terça-feira, 30 de setembro de 2014

Experiência


Como a erva do campo

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Minhas amigas e meus amigos tomaram conhecimento do problema de saúde que se abateu sobre mim, pegando-me de surpresa e obrigando a submeter-me a um longo tratamento que durará, no mínimo, uns seis meses. Tive a graça de acolher a surpresa com naturalidade, sem revoltas, sem desespero e sem ânsia. Os vinte e oito dias passados inicialmente na Ala de Hematologia do Hospital de Base do Distrito Federal me ofereceram a oportunidade única de refletir sobre a vida humana. Dessa reflexão nasceu o presente artigo que pretende ser apenas a introdução a um texto que, com minha esposa Ana Márcia, pretendo publicar depois que tudo passar. O texto já tem até título: Como a erva do campo. Reflexões sobre a fragilidade e a brevidade da vida humana.

            De um modo geral todas as culturas religiosas afirmam que é vontade dos deuses que os seres humanos tenha vida plena e vida longa. Ter uma vida pela metade e uma vida curta não faz parte do projeto inicial das divindades criadoras. No caso da tradição judaica e da tradição cristã isso é muito explícito. Já nas primeiras páginas do Gênesis encontramos o “jardim em Éden, no Oriente”, onde Deus coloca as pessoas humanas que ele acabara de “modelar” (Gn 2,8). Este jardim, com um rio dividido em quatro braços, rico de árvores formosas de todas as espécies, com frutas “boas de comer” (Gn 2,9), é símbolo da abundância e, portanto, da vida plena querida por Deus para os seres por ele criados. Tal narrativa, na verdade, representa uma síntese de toda a tradição judaica, que a partir de experiências dolorosas, simbolizadas pelo êxodo do Egito e pela travessia do deserto, aprendeu que é desejo de Javé que as pessoas humanas tenham acesso a uma vida plena e intensa. Mais tarde, já no cristianismo, as comunidades cristãs vão lembrar o dito de Jesus que afirmou: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

            Mas para a tradição judaica e para a tradição cristã vida plena significa vida longa. Não se pode falar de vida em abundância quando as pessoas são condenadas a morrer jovens, por qualquer motivo, sem atingir uma boa longevidade. Desta forma, a vida longa, que ultrapassa os cem anos, vai sendo considerada uma bênção divina para o ser humano. Isso era tão claro que a Bíblia judaica, citada aqui na versão Pastoral (Paulus), ao falar do novo céu e da nova terra que Javé irá criar, chega a afirmar: “Aí não haverá mais crianças que vivam alguns dias apenas, nem velhos que não cheguem a completar seus dias, pois será considerado ainda jovem quem morrer com cem anos, e quem não chegar aos cem anos será tido por amaldiçoado” (Is 65,20). Num ambiente onde a média de vida era baixíssima e a mortalidade infantil altíssima estas palavras do profeta devem ter ressoado com grande impacto e gerado muita esperança.

            Porém, a tradição judaica e a tradição cristã são realistas. Sabem que vida plena e vida longa não significam possuir a imortalidade dos deuses. O ser humano faz parte da criação e, enquanto criatura, ele é finito, limitado, frágil e mortal. Como os demais seres vivos, os humanos nascem, crescem, passam pela terra e depois morrem. A ideia, muito cultivada no passado, de que se não tivesse existido aquilo que costumamos chamar de “pecado original”, os humanos seriam imortais, ou seja, não morreriam, não tem hoje o menor fundamento e a menor consistência. A morte da qual fala o Gênesis (2,17) não se refere à morte física, mas à incapacidade de, nas decisões e nos projetos existenciais, escolhermos a vida e a felicidade (Dt 30,15-20). Isso é fácil de perceber inclusive nos dias atuais: temos dificuldade de aderir a projetos de vida e, quase sempre, apoiamos ou cedemos a projetos de morte, como aqueles que, no momento, destroem o ambiente em que vivemos.

