte do Pai. O Filho decide ir até o fim e não recuar, mesmo diante da ameaça de morte. O Pai decide acolher a decisão do Filho até as últimas consequências. Não interfere e não impõe ao Filho um meio-termo, um compromisso para salvar a própria pele, como, às vezes, costumam fazer certos pais quando seus filhos são ameaçados.

            A superação desse tipo de cristologia do conformismo do Filho e da brutalidade sanguinária do Pai é de fundamental importância para não obscurecermos e não negarmos as devidas responsabilidades. As lideranças religiosas judaicas e o império romano tiveram, sim, a sua responsabilidade na tortura e na morte de Jesus (Jo 19,11). O que aconteceu não foi fruto do acaso ou de um plano previamente estabelecido por Deus e do qual Jesus não pôde fugir. O que aconteceu foi um conluio entre o poder religioso e o poder político que predominavam na Palestina daquela época. O sistema religioso e o sistema político de então torturaram e mataram Jesus. É claro que isso não nos dá o direito de acusar todos os judeus de todas as épocas pelo assassinato de Jesus, como tristemente e lamentavelmente fez a Igreja Católica até pouco tempo atrás e como levianamente continuam fazendo alguns católicos de direita. Não podemos nem mesmo condenar todos os romanos daquela época. Mas é preciso deixar claro que a morte de Jesus não foi um desejo do Pai e do qual o Filho não teve como escapar. Dizer que tudo já estava previsto é transformar a fé cristã em puro fatalismo e em mero capricho de Deus. E isso seria um tremendo absurdo.

            A paixão, a morte e a ressurreição de Jesus inspiraram homens e mulheres de todos os tempos. Essas pessoas, animadas pela fé em Cristo, assumiram corajosamente o projeto de Deus até as últimas consequências. Desde os primeiros mártires do cristianismo até os mais recentes como Santos Dias, Margarida Alves, Dorothy Stang, Josimo e Oscar Romero, homens e mulheres seguiram em frente e não arredaram o pé diante das ameaças dos poderosos, prepotentes e arrogantes. E faziam isso porque estavam convencidos de que entre paixão, morte e ressurreição existe uma profunda ligação. Estavam convencidos de que, mesmo triturados e assassinados pelos sistemas religiosos e políticos, continuariam vivos, ressuscitados pelo poder de Deus. Famosa é a frase de Dom Oscar Romero: “Se me matam, vou ressuscitar na luta do meu povo”.

            Meditar nestes termos sobre a paixão e a morte de Jesus é essencial, uma vez que corremos o risco de cultuar um Jesus açucarado, irreal e inexistente. De fato, ainda hoje não são poucas as pessoas e os movimentos de Igreja nos quais Jesus é visto sem nenhuma conexão com a sua história, com os fatos que antecederam a Páscoa. Isso leva a um cristianismo aguado e descomprometido, que se recusa a ver a realidade e se distancia propositadamente de um compromisso sério com a luta pela justiça e pela construção de um mundo mais humano e saudável. Nós cremos firmemente na ressurreição, no Cristo glorioso que venceu a dor, o sofrimento e a morte (Mc 16,6). Mas não podemos imaginar um Cristo ressuscitado diferente daquele que caminhou pelas estradas da Galileia e que enfrentou a paixão e a morte por causa da sua fidelidade ao projeto do Pai e por causa de seu amor pelo povo. As narrativas das aparições do Ressuscitado, mais do que evidenciar a reanimação de um cadáver – como se Jesus tivesse readquirido o mesmo corpo de antes da morte – querem evidenciar a relação entre o Jesus histórico e o Jesus ressuscitado (Lc 24,39-40; Jo 20,27). Querem mostrar que não é possível adorar o Ressuscitado negando aquele Jesus que caminhou pelas entradas empoeiradas da Palestina, anunciando a libertação aos pobres e oprimidos.

            Neste sentido pode-se e deve-se dizer que o Tríduo Pascal possui uma dimensão política inegável. Celebrá-lo é reconhecer que Jesus, deliberadamente e conscientemente tomou partido, escolhendo ser fiel ao projeto do Pai, o qual incluía uma paixão pelo povo, um anúncio de libertação e uma rejeição radical do projeto do templo de Jerusalém que tinha se corrompido, transformando a religião num “mercado religioso”, num “covil de ladrões” (Jo 2,16). Celebrar o Tríduo Pascal é reconhecer que Jesus rejeitou o projeto político dos romanos, cujos chefes agiam como verdadeiras “raposas” (Lc 13,31-33), fazendo pesar sobre os ombros das pessoas, especialmente dos mais pobres, a tirania e a opressão (Mc 10,42-45).

            Sem essa dimensão política, toda celebração pascal vira uma farsa, um ritual sacrílego que ofende a Deus, porque desprovido de consequências reais para a vida da humanidade. Ainda hoje existem aqueles que querem uma Semana Santa folclórica, com bastante emoção e choro diante de uma estátua de Nossa Senhora das Dores ou de um Senhor dos Passos branco, de olhos e sangue azuis. Mas não querem uma Semana Santa que associe as dores de Maria, mãe de Jesus, às dores de Cláudia Teixeira, negra, pobre, moradora de periferia, brutalmente arrastada e assassinada pela Polícia Militar do Rio. Não querem uma Semana Santa que ouse associar o Cristo amarrado na coluna da flagelação ao jovem negro amarrado a um poste por playboys brancos cariocas, num bairro chique do Rio de Janeiro.

É fácil comover-se diante de estátuas, mesmo que sejam estátuas “sagradas”. Elas estão lá imóveis. Não nos incomodam e não nos desinstalam. Não nos causam problemas, não nos provocam e nem exigem de nós conversão. Mas comover-se diante de estátuas não é cristão, não é evangélico e, de certa maneira, é uma idolatria. Idolatria porque Jesus não quer lágrimas para ele e nem tão pouco para uma estátua sua ou de sua mãe. Não foi isso o que ele disse a algumas mulheres enquanto se dirigia para o Calvário (Lc 23,27-32)? O que ele quer mesmo de nós é uma comoção que se transforme em ação em favor dos que estão oprimidos, sofridos, abandonados e excluídos do direito à vida plena (Mt 25,31-46). Urge, pois, celebrar o Tríduo Pascal com obras e gestos, fazendo o que pediu o papa Francisco na Evangelii Gaudium (EG), ou seja, “tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (EG, 24). Se a nossa celebração da Páscoa serve apenas para aderir a uma economia que mata, deixa do mesmo jeito a desigualdade social, ajuda a produzir uma sociedade de “pessoas descartáveis” e contribui para a globalização da indiferença (EG, 53-60), então é uma páscoa consumista, de supermercado, e não a Páscoa de Jesus. Para ser Páscoa de Jesus é preciso que ela não seja uma “espiritualidade do bem-estar”, uma “teologia da prosperidade” alienante, subjetiva, sem compromissos fraternos (EG, 89-90). Para ser a celebração da Páscoa de Jesus ela precisa ser política, ou seja, anunciar um caminho esperançoso e libertador que leve felicidade e alegria aos pobres. Para ser Páscoa de Jesus ela terá que ser uma verdadeira “caravana solidária” (EG, 87).