Portanto, mesmo sendo vontade do Criador que os humanos tenham vida plena e vida longa, a fragilidade e a brevidade marcam profundamente a existência humana. “Os dias do homem são como a relva, ele floresce como a flor do campo. Roça-lhe um vento, e já não existe, e ninguém mais reconhece o seu lugar” (Sl 103,15-16). E, muitas vezes, tal fragilidade e tal brevidade se tornam ainda mais dramáticas porque os seres humanos se recusam a caminhar pela lógica divina. Isso torna a vida penosa, difícil e hostil e o próprio ambiente passa a ser agressivo e desumano (Gn 3,17-19). Basta olharmos, hoje, à nossa volta para constatarmos essa realidade. Por isso mesmo a condição para uma vida plena e longa é aceitarmos a nossa condição de simples criaturas e aprendermos a conviver com tal condição, sem revoltas e sem resignações: “os dias que me destes são um palmo apenas” (Sl 39,6).

            Convém, porém, salientar que, segundo a tradição judaica e a tradição cristã, há uma maneira simples e fecunda de resgatar a plenitude da vida, suavizando e até eliminando os impactos duros e violentos da fragilidade e da brevidade da existência humana. E esta forma simples não toca à divindade, mas aos humanos. Cabe a nós realizar essa importante tarefa. Trata-se da solidariedade e do amor. Ao sermos solidários com os que sofrem e ao manifestarmos em profundidade o nosso amor, especialmente pelos mais sofridos, nós contribuímos concretamente para que o projeto original de Deus volte a acontecer no mundo. Tanto a Bíblia judaica como a Bíblia cristã estão permeadas desse convite permanente à solidariedade e ao amor. O povo hebreu foi sempre chamado a “abrir a mão” para o irmão pobre, para os indigentes, oferecendo-lhes o que eles necessitam, sem “pensamento mesquinho”, sem má vontade, sem avareza. A “mão fechada”, ou seja, a falta de solidariedade é considerada pela Bíblia hebraica um pecado grave que Javé repudia (Dt 15,7-11). Jesus segue essa tradição judaica e, diversas vezes, exorta as pessoas a serem solidárias. Ao contar a parábola do “bom samaritano” ele convida o seu interlocutor a “fazer a mesma coisa” (Lc 10,37).

            Creio que a maior graça que me foi dada nestes dias que passei no hospital foi sentir de perto a solidariedade das pessoas. Além do carinho, da ternura, do amor e do cuidado de minha amada esposa Ana Márcia, as amigas e os amigos do Distrito Federal logo se mobilizaram para nos apoiar de todas as formas possíveis. Pelo Brasil e até no exterior pessoas me davam forças através de uma palavra de ânimo e através da oração. Recebemos dezenas de telefonemas. Outros se perderam, pois não dávamos conta de responder a todos.  Como precisei de transfusão de sangue e de plaquetas, estes amigos organizaram uma rede de doadores e mais de quarenta pessoas foram até o Hemocentro de Brasília para doar sangue. Assim, não somente eu, mas outras pessoas que estavam na mesma situação puderam se beneficiar disso.

            Antes eu disse que é preciso aceitar a condição humana da fragilidade e da brevidade sem revoltas, mas isso não pode significar resignação. Desta forma, uma das maneiras de rezarmos nestas horas é protestando, reclamando de Deus que “permitiu” tal situação. Lamentavelmente uma certa religiosidade alienante das Igrejas eliminou esta forma de rezar, classificando-a de blasfêmia e obrigando as pessoas a aceitarem tudo como sendo vontade de Deus. Mas tanto na Bíblia judaica como na Bíblia cristã protestar contra Deus, reclamando do que acontece é uma das formas clássicas de oração. Os salmistas foram especialistas na oração de protesto. Eles reclamam porque Deus fica mudo e imóvel diante do mal (Sl 83,2). Conhecemos as palavras do Salmo 22 que, segundo os evangelistas, foram recitadas por Jesus no momento de sua morte na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? Apesar dos meus gritos, minha prece não te alcança! De dia eu grito, meu Deus e não me respondes. Grito de noite, e não fazes caso de mim!” (Sl 22,2-3).

Mas o principal ícone deste protesto contra Deus é Jó que, diferentemente do que se pensa, não pode e nem deve ser tido como símbolo de paciência, mas, pelo contrário, de protesto contra um Deus que faz sofrer o inocente. Diante dos amigos que insistem em lhe dizer, segundo a mentalidade da época, que o seu sofrimento era a “retribuição” por crimes ou pecados cometidos por ele, Jó protesta e não aceita resignadamente o sofrimento. Reclama de Deus que lhe “nega justiça” e lhe “enche de amargura” e declara que não aceita a acusação de estar pagando pelo que fez, pois isso seria o mesmo que dizer falsidade e pronunciar mentiras, ou seja, violar os mandamentos da Torá (Jó 27,1-4). E conclui: “Longe de mim dar razões a vocês! Vou me declarar inocente até o meu último suspiro. Vou me agarrar à minha justiça, e não vou ceder. Minha consciência não reprova nenhum dos meus dias” (Jó 27,5-6)

            Também eu tive que protestar, pois foi no campo religioso que tivemos a experiência mais negativa durante a minha estadia no Hospital de Base do Distrito Federal. De vez em quando, especialmente nos finais de semana, com a conivência de certos funcionários do Hospital, a enfermaria onde eu me encontrava era invadida por evangélicos e alguns católicos que caiam sobre nós como verdadeiros urubus em cima de uma carniça. Sem o menor respeito pelo ambiente público, pela diversidade, sem pedir a devida licença, chegavam fazendo suas pregações histéricas e moralistas à base de gritos, alaridos, ameaças, deixando entender para nós doentes que a nossa enfermidade era castigo e que só restava uma alternativa: “se converter a Jesus”.

            Certo dia apareceu uma mulher que se identificou como sendo da Pastoral da Saúde da Paróquia São Camilo de Lélis. Não se diferenciava dos evangélicos na histeria e na pregação moralista. Notei que não havia nenhum preparo para ser agente da Pastoral da Saúde e conclui que as paróquias e seus párocos precisam preparar melhor essa gente. Fiquei pensando no paradoxo: enquanto ali na enfermaria tinham pessoas precisando de solidariedade, de calor humano, de carinho, de ternura e até de coisas básicas como uma roupa, um lençol e um remédio, aquela mulher da Pastoral da Saúde fazia para nós apenas um discurso histérico, moralista e vazio. Imaginei São Camilo de Lélis decepcionado com aquela cena, ele que não saiu pelos hospitais fazendo pregações moralistas, mas pelas ruas recolhendo, tratando e, sobretudo, amando os pobres doentes. Penso que se ele estivesse naquela enfermaria teria, como Jesus no templo, enxotado a chibatadas aquela mulher que de Pastoral da Saúde nada entendia.

            “Mesmo no mais escuro da noite temos o direito de esperar alguma iluminação” (Hannah Arendt). Note-se bem o que diz Arendt: “temos o direito de esperar”. A minha estadia no hospital convenceu-me de que precisamos cuidar mais de nossos doentes, particularmente dos mais pobres, cujo sofrimento é duplicado pela condição social em que se encontram. E as Igrejas, aos invés de pregações histéricas, idiotas e vazias, precisam ser solidárias com tais pessoas. Como bem nos ensina a parábola de Lucas, o samaritano que encontrou o homem “meio morto” (Lc 10,30), na estrada que desce de Jerusalém para Jericó, não lhe fez discursos vazios e moralistas, para depois seguir adiante “pelo outro lado” (Lc 10, 31). Ele aproximou-se do ferido, fez curativos e o levou para um lugar onde ele poderia se recuperar totalmente, pagando todas as despesas. Ou seja, foi solidário. Precisamos apenas fazer isso, pois o resto é hipocrisia, religião fingida e idolátrica, histérica e desumana.

domingo, 21 de setembro de 2014

Eleições


Desfazendo “mitos” eleitoreiros

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor

            Mais uma vez nos encontramos em período eleitoral. E nesta época sempre aparecem os “mitos”, uma vez que os brasileiros costumam discutir política não com a razão, mas com a emoção, com a mesma paixão que discutem futebol nos botequins das esquinas. Neste período, assim como acontece na discussão sobre futebol, aparecem 200 milhões de “cientistas políticos”, cada um pretendendo arrogantemente entender de política mais do que os outros.

            Não se trata de não colocar paixão na reflexão de um tema que permeia toda a vida da nação e afeta cada um de nós brasileiros. Como já dizia o poeta e dramaturgo alemão, Bertold Brecht, tudo em nossa vida depende da política: a comida, o transporte, a educação, a saúde, a roupa, o calçado etc. etc. Que bom seria que em todos os espaços, em todos os lugares, em todos os ambientes se discutisse com muita seriedade o tema da política. Mas a questão está exatamente na forma como discutimos. De um modo geral fazemos isso sem consciência crítica, sem discernimento e sem nem mesmo saber do que estamos falando. Vamos muito pelo que diz a grande mídia, envolvida e totalmente comprometida com a elite e a burguesia brasileira, as quais querem manter seus privilégios às custas do sacrifício da maioria da população brasileira. Para defender os interesses dos poderosos, a grande mídia, geralmente controlada por eles, inventa e divulga alguns “mitos” que terminam confundindo a cabeça do eleitor desavisado, levando a acreditar e a votar exatamente em quem ele nunca deveria crer e votar. Vejamos agora alguns dos “mitos” inventados pela nossa mídia.