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Análise de conjuntura


A economia da salvação:
Desdobramentos antropológicos, ecológicos e teológicos da reificação da consciência

Felipe Dittrich Ferreira, antropólogo
Marcos Vinicios de Araujo Vieira, sociólogo

Quando Graciliano Ramos publicou S. Bernardo, em 1934, o moderno capitalismo começava a penetrar no domínio rural nordestino, com conseqüências sociais diversas. No romance, à luz das transformações socioeconômicas em curso, Graciliano narra o drama humano de Paulo Honório — profetizando, ao mesmo tempo, a realidade do homem burguês de nosso tempo. Com sensibilidade embotada e olhar quantificador, Honório decide transformar sua fazenda, S. Bernardo, de modo a adequá-la plenamente à lógica do capitalismo moderno. Buscando ascender socialmente, Honório nada poupou, sacrificando até mesmo suas relações familiares. Ao final, quando tudo em sua vida, incluindo a relação amorosa com Madalena, foi "afogado nas águas geladas do egoísmo", o personagem, num esforço sincero de auto-análise, constata:

Nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins. É a desconfiança terrível que aponta inimigos em toda parte! A desconfiança é também conseqüência da profissão. Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens, uma boca enorme, dedos enormes. (...). Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas. A vela está quase a extinguir-se.

(...). Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto, o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no chão.

É horrível! Se aparecesse alguém... Estão todos dormindo.  Se ao menos a criança chorasse... Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que Miséria!

Com a publicação da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, é chegado o momento de levarmos a ilustrativa experiência narrada por Graciliano Ramos mais a sério. Precisamos refletir sobre o tipo humano gerado pelo capitalismo e pensar, em particular, nas repercussões teológicas da adesão desmedida ao universo mercantil. Francisco é enfático ao dizer que o capitalismo, em sua própria raiz, é iníquo, carecendo de orientação antropológica. O sistema capitalista, em outras palavras, trata o homem como coisa entre coisas, não apenas ignorando sua dignidade, mas também embrutecendo-o deliberadamente. Essa denúncia já havia sido antecipada pelo Papa em 2013, durante visita à ilha de Lampedusa, no sul do Itália. Na ocasião, Francisco manifestou solidariedade aos refugiados e imigrantes que se lançam ao Mediterrâneo, em embarcações muitas vezes improvisadas, na busca desesperada por condições dignas de vida. Frente aos destroços de navios naufragados, o Papa não se limitou a solicitar compaixão. Procurou lançar luz sobre aspectos sociológicos do problema, indicando que, em função da arraigada “cultura do bem-estar”, estaria em curso a “globalização da indiferença”:  

Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa! (...) A globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar.

Ao denunciar este quadro, Francisco nos compele a refletir, sob nova luz, a respeito de um conjunto importante de capacidades humanas, relacionadas, por um lado, ao coração, e por outro, ao entendimento. Está em questão a consciência do homem moderno: seu discernimento, sua sensibilidade, sua forma de relacionar-se. Francisco trata desses temas, no texto mencionado acima, exortando o homem a transformar-se, levando em conta os ensinamentos do Evangelho, ao mesmo em que faz críticas ao sistema econômico em vigor. Parece, portanto, haver forte relação entre os dois temas.

Para compreendermos a conexão entre teologia e economia, para a qual o Papa chama a nossa atenção, parece-nos útil aplicar alguns conceitos da moderna ciência social à reflexão teológica. O conceito de “reificação”, por exemplo, proposto por Lukács, parece iluminar aspectos importantes da situação denunciada pelo Bispo de Roma. Na visão do pensador húngaro, o conceito explicaria traço característico da racionalidade moderna que tende a transformar em “coisas” as mais diversas entidades e relações, desumanizando-as. Já na década de 1920, Lukács assinalava a proliferação desse fenômeno em função do alargamento acelerado da esfera mercantil, dentro da qual relações essenciais passaram a se desenrolar, incluindo a relação dos homens entre si (por meio, sobretudo, do comércio de “mão-de-obra”) do homem consigo próprio (veja-se, por exemplo, a idéia de “capital humano”, desenvolvida pela Escola de Chicago, na década de 1960) assim como do homem com a natureza (transformada em simples fonte de “matérias-primas”).

O desfecho desse processo, na perspectiva lukacsiana, não poderia ser mais sombrio: a própria consciência, que consiste, na linguagem do Concílio Vaticano II, no lugar sagrado de comunicação de Deus com o homem, tende a ser “coisificada”. Esse desfecho tem implicações antropológicas, ecológicas e teológicas que devem ser denunciadas com ênfase. Afastado de Deus o homem se empobrece, preso num círculo vicioso de autorreferencialidade. Colocando-se no centro do universo, por vezes de forma desatenta, o indivíduo reificado transforma as demais pessoas em meios para seus fins particulares, à maneira de um deus frívolo e cruel. Da mesma forma é tratada a natureza, transformada em simples depósito de recursos. Sob o olhar mercantilizado, com efeito, tudo é permitido: vidas podem ser descartadas, pessoas podem ser escravizadas, rios e mares podem ser convertidos em esgotos, florestas podem ser transformadas em dinheiro, ao mesmo tempo em que se admite com naturalidade a criação de animais em larga escala exclusivamente para o abate como se outras espécies não tivessem valor intrínseco. Estamos, em verdade, no reino da completa indiferença, que a Campanha da Fraternidade da CNBB deste ano vem a denunciar, ao menos parcialmente, com o tema do tráfico de pessoas — crime que transforma seres humanos em objetos de lucro e prazer.

Diante desse quadro, contra o qual se insurge ao mesmo tempo a crítica teológica e a sociológica, não cabe dúvida de que somos desafiados a tomar uma decisão fundamental para garantir nossa humanidade, resgatando, ao mesmo tempo, a qualidade da vida em sociedade e as condições de vida na Terra, sob o ponto de vista ecológico. É urgente recuperarmos o discernimento, libertando o inconsciente de fantasias criadas pelo capitalismo e a consciência da lógica calculista hoje imperante. Ao mesmo tempo, devemos refletir sobre a reconstrução da sensibilidade, sobre nossa capacidade de estabelecer vínculos significativos não apenas com outros seres humanos, mas também com Deus, inclusive por meio do “espelho do mundo sensível”, nas palavras utilizadas por São Boaventura para fazer referência à natureza. Não se trata, portanto, de buscarmos apenas a salvação das almas, como se dizia antigamente. É necessário, de fato, salvarmos o mundo, ressacralizando-o. Ao combatermos a reificação, restaurando, pouco a pouco, o sentido das coisas, oxalá possamos dar alguns passos nessa direção.

A história da evolução à qual estamos fazendo alusão não é simples. Já se alegou que a religiosidade foi combatida, ao longo do período moderno, de modo que o homem não pudesse evocar uma fonte alternativa de legitimidade frente a eventuais conflitos com a lei civil. Com relação ao desenvolvimento do capitalismo, embora não seja correto falar num esforço deliberado em contraposição à religião, inclusive à luz das lições de Max Weber, não há dúvida de que o referido sistema, primeiro ao prender o homem à esfera da produção e, em seguida, ao aprisioná-lo à esfera do consumo, deu origem a uma reação em cadeia que parece minar a religiosidade por todos os lados, prejudicando fatalmente nossa capacidade de compreender este mundo e respeitá-lo. T. S. Eliot atribuiu parcela importante de culpa ao exagerado papel atribuído por nossa Era à ciência. Nos versos abaixo, traduzidos por Rubem Alves, os saberes, que buscamos acumular, contrapõem-se à sabedoria, que deixamos de cultivar:
O círculo sem fim da idéia e ação,
De invenção sem fim, de experimentação sem fim,
Traz conhecimento do movimento, mas não da tranqüilidade;
Conhecimento da língua, mas não do silêncio;
Conhecimento de palavras, e ignorância da Palavra.
Para resumir a ópera poderíamos dizer o seguinte: distraído por miragens de felicidade, cooptado por ilusões de poder, encerrado num universo artificialmente desprovido de sentido, reduzido a instrumento e afastado de Deus, o homem tornou-se menos criativo e mais sujeito à manipulação, ao mesmo tempo arrogante e tíbio, menos propenso a exigir uma vida absolutamente melhor sobre a Terra. Descrentes, em outras palavras, com relação à existência de um propósito maior para este mundo, perdemos a capacidade de nos reconhecermos, mutuamente, como filhos de Deus. O mesmo ocorre no que diz respeito ao modo como compreendemos e nos relacionamos com a natureza: perdemos a capacidade de ver as diversas facetas do mundo em sua essencialidade, à luz, por exemplo, daquela evolução cósmica, rumo à Cristificação de todas as coisas, de que nos fala Teilhard de Chardin.