            O primeiro deles é passar a impressão de que um candidato “ficha limpa” é um anjo, alguém sem nenhum defeito, sem nenhuma mácula. Ora, isso, além de ser falso, é irreal. Há milênios as grande culturas e as grandes experiências religiosas detectaram que “todo homem é mentiroso, todo homem”. Não há, pois, candidatos genuinamente puros, totalmente revestidos de uma lisura ímpar. Quem ainda acredita nisso é um iludido, é um idiota que não se dá conta da realidade concreta do ser humano. Como já diziam os grandes filósofos gregos, em cada um de nós habita pelo menos um anjo e um demônio. Pensar que há alguém desprovido de seu lado demoníaco é pura idiotice. O que resta fazer, então? É procurar pessoas, candidatos equilibrados, ou seja, pessoas nas quais o lado demoníaco não prevaleça. E como isso dá trabalho e as pessoas se recusam a fazer como Zaratustra, o personagem de Nietsche, saindo pelas ruas com uma tocha acesa, em pleno dia claro, à procura desses candidatos equilibrados, terminam por aderir e votar nos que aparentam ser totalmente anjos. Aliás, uma das artimanhas dos demônios é exatamente criar a ilusão de que eles são anjos puríssimos. E com o marketing em alta, isso é possível ser feito sem maiores problemas.

            Um segundo “mito”, também criado intencionalmente pela mídia “golpista”, é pensar e acreditar que “todo político é igual”, que “todos os partidos políticos são iguais”. E isso não só é falso como é profundamente enganador. No Brasil existem partidos políticos cujos programas estão totalmente voltados para os interesses das elites brasileiras. O passado destes partidos, as figuras que os compõem hoje, representam o que há de mais nojento na política brasileira. Pode-se dizer, sem medo de errar, que esses partidos hoje são bem representados pelo PSDB, pelo DEM e pelos partidos nanicos que gravitam em torno deles e a eles são subservientes. Todo eleitor crítico, consciente, ciente não vota nestes partidos. Mas há ainda bons partidos e bons políticos, cujos programas são sérios e bem significativos para o país. Mas devido ao assédio da mídia corrupta estes partidos e essas pessoas terminam permanecendo na penumbra ou sendo totalmente ignorados.

            Outro “mito” que afeta a política brasileira é pensar que a solução de todos os problemas do país passa pela eleição do poder executivo. Assim, se elegermos o presidente da República, o governador do Estado e o prefeito do município, todas as questões serão resolvidas num toque de mágica. Esse mito está tão impregnado em nossa cultura política que, neste período eleitoral, se fazem somente debates públicos com os candidatos ao executivo. Deixamos de lado e não nos importamos com a eleição dos membros do poder legislativo. Estes, porém, são aqueles que fazem as leis e porque não há debate sério sobre eles, as pessoas terminam votando em elementos não comprometidos com o bem público. Basta dar uma olhada na atual bancada da Câmara e do Senado para perceber que a maioria dos que lá estão não poderia e nem deveria ter sido eleita.