Nessas circunstâncias, somos como que obrigados a declarar como Paulo Honório: "endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada". No mundo reificado, somos, de fato, como aquele cego de Betsaida, narrado pelo Evangelho de Marcos, a espera de uma cura, porque, como ele, não nos acautelamos do fermento dos fariseus. Nesse sentido, superar a consciência reificada implica adquirir olhar qualitativo sobre o mundo e, com Francisco, "a capacidade de chorar, de padecer com" diante do sofrimento do outro, porque de outro modo estamos na escuridão da autorreferencialidade. Em última instância, significa superar a racionalidade instrumental, que opera através de cálculo sobre a adequação eficiente entre meios e fins, sem que se coloque em questão a validade dos próprios fins, mesmo quando eles importem na destruição das condições de sobrevivência do homem sobre a Terra ou na alienação de sua própria humanidade.

 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Análise histórica


Igrejas, golpes e ditaduras no Brasil

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário

            No último artigo abordei a questão dos golpes e das ditaduras no Brasil. Esforcei-me para mostrar que essa é uma prática comum há mais de quinhentos anos, desde que esse lugar, que hoje se chama Brasil, foi invadido pelos portugueses. Neste artigo quero refletir sobre a atitude das Igrejas diante desses golpes. Chamo a atenção para o plural, pois aqui quero falar de todas as Igrejas e não apenas da Igreja Católica Romana.

            Até o final do Império, a Igreja Católica Apostólica Romana era a religião oficial do Brasil. Por essa razão ela detinha também a hegemonia e, com isso, impedia ostensivamente o ingresso e o avanço de outras Igrejas no país. Somente no final do Império e no início da República as Igrejas protestantes históricas começaram a ganhar visibilidade por meio dos imigrantes europeus que se estabeleceram no sul do Brasil, particularmente os alemães. Por esse motivo podemos afirmar que a Igreja Católica Romana foi a única Igreja a presenciar e a apoiar os golpes aplicados nesse período.

            Sabemos que durante o período da colonização e do Império a Igreja Católica Romana foi totalmente conivente com o que aconteceu. Naquele período era normal a política da boa convivência entre a cruz e a espada. A Igreja Católica Romana simplesmente ratificava o que o Estado e a elite realizavam. Algumas vozes se levantaram contra os abusos, mas, além de serem vozes isoladas, foram totalmente reprimidas. É o caso, por exemplo, do jesuíta Antônio Vieira que, por denunciar os desmandos e horrores contra os indígenas e contra os judeus foi incompreendido, perseguido e, por fim, silenciado. Escapuliu por pouco da Inquisição.

            As atrocidades praticadas pelos portugueses, no momento da invasão do Brasil e durante todo o período colonial, foram amparadas por documentos pontifícios. Darcy Ribeiro, no seu livro O povo brasileiro (São Paulo: Companhia de Letras, 2007, 2ª edição p. 36-37), nos lembra que por trás da brutalidade dos lusitanos estava o respaldo de textos papais. O primeiro deles era a Bula Romanus Pontifex, do papa Nicolau V, datada de 8 de janeiro de 1454, que afirmava: “concedemos ao rei Afonso a plena faculdade, entre outras, de invadir, conquistar, subjugar a quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, a todos reduzir à servidão e tudo praticar em utilidade própria e dos seus descendentes [...]. Se alguém, indivíduo ou coletividade, infringir essas determinações, seja excomungado”. O outro era a Bula Inter Coetera, do papa Alexandre VI, promulgada, não por acaso, em 4 de maio de  1493, após a invasão do nosso continente por Américo Vespúcio, e que dizia o seguinte: “E a vós e a vossos herdeiros e sucessores [...], pela autoridade do Deus onipotente a nós concedida em São Pedro, assim como do vicariado de Jesus Cristo, a qual exercemos na terra, para sempre, [...] constituímos [...] senhores, com pleno, livre poder de sujeitar a vós, por favor da Divina Clemência, as terras firmes e ilhas sobreditas e os moradores e habitantes delas, e reduzi-los à fé católica”.

            Como se pode ver, esses textos pontifícios autorizavam toda e qualquer brutalidade. Tudo em nome de Deus, e impedir a brutalidade significava ser excomungado. As expressões invadir, conquistar, subjugar, sujeitar, reduzir à servidão, tudo praticar em utilidade própria, não foram inventadas por mim, mas tiradas literalmente de documentos papais. Os ingênuos e os católicos conservadores argumentam que os papas não teriam pensado em atrocidades no momento em que escreveram essas “autorizações”. Teriam sido os espanhóis e portugueses a praticar os exageros. Esquecem que, naquela época, essa era a forma mentis, ou seja, o modo de pensar de toda a Igreja, particularmente de sua hierarquia. Estávamos ainda no período da Inquisição, e a tortura, o assassinato, a brutalidade contra os “infiéis e pagãos” eram consideradas normais.

            É verdade que alguns papas, vindo a saber de tais atrocidades cometidas nas “terras de Santa Cruz”, se pronunciaram sobre o assunto, determinando menos sofrimento e mais cuidado. Mas a Igreja Católica nunca tomou medidas sérias efetivas para pôr fim ao massacre dos indígenas e dos negros. Sempre tolerou a “máquina de moer gente” (Darcy Ribeiro), na qual havia se tornado o Brasil colônia. Mesmo porque vigorava então a lei do padroado, um acordo instituído entre a Santa Sé e Portugal, através do qual o papa delegava ao rei de Portugal o poder de organizar e financiar todas as atividades religiosas nos domínios e nas terras invadidas pelos portugueses. Tomar medidas efetivas contra os massacres realizados pelos portugueses aqui no Brasil seria descumprir o padroado e criar sérios problemas para a Santa Sé, tanto de ordem política como econômica. Desse modo a Igreja Católica Romana preferiu se omitir e quase sempre silenciar diante dos golpes e atrocidades praticadas no período da colonização.

Isso continuará por todo o período do Império, ocasião em que os documentos papais ainda são tidos como válidos e continuará vigorando o padroado, mudando apenas o seu executor. Ao invés do rei de Portugal, o imperador do Brasil passa a ser o organizador e financiador da Igreja Católica. Todos silenciam mesmo porque, como nota Darcy Ribeiro, as disposições papais terminaram por criar uma cultura de submissão e resignação. Ainda hoje esse silêncio é a norma vigente no Brasil que garante o exercício arbitrário do poder sobre o povo, tirando-lhe a possibilidade de traçar seu próprio destino, vendo as pessoas apenas como meros servidores dos poderosos.