            Recentemente as elites, com o apoio da mídia a elas subservientes, criaram outro “mito”: o de que o Partido dos Trabalhadores (PT) é o único partido corrupto do Brasil. Tiveram a ajuda de um Judiciário parcial, que usando métodos questionados por eminentes juristas, tudo fizeram para massacrar algumas figuras do PT. Não se defende aqui a inocência dos membros do PT que foram acusados e condenados. O que se questiona é o fato de que a mídia e o Judiciário não tenham usado da mesma severidade com outros partidos e outros políticos. Por que, por exemplo, não puniram com o mesmo rigor o PSDB, envolvido até o pescoço na lama da privataria tucana e no escândalo do metrô de São Paulo, cujas empresas ligadas ao dito escândalo continuam descaradamente patrocinando as campanhas dos candidatos suspeitos? Por que os políticos da “Caixa de Pandora” do Distrito Federal, pegos repartindo polpudas propinas, continuam impunes até agora? Alguns deles inclusive concorrendo, no momento, a cargos políticos ou obrigados a renunciar por serem “fichas sujas”, mais porcos do que “pau de galinheiro”. Percebe-se, então, que tudo não passou de uma armadilha, com o objetivo explícito de desviar a atenção dos verdadeiros corruptos. O próprio Ministério Público, por exemplo, não quis “cortar na própria carne”. Deixou impune até agora um dos seus membros, o ex-senador Demóstenes Torres, moleque de recado do bandido Carlinhos Cachoeira no Senado. Não se pode acreditar na seriedade de um poder judiciário que prende “ladrões de galinha” e deixa solto este tipo bandido de alta periculosidade para o povo, para a nação e para o país. Este tipo de judiciário já perdeu por completo a sua credibilidade juntos às pessoas sérias, dotadas de cérebro pensante e que raciocinam com espírito crítico.

            Por fim um outro mito: a do messianismo político, ou seja, da figura do salvador da pátria. De repente, no cenário político, surge alguém com ideias mirabolantes, com a história de única alternativa possível, teatralizando, como sendo a salvação da pátria. E boa parte dos brasileiros fica encantada com o discurso bonito, com o espetáculo teatral bem montado, e se deixa enganar. Não percebe que se trata de alguém que não traz nenhuma novidade concreta. Pegou carona com outros partidos, aproveitou-se do espaço que lhe foi dado, comportou-se de maneira desleal com os seus aliados de outrora, e, de repente, se apresenta como a grande alternativa. Mas basta prestar atenção para se ver que, na prática, não há nada de novo. Mesmo porque os grandes problemas da nação não se resolvem nos palanques e com palavrórios bonitos dos programas políticos.

            Portanto, se queremos votar bem temos que desfazer todos esses “mitos”, refletir com seriedade, usando a razão e não apenas a emoção. Há candidatos sérios, comprometidos com o bem comum. Temos que nos dar ao trabalho de procurá-los e de encontrá-los. Temos que recusar veementemente os “clichês” fabricados pela grande mídia. Temos que nos reunir para conversar, deixando de lado paixões desenfreadas, guiando-nos pela lógica, pela objetividade e pela racionalidade. Do contrário seremos apenas marionetes e terminaremos por votar em quem nunca deveríamos votar. Mas para fazer tudo isso temos que agir com humildade, escutando os outros, aprendendo com os outros e com a história e até abrindo mão de visões deturpadas, parciais, que até então carregávamos conosco. Convém jamais esquecer de que, na prática, a teoria é outra, especialmente na política. Quem chega com ideias mirabolantes, com chavões ultrapassados, fazendo teatro para chamar a atenção sobre si, prometendo resolver tudo num toque de mágica, é um mentiroso, um falso político, um hipócrita. Este sujeito não merece a confiança do eleitor sério e honesto.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Análise de conjuntura eclesial


Os impostores no Ministério da Ordem

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor

            O meu amigo, Pe. José Antônio, do clero da arquidiocese de Mariana (MG), com quem tive a grata satisfação de trabalhar no Setor Vocações e Ministérios da CNBB (1999-2003), em recente artigo divulgado na internet, levantava a pergunta acerca do principal medo do papa Francisco. A pergunta poderia ser muito bem invertida para evidenciar quais são as pessoa que, na Igreja Católica, mais temem as audaciosas propostas de renovação apresentadas pelo papa Francisco, e que, a meu ver, estão condensadas na sua exortação Evangelli Gaudium. Quem, na Igreja Romana, teria medo de propostas como esta: “Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades” (EG, 33)?

            Com certeza estariam em primeiro lugar os grupos católicos ultraconservadores, bem representados pela Fraternidade São Pio V, fundada pelo bispo cismático Lefebvre. Porém, os conservadores católicos não causam tanto medo ao papa e nem o papa lhes provoca medo. Reagir a toda mudança na Igreja está no DNA desses grupos, os quais acreditam piamente que o único modelo histórico de Igreja é aquele construído a partir do Concílio de Trento, ou, pior ainda, a partir do espírito da Contrarreforma.

            Quem, então, causaria medo ao papa Francisco, ou, melhor dizendo, quem tem medo das propostas do papa Francisco? Pe. José Antônio, sem rodeios, afira que é o “clero camaleônico”, ou seja, aqueles padres que vendo o ministério ordenado como status, como profissão bastante rentável, como pedestal para a fama e o sucesso, temem um papa que insiste em dizer que o ministério ordenado é serviço e que os padres precisam “sentir o cheiro das ovelhas”.

            Prosseguindo em sua reflexão, o Pe. José Antônio alerta para um particular assustador: a quase totalidade desse “clero camaleônico” é formada por padres jovens e por seminaristas, futuros padres, que já se comportam como se fossem ministros ordenados. É assustador porque era de se esperar que padres jovens e seminaristas, formados depois do Concílio Vaticano II, fossem capazes de acolher com entusiasmo e paixão a proposta de renovação da Igreja apresentada pelo papa Francisco. Mas não é isso que estamos vendo. Boa parte deste clero permanece indiferente ao que o papa Francisco vem dizendo. Sinal claro dessa indiferença é a falta de divulgação, de conhecimento, de estudo e de aplicação pastoral da exortação Evangelli Gaudium. Pude constatar isso pessoalmente em recente assessoria a um grupo numeroso de pessoas, na sua quase totalidade formada por leigos, sobre a exortação papal. A queixa geral era de que os padres não falam da Evangelli Gaudium. Constatou-se inclusive o caso de padres que nem sequer sabiam da existência da exortação. Há poucos dias uma senhora de uma paróquia do interior da Bahia perguntava ao jovem pároco de sua cidade porque na sacristia da igreja paroquial ainda não tinha sido colocada a fotografia do papa Francisco. Queria saber porque tudo tinha parado na foto do papa Bento XVI. O pároco respondeu-lhe que a razão era o fato de que os vidraceiros da cidade estavam sem moldura. Conversa essa que não colou, pois a senhora, do alto da sua experiência de idosa, percebeu que o pároco estava mentindo.

            Mas há também aquele grupo de padres e de seminaristas que faz de conta que acolhe as propostas do papa Francisco. Age, porém, como camaleão, por mero oportunismo e para continuar levando vantagem em tudo, visando não perder as benesses oferecidas pelo acesso ao ministério ordenado. Este grupo de clericais externamente faz de conta que aderiu ao papa Francisco, mas, na prática, sempre que pode, oculta, desvirtua e desvia os ensinamentos papais, não permitindo que o povo tome conhecimento daquilo que o papa Francisco está propondo com certa insistência.

            Diante do que acabamos de expor vem de imediato a pergunta: o que leva padres e seminaristas a agir desta forma? Por que temem o papa Francisco? Por que agem com indiferença ou fazendo de conta que acolhem a palavra do bispo de Roma?

            Inúmeros estudos publicados nos últimos anos explicam de modo suficiente este problema. São estudos com dados incontestáveis, baseados em pesquisas sérias. A própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Organização dos Seminários e Institutos do Brasil (OSIB) e a Comissão Nacional de Presbíteros (CNP) patrocinaram alguns desses estudos,

            Duas causas estariam por trás desse comportamento. A primeira delas é a visão de vocação presbiteral como sendo a vocação por excelência. Ser padre é “dez”, é estar acima de qualquer coisa. Chegar a ser padre é colocar-se acima de tudo e de todos os mortais. A segunda causa seria o desejo das dioceses de suprir a falta de padres, levando-as a admitir nos seminários e no presbitério verdadeiros impostores que olham para o ministério ordenado como a forma mais fácil de adquirir poder, status, fama e dinheiro. A tais pessoas não lhes importa o serviço ao povo, mas as vantagens que vão ter com o acesso ao ministério ordenado.

            A filósofa, socióloga e teóloga Arlene Denise BACARJI realizou recentemente um estudo sobre essa questão, baseando-se em dados de pesquisas feitas em diversas partes do mundo por eminentes pesquisadores. O próprio título do seu estudo é, por si mesmo, bem sugestivo: A impostura no Ministério da Ordem. Transtornos de personalidade e perversão no Clero à luz da psicanálise e da psiquiatria. O estudo acaba de ser publicado pessoalmente pela autora. É lamentável que ela não tenha encontrado uma editora católica capaz de assumir a publicação, obrigando-a a fazer uma edição privada. Essa recusa não deixa de trazer um grande prejuízo para a própria Igreja Católica.