Com o golpe da proclamação da República se decreta também a separação entre Igreja e Estado. Mas a Igreja Católica não se deu por vencida e continuou freqüentando a “cozinha” dos poderosos e dos governos, na esperança de que estes depositassem alguma coisa de substancioso em seus cofres. Por essa razão, de um modo geral, ela, seja através de sua hierarquia seja através da maioria absoluta dos católicos, continuará apoiando todos os golpes, inclusive aquele de 1964. Se houve uma posição diferente a partir do final da década de 1960, isso não se deve a uma mudança copernicana na posição da Igreja Católica no Brasil. Aconteceu antes de tudo pela atuação inesperada do Espírito Santo através do Concílio Vaticano II e de Medellín, pela ação de algumas eminentes figuras do laicato católico, bem como pela coragem de bispos como Dom Hélder Câmara, Dom Aloísio Lorscheider, Dom Ivo Lorscheiter, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Luciano Mendes, Dom Tomás Balduíno e Dom Pedro Casaldáliga. Foram os anos áureos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que enfrentou corajosamente a ditadura e denunciou seus desmandos.

Mas, de um modo geral, a maioria dos católicos (incluindo muitos padres e bispos) continuou omissa e apoiando os golpes. Mesmo recentemente é possível notar como a quase totalidade dos católicos se mostra indiferente para com o tema da democracia e da cidadania. A atuação de João Paulo II e da Cúria Romana nos últimos trinta anos permitiu que essa mentalidade conservadora se intensificasse. As redes católicas de televisão, por exemplo, salvo um ou outro caso, se associam à mídia golpista e em nada colaboram para uma autêntica formação da consciência crítica cidadã. Com seus programas, quase todos melosos e alienados, contribuem para que o público católico continue ultraconservador e direitista, tanto do ponto de vista religioso como político.

No que diz respeito aos protestantes históricos, também eles chegam ao Brasil com uma visão semelhante, mesmo porque, sendo minoria, não queriam um confronto direto com o poder. Eram igualmente herdeiros do eurocentrismo e das tradições conservadoras de seus países de origem, com aquela concepção de que a raça ariana era a autêntica raça. Isso ficou visível durante a Segunda Guerra Mundial, quando os protestantes alemães silenciaram diante das atrocidades de Hitler. Por isso, recentemente, as Igrejas protestantes alemãs recitaram publicamente um “mea culpa”, reconhecendo que, enquanto cristãos, foram omissos e indiferentes aos horrores praticados por Hitler. É verdade que na Alemanha alguns protestantes se rebelaram contra o nazismo. A figura mais eminente foi Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano e teólogo, fuzilado pelo regime. Mas a maioria absoluta dos protestantes não se incomodou e nem se mobilizou contra Hitler. Aqui no Brasil alguns pastores e lideranças de Igrejas protestantes históricas se posicionaram contra a ditadura de 1964. Vale mencionar o nome do presbiteriano Jaime Wright, que juntamente com Dom Paulo Evaristo Arns e o rabino Henry Sobel, desenvolveu uma ação de denúncias e de lutas contra a ditadura, culminando no Projeto “Brasil: nunca mais”. Mas isso não significa que a totalidade dos protestantes brasileiros pensava e agia do mesmo modo.

No que diz respeito às Igrejas evangélicas e pentecostais a questão é mais complicada, uma vez que hoje é possível comprovar que muitas delas chegaram ou surgiram na América Latina com o propósito explícito de alienar as pessoas e de destruir toda atividade daqueles cristãos que lutavam contra os horrores do capitalismo. Délcio Monteiro de Lima, no seu livro Os demônios descem do Norte (Francisco Alves, 1987), provou como os Estados Unidos, especialmente na era Nixon e Reagan, montaram um plano para financiar e dar suporte à direita católica e a Igrejas evangélicas e pentecostais que conseguissem tirar do povo toda e qualquer consciência crítica. Hoje já temos muitos evangélicos sérios, bastante comprometidos com a luta pela democracia e pela cidadania. É o caso, por exemplo, dos Evangélicos pela Justiça, os quais possuem um site no qual se pode ver a atuação deles. Mas, infelizmente, eles ainda são uma minoria, pois os evangélicos, de um modo geral, manipulados por certas lideranças midiáticas, continuam indiferentes e insensíveis às questões da cidadania e possuem uma visão política ultraconservadora e direitista.

A conclusão é dura, mas inegável: todas as Igrejas aderiram e apoiaram os golpes e, sob muitos aspectos, continuam fazendo o jogo da burguesia e da elite brasileira. Possuem, pois, uma dívida enorme com o povo brasileiro. Precisam, o quanto antes, saldar essa dívida, se quiserem continuar sendo Igrejas cristãs e se quiserem continuar existindo em nosso país. Com o passar do tempo o povo vai se dando conta disso e vai abandonando-as. O Censo de 2010 já aponta nesta direção. Não só os católicos e protestantes históricos, mas também grandes Igrejas evangélicas começam a perder cada vez mais fiéis. Aumenta o número dos “evangélicos genéricos”, ou seja, de evangélicos que se declaram tais, mas não se identificam mais com nenhuma Igreja. E estou convencido de que esse abandono tem muito a ver com o distanciamento das Igrejas do núcleo essencial da fé cristã anunciado por Jesus: “Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (Jo 13,35).

 

 

terça-feira, 25 de março de 2014

Psicologia do Amor - 1


Viver é saborear o amor

Ana Márcia Guilhermina de Jesus
Bacharela em Psicologia

Sentir o gosto do amor que flui do mais profundo do meu ser. Ouvir a palavra que ressoa forte como um grito: “você é linda, linda, lindaaa, inteligente, preciosa e cheia de sabedoria. Eu te amo do profundo do meu coração, te amo muito”. Em um momento profundo de intimidade, o meu amado falou baixinho em meu ouvido essas palavras ricas de significados, cheias de simbologias.

Nesse clima, onde existem trocas de amor, percebi quanto é importante sentir o que está por trás das palavras, dar atenção ao significado de cada uma delas, ao que se sente na profundidade e à riqueza contida e escondida em cada uma delas. Cada palavra traz consigo a força da cura, o milagre do amor e a potencialidade da vida. Traz o eco e a emoção que vêm direto do coração. A criação do mundo se dá pela força da palavra e do amor criativo de Deus. Essa força criativa existe dentro de cada ser humano, de cada homem e de cada mulher que toma consciência dessa força existente em todo seu ser. E, tomando consciência disso, procura usá-lo com mais frequência em beneficio próprio e do bem de outras pessoas.

Por isso, após o bacharelado, fui buscar a minha vida de volta, vida essa perdida no espaço acadêmico, onde o estudo é mecanicista. E, por ser assim, tira de nós a possibilidade de pensar em nós e nos outros. Lamentavelmente o espaço acadêmico costuma arrancar o que temos de mais precioso: a sensibilidade. O tempo na universidade foi “um tempo na UTI”, agonizando entre a vida e a morte, lutando para sobreviver. Até que parei e disse para mim mesma: “preciso sair desse estado de coma profundo”. Hoje eu quero viver, e viver em plenitude. Vou ressuscitar e viver uma vida nova. Deixar a vida pulsar em mim. Buscar o que o meu amado falou: “A riqueza, a sabedoria e a inteligência estão no mais profundo do seu ser. Busque, meu amor, vivenciar cada dia, cada instante de sua vida”.

Tenho certeza de que, ouvindo as palavras do meu amado, vou resgatar os sentimentos existentes no mais profundo do meu ser: a amabilidade, a sensibilidade, a solidariedade, o amor pela justiça e a fraternidade. Coisas que, se a gente não tiver o devido cuidado, se perdem nesse mundo, onde tudo precisa ser feito com urgência; onde o que conta não é a pessoa, mas o capital. Não conta o amor pelas pessoas, mas o dinheiro; não conta o convívio com o outro, mas o desejo de ter mais, atropelando assim o que se tem de mais precioso que é o encontro com o outro, a amizade e a solidariedade.

Viver é saborear o amor, é deixar fluir esse amor que existe em cada um de nós. Tomar gosto. Partindo da minha experiência de vida, quero partilhar com vocês o que eu e meu amado vivenciamos: nós dois experimentamos no nosso dia a dia a beleza do amor, sentimos o gosto e o sabor de amar de verdade. Nosso amor passa pelos nossos corpos entrelaçados, gozando da riqueza e da beleza que cada um traz consigo no respeito mútuo, na simplicidade, na humildade.

Esses sentimentos passam pelos nossos corpos e vão além, porque temos consciência da profundidade deles. A força desse sentimento de amor profundo passa pelo nosso coração, onde é transformado e flui pelas veias, levando a força vital. Passa também pelo cérebro, onde é decodificado, criando palavras, e, pelas vias eferentes, vai por todo o corpo, carregando o significado e a simbologia de todas as palavras. Passa por um órgão pequenino chamado tálamo, que é muito importante, o qual recebe as informações e as transmite para os nossos sentidos o que recebeu do ambiente externo. Esses receptores do sentido se fortalecem com o fluido do amor que perpassa todos eles. Com essa força amorosa os olhos passam a ver com transparência e enxergam de forma nítida cada coisa que veem. O mesmo se dá com os ouvidos que escutam as palavras agraciadas, amáveis, enriquecidas e cheias de amor e de vida. O som amoroso é transformado e produz bem estar, harmonia para todo o corpo.

De forma tanto quanto rica, o tato, tocado pela força do amor, se sensibiliza, deixando o corpo mais flexível e receptível, de forma que recebe e doa amor sem censurar. Essa força amorosa não para aqui; ela vai passando até chegar à língua, levando o gosto e o sabor do amor. Esse amor, que existe entre eu o meu amado vai além do sexo. Ele passa pelo corpo inundado de amor, de carícias, e vai tomando seu curso de forma rica e bonita, chegando à profundidade do nosso ser.

Assim sendo, o sexo é o momento do ápice do nosso amor; é o momento sagrado onde nossos corpos se juntam e os nossos seres se encontram em profundidade para celebrar esse grande mistério, que é amar. É o tempo inexplicável do amor, tempo sem tempo, tão pouco tempo, mas tão profundo que não dá para explicar. Então tudo silencia para escutar somente o gemido do amor e deixar fluir esse amor até as suas últimas consequências, até a fruição total. É essa força do amor que um tem pelo outro que faz brotar a vida, que faz acontecer o milagre da ressurreição, que nada mais é do que saborear o amor, saborear a vida de forma plena.

Sem viver isso em plenitude, sem perceber essa dinâmica do amor e sem entendê-la plenamente, perdemos toda a capacidade de entender os outros, de sermos sensíveis, de amar. Sem essa experiência profunda nos tornamos desumanos e violentos. Hoje tantos se perguntam por que tanta violência, tanto ódio, tanta desumanidade. A resposta está aqui. Porque falta a experiência real do amor, nos termos que acabamos de propor. Amém.

sábado, 22 de março de 2014

Conjuntura brasileira


Mais de quinhentos anos de golpes

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário

            Estamos refletindo nestes dias sobre os cinquenta anos do golpe violento praticado em 1964 pelas elites de nosso país contra o povo brasileiro, usando como escudo de proteção as Forças Armadas da nação. A reflexão é de fundamental importância, pois, lamentavelmente, somos tentados a esquecer nosso passado, e a repetir no presente certas barbáries praticadas outrora. Dizem que o brasileiro “tem memória curta”. Isso, até certo ponto, continua sendo verdade.

            Mas aquele de 1964 não foi o único golpe aplicado pelos ricos e opulentos contra a sociedade brasileira. Tudo já começa em 1500 quando a Coroa Portuguesa desembarca nas costas da Bahia e invade de forma violenta e truculenta esta terra que já era habitada há milhares de anos por numerosos povos e etnias. O rei de Portugal chega por meio de suas caravelas e vai se apoderando de tudo. Não quer saber quem habita estas terras. E para se apoderar das riquezas determina a escravização e o extermínio de todos aqueles povos que mostrassem resistência. Muitas vezes a extinção não era praticada através de armas de fogo, mas por meio de métodos sofisticados e baratos como, por exemplo, a introdução nas aldeias indígenas de objetos contaminados por doenças dos brancos (gripe, varíola etc.), capazes de dizimar populações inteiras. Esse golpe violento, que exterminou milhões de pessoas, continua acontecendo até hoje. Em nossos dias latifundiários, mineradoras, o agronegócio e grandes empresas multinacionais continuam desejando avaramente e compulsivamente as terras indígenas. E, quando eles resistem, não hesitam em matar, estuprar, destruir e espalhar terror, como fizeram recentemente com indígenas do sul da Bahia e do Mato Grosso do Sul. Tudo sob o olhar complacente dos governantes, dos legisladores e do poder judiciário. Este último sempre conivente e sempre a favor dos poderosos e exterminadores.

            Em seguida, a Coroa Portuguesa vai aplicando sucessivos golpes contra o povo pobre das terras “abaixo do Equador”. Basta pensar, por exemplo, nas capitanias hereditárias, verdadeiro exemplo de violência contra os primeiros habitantes das regiões que hoje chamamos de Brasil, contra os portugueses pobres e contra os seus filhos aqui nascidos. Pense-se também no lucrativo comércio de escravos africanos, um duro golpe contra povos da África e contra os seres humanos trazidos como verdadeiras mercadorias a serem vendidas nas feiras e nos mercados de algumas cidades brasileiras. Lembremo-nos dos pesados fardos e impostos aplicados pela Coroa contra os que aqui se encontravam, motivando a revolta que ficou conhecida como Inconfidência Mineira. Por fim, para não mencionar outros tantos, o último golpe, aplicado por Dom Pedro I, filho de Dom João VI, imperador de Portugal, proclamando uma independência que na verdade nunca existiu, pois, na prática, o Brasil continuou subjugado aos ditames e interesses dos poderosos da Europa.    

Em razão disso, o império brasileiro não passou de sucessivos golpes da burguesia que tudo controlava. Seria suficiente recordar o conturbado período vivido entre a renúncia de Dom Pedro I e o início do reinado de Dom Pedro II. Quem conhece a verdadeira história do Brasil sabe como esse período foi recheado de verdadeiros golpes, através dos quais se salvaguardava sempre os interesses das elites. O império, na verdade, continuou com práticas golpistas como, por exemplo, o modo de distribuição das terras e a permanência da escravidão. E quando decretou a extinção da escravatura foi por oportunismo financeiro e não por uma visão humanitária. Tanto que os escravos tiveram que, na prática, permanecer escravos, uma vez que não tiveram direito a nada. E nessa situação só lhes restava ficar subjugados de maneira ainda mais brutal e cruel aos seus antigos patrões.

            Quanto à República brasileira, a história é bem conhecida. Nasceu de um golpe e se manteve através de sucessivos golpes, todos eles sempre a favor das elites, da burguesia e contra os pobres. Todas as vezes que o povo ensaiava um movimento de verdadeira libertação, as elites reprimiam esses movimentos com golpes cruéis. Logo no início da República tivemos a brutal repressão do movimento de Canudos (Bahia) e, um pouco mais tarde, o massacre do Contestado, na divisa do Paraná com Santa Catarina. E aí vieram os sucessivos golpes, passando por Getúlio Vargas e chegando àquele de 1964. Convém salientar que todos esses golpes não foram somente militares. Todos eles foram civis, ou seja, golpes das elites brasileiras, que usaram como aparelho de repressão as Forças Armadas. Na verdade, as elites brasileiras usaram os militares para reprimir os anseios e as lutas do povo pobre brasileiro.