            Em seu estudo, depois de analisar a origem do problema da impostura no Ministério da Ordem, a autora se detém cuidadosamente na reflexão sobre os transtornos e as perversões dentro dos quadros da Igreja, particularmente entre o clero. Fala dos desvios institucionais, de personalidade antissocial, narcisista patológica e sobre as perversões propriamente ditas. No final aponta algumas possibilidades de saída do impasse.

            Arlene Bacarji mostra como a natureza hierárquica, uma falsa compreensão da misericórdia, a segurança que o ministério ordenado proporciona e o celibato visto como um modo de não se relacionar em profundidade com ninguém atraem com muita facilidade pessoas com transtorno de personalidade e muita gente perversa. A pessoa com essas patologias “sempre consegue um bispo desavisado, misericordioso, confiante em sua remissão, que o acolherá” (p. 36). Bacarji lembra que o sistema eclesiástico favorece tais pessoas, uma vez que “elas aprendem rapidamente como subir em postos de poder, como fazer para serem elevados a bispos, cardeais” (p. 43).

            A autora apresenta o perfil do impostor no Ministério da Ordem: “O poder, o brilho, o sucesso, só dependem de sua eloquência no altar, de sua capacidade de sedução e poder de atração, e de sua capacidade retórica, persuasão, de introjetar os sentimentos e emoções na sua fala de modo que impressione o público, para que seja admirado, endeusado e adorado. O Altar se torna um palco. Pois a oficialização desse poder já está dada. A impostura no Ministério da Ordem por estas personalidades todas que tratamos neste livro se caracteriza pela grandessíssima capacidade da pessoa de fazer ‘teatro’. Elas representam muito bem” (p. 43). E representam tão bem que são capazes de camuflar a aversão ao papa Francisco e ao que ele propõe, bastando para tanto apenas um “discurso bonito” (p. 44), ou seja, aquele discurso lacunar, através do qual a pessoa fala um monte de baboseira que seduz os desprovidos de senso crítico, mas que não diz absolutamente nada.

            O que fazer? Existem saídas? É claro que sim. O problema é saber se os bispos estão dispostos a coloca-las em prática. Eu aponto pelo menos três. A primeira delas é desmistificar a figura do padre, retirando dele toda auréola sacral que o envolve. Apresentá-lo como um homem comum, normal, igual aos outros, chamado por Deus a ser diákonos, ou seja, mero servidor dos demais. Homem sinal sacramental de Cristo servo de todos, que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,35-45). Nessa perspectiva o acento deve ser colocado sobre a vocação comum batismal, como nos lembrou o Vaticano II na Lumen Gentium. O importante não é ser padre, mas discípulo, seguidor de Jesus, missionário, como enfatiza diversas vezes o Documento de Aparecida.

            Uma segunda saída seria a revisão do atual modelo de ministério ordenado, focado excessivamente no padre celibatário que passa entre oito e nove anos no seminário e que sai de lá bastante treinado para ser “aparentemente normal”, mas que, na prática, é uma pessoa cindida, tendendo para a mentira crônica (Bacarji, p. 45-64). Não há como resolver o problema da impostura no ministério ordenado enquanto não se fizer uma reforma séria no ministério ordenado, incluindo nele novas formas de ministérios que descentralizem o poder e quebrem o monopólio e o autoritarismo dos padres.

            A terceira proposta de saída é a mudança de comportamento com relação a essas pessoas. Bacarji lembra “que Cristo e o Evangelho não são tolerantes com a hipocrisia e com a falsidade” (p. 45). Por isso, ela afirma que “a misericórdia com estas pessoas deve ser pensada em outros moldes que não a habitual. Talvez seja mais misericordioso impedi-las de terem oportunidade de vivenciar suas perversões e patologias anti-sociais ou narcisistas, fazendo mal às pessoas da Igreja, à própria Igreja, a Deus e a si” (p. 67). Isso significa que a formação inicial dos candidatos aos ministérios ordenados precisa ser mais séria, capaz de identificar possíveis impostores e impedindo-os de chegar à ordenação. Mas para isso é preciso que à frente dos seminários estejam pessoas equilibradas e não seres transtornados e perversos.