            No que diz respeito ao golpe de 1964, foi, na verdade, uma sucessão de golpes dentro do golpe. Isso se deu em primeiro lugar através dos malditos “atos institucionais”, pelos quais as Juntas Militares no poder, a serviço da burguesia, destruíram por completo a democracia. Ao determinarem, arrogantemente, a cassação de políticos, o fechamento do Congresso, a censura à imprensa, a cessação das liberdades democráticas, os golpistas se autoproclamaram os donos do poder, ou seja, afirmaram que o poder não emana do povo, pelo povo e para o povo, mas que o poder emana do poder. Além disso, se utilizaram da tortura e mataram muitas pessoas, violando princípios elementares de convenções internacionais, começando pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Por fim, notando o próprio fracasso, introduziram uma aparente abertura e proclamaram uma falsa anistia que perdoava também os golpistas, os torturadores e os assassinos do regime. Com mais esse golpe dissolveram os dois partidos existentes, e, assim, continuaram controlando tudo. Os políticos de esquerda, na época, não perceberam que se tratava de mais um golpe dentro do golpe e realizaram, de bom grado, a sua própria pulverização. O resultado foi a continuação da ditadura até pelos menos 1985.

            Porém, é preciso não esquecer que os golpes continuaram após a chamada “redemocratização”, mesmo que não se apresentassem mais com a crueldade daquele de 1964. O primeiro deles aconteceu em 1989, na primeira eleição para presidente da República, após a ditadura. As elites, percebendo que o povo poderia realmente tomar as rédeas do destino da nação, com a ajuda da mídia que continuava golpista, fabricaram um “caçador de marajás”, lá da “República das Alagoas”, e o apresentaram como o salvador da Pátria. O “caçador de marajás”, após tomar posse, mostrou a sua verdadeira face, seqüestrou, com a ajuda de sua parenta, o dinheiro dos pobres, quebrou pequenas empresas e pequenos negócios, levou muita gente à miséria e até ao suicídio. Não contente disso, resolveu “reformar a casa da Dinda”, ou seja, como se dizia na época, encontrou formas de lavar legalmente o dinheiro roubado anteriormente das poupanças dos pobres. E como, talvez, tenha se recusado a repartir o bolo com outros políticos corruptos, foi forçado a renunciar.

            Logo em seguida acontece outro golpe: parte de uma falsa esquerda, representada pelo PSDB e seus “nanicos satélites”, se junta ao PFL, neto da ARENA, aquele partido que tinha abrigado os políticos da elite golpista de 1964, e coloca no poder um presidente, cuja marca principal foi leiloar e vender a preço de banana um imenso patrimônio do povo brasileiro. Os detalhes, bem documentados, desse golpe estão amplamente difundidos em dois livros que a mídia golpista atual não ousa comentar: A privataria tucana do jornalista Amaury Ribeiro Júnior e O príncipe da privataria de outro jornalista, Palmério Dória.

            No momento atual o golpe em ação atende pelo nome de “mensalão do PT”. A burguesia, como sempre, percebendo o crescente avanço da insatisfação popular, decide desviar a atenção da sociedade brasileira insistindo pesadamente num suposto crime do Partido dos Trabalhadores. Não duvido que tenha havido esse “mensalão”, embora ilustres figuras do mundo jurídico e acadêmico coloquem em dúvida muita coisa. E tenho bons motivos para acreditar que o “mensalão do PT” seja mais uma armação para desviar a atenção dos brasileiros de mais um golpe contra o povo. Neste caso o PT é apenas o “bode expiatório” sobre o qual concentrar a raiva e a ira das multidões, como aconteceu em 1964, quando se acusava os “comunistas”, de serem “antropofagistas”, ou seja, “devoradores de crianças”. E, enquanto o povo tem a sua atenção desviada para o “mensalinho” do PT, as elites tratam de esconder as roubalheiras praticadas pela privataria e por outros estrondosos “mensalões” que passam pelos “buracos” do metrô de São Paulo, pela venda das teles e da Vale, pelas “caixas de Pandora” de Brasília e pelos paraísos fiscais do mar do Caribe e da Suíça.

            A atual elite usa a mídia golpista para insuflar multidões e encontrar “culpados”. Como em 1989 gera novos “caçadores”. E o pior de tudo é que esses novos caçadores estão abrigados sob as togas da Justiça, a qual, por natureza, deveria ser totalmente imparcial na defesa da verdade e do bem-comum. A estes novos “caçadores” são dedicados elogios, reportagens, capas de revistas, programas, entrevistas etc. Ora, como nos mostra a experiência, a grande mídia, verdadeiro oligopólio concentrado nas mãos de poucas famílias opulentas, está a serviço dos poderosos, dos ricos e dos inimigos do povo. Por isso, tudo o que sai dela é, pelo menos, duvidoso. Quando ela faz elogios a determinados personagens do Judiciário é porque estes personagens estão a serviço das elites que elas representam e não a serviço do povão dos pobres. Aliás, como disse o desembargador Paulo Rangel, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, em programa exibido pela TV Brasil em 19 de março de 2014, o sistema judiciário brasileiro é racista. Só prende, condena e pune o pobre que, normalmente, é também negro. Os bandidos engravatados, ricos e brancos, os verdadeiros “mensaleiros”, continuam soltos.

Por esse motivo os membros do Judiciário, que são muitos e defendem realmente o povo, não fazem parte das pautas de reportagens e dos noticiários na grande mídia. É o caso, por exemplo, do juiz Márlon Reis, do Maranhão, um dos idealizadores da Lei da Ficha Limpa. Os promotores e juízes que estão denunciando os grandes mensalões e outras tantas falcatruas da direitona nunca aparecem na grande mídia, a não ser de “raspão”, quando não dá mais para ocultá-los sem colocar em risco o índice de audiência. E como cerca de 70% da população brasileira são de analfabetos funcionais e, pior ainda, de analfabetos políticos, consegue-se facilmente cativar a simpatia do povo e elevar à condição de heróis certas figuras do alto escalão do Poder Judiciário, as quais nunca se importaram com os pobres e os oprimidos desse nosso país. Se não fosse assim, “grandes assaltantes” do dinheiro público como aqueles da “Caixa de Pandora” aqui do Distrito Federal e da “privataria tucana”, do Banco Opportunity, o chefe da máfia da jogatina, Carlinhos Cachoeira, e seu “representante” no Senado, não continuariam soltos. Só para citar alguns exemplos.

            Neste momento da história somos convidados a agir mais racionalmente e mais criticamente. Não podemos ceder a mais um golpe. Precisamos usar de esperteza. Sem abrir mão da apuração e da punição de toda e qualquer forma de corrupção, não podemos esquecer que a elite brasileira sempre usou um fato menor de corrupção para esconder a corrupção maior e mais estrondosa. E se alguém ainda dúvida dessa real possibilidade, que volte a fazer memória do famoso “caçador de marajás” da “República das Alagoas”. Ninguém tem a menor dúvida de que em Alagoas e em todo o Nordeste existiam e continuam existindo “marajás”. Mas eles foram utilizados como verdadeiros “bodes expiatórios” para esconder o projeto de leiloar o Brasil. Os brasileiros e as brasileiras não foram espertos, caíram na arapuca e entregaram o patrimônio do nosso povo à privataria, uma vez que a venda do nosso país, realizada pelos tucanos e seus aliados, começa com o seqüestro das poupanças feitas pelo ilustre “príncipe caçador de marajás”. O sucessor desse príncipe, o homem do topete, foi quem armou todo o esquema para que a partir de 1995 o Brasil começasse a ser vendido a preço de banana. Só espero que em outubro o povo brasileiro esteja mais esperto e não volte a cair de novo na arapuca de mais um golpe bem bolado.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Meditação Quaresmal


O anúncio da Quaresma:
Quem estiver com fome venha se alimentar sem pagar

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário

            Desde o seu surgimento, ainda nos primeiros séculos do cristianismo, enquanto período de preparação para a celebração da Páscoa de Jesus, o tempo da Quaresma foi sempre marcado pelo convite ao jejum, à esmola e à oração. Porém, nem sempre os cristãos souberam entender o significado dessas três ações e, por isso, já vimos um pouco de tudo nestes dois milênios de cristianismo. Mesmo recentemente, depois de tantos avanços nos conhecimentos da Bíblia e da Tradição cristã, ainda é possível encontrar por aí pessoas que fazem uma interpretação esdrúxula dessas práticas. Hoje, de modo particular, está em evidência uma interpretação individualista que relaciona as três coisas com a salvação individual, como se Deus estabelecesse na porta do céu uma alfândega ou um posto para cobrar pedágio e São Pedro lá estivesse como aduaneiro. Por essa razão nunca é demais refletir sobre esse tema.

            Precisamos antes de qualquer coisa destacar a dimensão social das três práticas quaresmais. A introdução do jejum, da esmola e da oração neste período preparatório à Páscoa de Cristo nada tem a ver com salvação individual; não são práticas voltadas para garantir a entrada no céu. Pelo contrário, buscando respaldo no Primeiro Testamento, na tradição do povo hebreu, o cristianismo sempre ressaltou os aspectos sociais das três ações.

            Já no período anterior ao cristianismo, quando vigorava a teologia da retribuição, segundo a qual Deus recompensava os justos por suas boas ações, os profetas bíblicos vão insistir na dimensão social do jejum (Is 1,16-20). Este não é para recompensar a pessoa, mas para convidá-la a sentir na pele o que os pobres e famintos sentiam de forma permanente. O objetivo do jejum não era ascético, penitencial, mas despertar a consciência dos abastados e saciados para as reais condições dos pobres, explorados e sofridos. Este despertar da consciência significava, na prática, o desenvolvimento de ações que pusessem fim à exploração e à injustiça que causavam a fome e a morte de pessoas inocentes (Is 58,1-12). Fiel a esta perspectiva Jesus rompe com uma prática do jejum como fim em si mesmo (Mt 9,14-15) e critica a postura daqueles que transformam tal prática em exibicionismo (Mt 6,16-18) e não percebem que essa ação deve servir apenas como forma de tornar as pessoas sensíveis ao sofrimento alheio (Lc 18,12).

            Do mesmo modo acontece com a esmola. Não é praticada para garantir a entrada no céu e nem tão pouco para descarrego de consciência diante da evidente e permanente presença de pobres no meio de nós (Mt 6,2-4). A esmola deve ser antes de tudo um gesto de partilha e, como tal, deve levar o cristão ou a cristã a perceber que a existência da pobreza e da miséria não é decorrente da vontade de Deus e nem da preguiça dos pobres, mas o resultado da exploração por parte de um sistema injusto e cruel que mantém uns poucos ricos às custas de uma maioria absoluta de pobres explorados. Ao dar esmola o cristão deve fazê-lo com a consciência de que o que ele tem, além do que ele precisa para viver dignamente e com simplicidade, não é dele, mas daqueles que disso estão precisando para sobreviver (Lc 12,22-35). A partir desse gesto de partilha, ele é convocado a denunciar tudo aquilo e todos aqueles que tiram dos pobres o mínimo de dignidade a que eles têm direito (Tg 5,1-6).

            Também a oração tem o seu aspecto social. Mesmo que seja um gesto revestido de interioridade, de discrição e de silêncio, sem exibicionismos “carismáticos” desmedidos (Mt 6,5-6), a oração é a preparação para a ação em favor dos outros. Não deve ser peditório a Deus, pois ele já sabe daquilo que precisamos (Mt 6,31-32). A oração deve necessariamente nos abrir à prática da justiça e da fraternidade, do amor misericordioso e da bondade (Mt 7,1-12). Se não for assim não será escutada por Deus (Mt 7,21-23).

            Estou convencido da urgente necessidade de uma profunda catequese sobre o assunto, pois o que vemos, em nossas igrejas e comunidades, é exatamente o contrário. Tudo está revestido de intimismo, de busca imediata de satisfação dos próprios desejos e de tentativa de comprar a prosperidade e a salvação a qualquer custo. São poucas as comunidades cristãs e poucos os cristãos que já descobriram a perspectiva social dessas práticas quaresmais.

            Um caso ilustra muito bem o que estou dizendo. Pouco tempo atrás uma senadora da nossa República, falando no âmbito da revisão de nossas leis e de nossos códigos, defendia a possibilidade de não penalizar aquelas pessoas que “furtassem” alguma coisa para satisfazer uma das necessidades mais básicas do ser humano: matar a fome. A posição da senadora causou um alvoroço nas redes sociais e não foram poucas as pessoas que a criticaram, afirmando que ela estaria estimulando e defendendo o furto.

            A reação das pessoas causa surpresa se considerarmos que, de acordo com o Censo de 2010, quase 90% da população brasileira se diz adepta do cristianismo. Ora, uma das regras mais elementares do cristianismo é de que o faminto não se alimenta de vento e palavra bonita não enche barriga. Logo, por rigor de lógica, ele tem direito a se alimentar e se ele não tem condições de comprar esse alimento ele tem o direito de pegá-lo onde tiver (Tg 2,15-17). Esse princípio elementar do cristianismo foi herdado das culturas nômades do baixo Mediterrâneo. Nessas culturas (das quais os ciganos são os últimos remanescentes) os bens essenciais não são vendidos, mas cedidos a quem precisa, de modo que se alguém precisar de comida e de roupa, e encontra isso em algum lugar, tem o legítimo direito de se apropriar desses bens para satisfazer suas necessidades básicas. Isso foi codificado mais tarde na Bíblia hebraica (Lv 19,9-10; Dt 24,19-22; Rt 2,14-20) a ponto do profeta poder afirmar: “Atenção! Todos os que estão com sede, venham buscar água. Venham também os que não têm dinheiro: comprem e comam sem dinheiro e bebam vinho e leite sem pagar” (Is 55,1).

            O que surpreende nessa tradição nômade, que depois se tornou legislação na Bíblia hebraica, é o fato de que esse é um direito dos pobres, independentemente da razão de sua pobreza. O que entristece na postura das pessoas de hoje é o contrário, ou seja, a indiferença diante do sofrimento. Ao invés de seguir o princípio cristão de denunciar a opulência dos ricos que gera a miséria (Tg 2,6), as pessoas de hoje querem fazer pesar sobre os pobres e sofredores a responsabilidade por todos os males. É claro que o dono do supermercado ou da mercearia da qual o pobre retirou o que precisava tem direito a ressarcimento. Mas, ao invés de responsabilizar o Estado e a própria sociedade por gerar pessoas famintas, os frequentadores de redes sociais querem culpabilizar os próprios pobres pela sua pobreza. Ao invés de aplaudir a proposta da senadora e denunciar a omissão do Estado e a indiferença das pessoas para com o sofrimento alheio, fazem recair sobre os mais pobres entre os pobres a responsabilidade pelo que lhes acontece.

            Seria mais correto, por exemplo, denunciar aquela Rede de Televisão brasileira que deve centenas de milhões de reais de imposto à Receita Federal e ainda é declarada emissora oficial da Copa do Mundo. Seria mais cristão denunciar aquele banco, patrocinador oficial da Copa do Mundo, que deve bilhões de reais de imposto à Receita. Mas o que fazem as pessoas? Admiram e acreditam nessa televisão, participam dos realities shows por ela promovida, inclusive gastando do próprio dinheiro para participar dessa baboseira. Abrem suas contas nesse banco e assim por diante. Isso, sim, é que é incentivar o roubo e o furto e não propor que o pobre faminto possa pegar comida para matar a fome lá onde tiver alimento.

            É hora de mudarmos, se queremos ser cristãos. O jejum, a esmola e a oração precisam ter conotação essencialmente social. Do contrário se torna ofensa a Deus (Is 1,11-15). Nesta Quaresma seria oportuno escutar o papa Francisco, o qual nos disse recentemente que a esmola não deve ser confundida com “caridade por receita” para tranqüilizar a própria consciência, mas experiência cristã que provoca mudanças sociais sérias (EG, 180). O jejum não deve ser um peso para expiar pecados (EG, 38-39). E a oração não pode ser reduzida a proposta alienante, consumo espiritual e nem expressão de individualismo doentio que busca salvação a qualquer custo (EG, 89-90). O cristianismo, para ser autêntico, precisa assumir o humano, “tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (EG, 24). O resto é baboseira religiosa.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Campanha da Fraternidade 2014


Tráfico de pessoas: a indiferença, o fetichismo do dinheiro e o prazer ambivalente

 
Marcos Vinícios de Araujo Vieira
Sociólogo, diplomata de carreira, 29 anos*


Neste ano, a CNBB escolheu como tema da Campanha da Fraternidade a silenciosa, porém gravíssima e desafiante, questão do tráfico de pessoas. O lema, que faz alusão à Carta de Paulo dirigida à comunidade dos Gálatas, chama a atenção para a vocação humana para a liberdade: "É para a liberdade que Cristo nos libertou". A relação entre o tema da Campanha e seu lema é eloquente: o tráfico de pessoas constitui umas das versões modernas de escravidão.

Apesar da seriedade da questão, o tráfico de pessoas é ainda tema pouco conhecido e debatido na sociedade brasileira. É verdade que, em 2013, a Rede Globo trouxe à tona, em novela, a situação de mulheres brasileiras no exterior, vítimas do tráfico de pessoas para fins de exploração sexual. Do mesmo modo, em 2006, o Governo Federal lançou Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, por meio do Decreto nº 5.948, de 26 de outubro, como ponto de partida para o enfrentamento dessa prática criminosa. Apesar disso, ainda prevalece na população certa ingenuidade a respeito não somente das raízes dessa chaga social, como também das formas de erradicá-la. Seguramente, uma das principais razões disso é a indiferença em torno do assunto.

Nessa matéria, superar a indiferença é importante, porém insuficiente. Tampouco bastam campanhas de informação. Nessa Quaresma, tempo de conversão, somos convidados a ir mais longe. É urgente meditarmos sobre o tráfico de pessoas como pecado social, que nos desumaniza a todos e crucifica milhões de pessoas, bem como refletirmos sobre as causas desse esquema criminoso, tendo sempre em vista uma ação pastoral que vise à sua erradicação.

Nessa reflexão, importa ter em conta, com base em perspectiva realista, que o tráfico de pessoas é a terceira atividade criminosa mais rentável do mundo, atrás apenas do tráfico de armas e drogas; faz cerca de 2,5 milhões de vítimas no mundo, movimentando, aproximadamente, 32 bilhões de dólares por ano, segundo dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC); compreende um crime organizado transnacional, vinculado a interesses poderosíssimos em três campos diversos:a exploração de mão-de-obra escrava, a exploração sexual comercial e a comercialização de órgãos humanos; as principais vítimas pertencem aos grupos mais vulneráveis: migrantes, mulheres, crianças e adolescentes, procedentes de regiões marcadas pela pobreza, instabilidade política e desigualdade econômica; os empresários do tráfico de pessoas compreendem aliciadores e agenciadores que integram uma rede complexa e articulada que envolve inúmeras pessoas e instituições; o Brasil, país de origem, trânsito e destino desta prática criminosa, é responsável por 15% das pessoas exportadas da América Latina para a Europa.

À luz da fé cristã, que prima pela dignidade da pessoa humana e assume projeto de vida libertador, não podemos ficar indiferentes aos motivos profundos desse crime. Cabe assinalar que o tráfico de pessoas revela uma crise antropológica de nosso tempo, caracterizado, nas palavras do Papa Francisco, pela negação da primazia do ser humano. Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, o Bispo de Roma afirma que se vive hoje o fetichismo do dinheiro sob a ditadura de uma economia sem orientação antropológica que reduz o ser humano ao consumo e que tende a devorar tudo para aumentar os benefícios de poucos (EG, 53-60). O caso do tráfico de pessoas é emblemático desse fetichismo, uma vez que corpos de milhões de pessoas são reduzidos à condição de meras mercadorias, objeto de lucro e prazer. O tráfico de pessoas e a ideologia da mercantilização andam, portanto, de mãos dadas.

Nessas condições, resultaria ingênuo acreditar que o enfrentamento policial e de inteligência seria suficiente para erradicar essa lucrativa e complexa atividade criminosa. Não basta repressão. É imprescindível também um trabalho consistente de prevenção das causas do tráfico de pessoas. Não se pode falar em combate ao tráfico de pessoas sem incluir o combate à desigualdade socioeconômica, sem questionar a cultura consumista responsável pela globalização da indiferença, sem nos atentar para a questão do prazer na sociedade contemporânea.

Tendo em vista o preconceito que as vítimas de tráfico de pessoas sofrem em razão de uma moralidade desumanizadora ainda em voga (daí se falar da dupla penalização da vítima desse crime que, em vez de encontrar compaixão na sociedade, é responsabilizada pela sua própria desgraça), caberia à Igreja assumir o papel de "hospital de campanha após a batalha", como desejada pelo Papa Francisco. Nesse sentido, a Igreja é desafiada a promover ações pastorais destinadas a acolher, com espírito misericordioso e terno, as vítimas do tráfico de pessoas.

Mais importante, a Igreja é mais do que nunca interpelada a refletir sobre uma teologia do prazer sexual humanizante que se contraponha à ideologia mundana do prazer sexual alienante. Parece cada vez mais evidente que o prazer tem sido tratado de maneira ambivalente em nossa cultura atual. Essa ambivalência, que confunde os aspectos humanizantes e alienantes do prazer, arrisco-me a dizer, se deve, entre outros motivos, a séculos de tradição religiosa de natureza maniqueísta, desencarnada, agnóstica, baseada em dualidade antropológica radical que opõe espírito e corpo. Não surpreende que, na sociedade atual, onde não se admite a incompreensível e infantil condenação do prazer sexual pela religião, a mercantilização do sexo, o signo da cultura capitalista, encontrou espaço propício para sua reprodução. Urge, portanto, resgatar a dimensão positiva da sexualidade, lamentavelmente ainda hoje colocada sob suspeita pela moralidade, bem como superar a resistência histórica da Igreja em discutir amplamente esse tema tão fundamental para a maturidade psicoafetiva, física e espiritual das pessoas.

A Campanha da Fraternidade de 2014 é oportunidade, portanto, de abordarmos com discernimento questões sérias que afetam dimensões fundamentais da sociedade contemporânea. É ocasião, por fim, para nos libertarmos da cultura perversa que se encontra por trás da ditadura de uma economia sem orientação antropológica.
 
*Esse artigo não reflete necessariamente a opinião do Ministério das Relações Exteriores.