            Por fim, é preciso dizer que a maioria dos padres é formada por homens honestos, sérios, simples e inteiramente doados ao povo. E isso é uma grande consolação. Mas, na maioria das vezes, esses padres não são valorizados, não são apresentados pela mídia católica, sendo sobrepujados pelos impostores, geralmente midiáticos e “carismáticos” que se apresentam ao povo como os únicos modelos de presbíteros. Com isso o estrago está feito, pois o povo, iludido por “lobos vestidos com peles de ovelhas” (Mt 7,15), acaba deixando-se seduzir. “As batinas, hábitos, clergyman, para estas pessoas, representam poder e também especialidade em relação aos outros mortais, por isso muitos deles fazem questão dessas coisas já desde o seminário” (BACARJI, p. 62). Precisamos, pois, estar muito atentos, pois a impostura no ministério ordenado “costuma confundir muitos superiores e a todos nós” (Ibid., p. 70).


O livro de Arlene Bacarji pode ser solicitado pelo e-mail arlened@uol.com.br

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Conjuntura mundial


Quando as religiões matam

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Segundo dados da ONU, em 2013 existiam no mundo oitenta (80) conflitos ou guerras. Destes, setenta e dois (72), ou seja, noventa por cento (90%) tinham motivações religiosas. Ficava, assim, evidente que em pleno século XXI as religiões continuam matando. Aquilo que deveria religar as pessoas entre elas, e estas com a divindade, continua sendo a raiz de divisões, de ódio, de violência e de massacre.

            Isso é profundamente lamentável e triste. Depois de tantos milênios, de experiências dramáticas, mas também de avanços no conhecimento, de contribuições significativas das diferentes ciências, as religiões não conseguem avançar e dar uma contribuição efetiva para a paz mundial. Elas continuam paralisadas, inertes, impotentes, ou, pior, incentivando a violência e o ódio entre as pessoas e os povos.

            O que leva a isso? Por que as religiões não só não conseguem contribuir para a paz, mas chegam a estar na raiz da quase totalidade dos conflitos mundiais? Acredito que, antes de tudo, a razão disso está na incapacidade das religiões de avançarem na hermenêutica de sua história e de seus textos sagrados. Não só as pessoas simples que compõem as religiões, mas, acima de tudo, suas lideranças continuam lendo a própria história e as suas escrituras sagradas de uma forma totalmente fundamentalista. Fazem uma leitura literal dessas realidades, como se o divino, de forma mágica, tivesse determinado diretamente e oralmente o decorrer de sua história e cada palavra dos textos sagrados.

            Além disso, as próprias lideranças não têm nenhum interesse em educar as pessoas para uma correta compreensão da história da própria religião e das escrituras sagradas. Tais lideranças, na sua maioria absoluta, sabem que a história de uma religiosidade e os textos sagrados não podem ser lidos ao pé da letra. Sabem que na construção de uma história sagrada e na elaboração de um texto religioso entraram muitos fatores ideológicos, sociológicos, políticos e psicológicos. Pense-se, por exemplo, na constituição do povo de Israel a partir da história do Êxodo. Qualquer pessoa que tenha estudado, mesmo que minimamente, essa questão sabe que a formação do povo hebreu não se deu exatamente como está narrado na redação final do Primeiro Testamento. Moisés não foi um mágico que foi tocando o povo com uma varinha de condão, rachando o mar Vermelho em duas partes, furando uma rocha para sair água, fazendo codornizes pousarem suavemente na frente dos hebreus. A coisa foi muito mais complexa e muito mais humana do que divina.

Quem estudou um pouquinho da história da constituição do povo de Israel sabe que a redação final dos textos bíblicos, que falam do assunto, sofreu profunda modificação no período da monarquia, com o objetivo de justificar as mazelas praticadas pelos reis e pelo sistema dominante imposto por eles.  Assim sendo, a Bíblia judaico-cristã não pode ser lida de forma fundamentalista, mas somente com a colaboração de uma profunda e sadia hermenêutica que nos ajude a destrinchar o que se encontra por trás da constituição desses textos. Porém, as lideranças religiosas se recusam a ajudar o povo a tomar conhecimento disso, uma vez que uma interpretação mágica dos textos sagrados serve à manutenção dos status quo e para a manipulação do próprio povo. E o que foi dito aqui sobre o caso da história do povo hebreu e da religião hebraica, nas devidas proporções, vale para todas as outras. Todas as religiões, sem exceção alguma, devem ser responsabilizadas pelo sangue inocente que hoje escorre no mundo, quando se recusam a rever o modo de interpretar a própria história e as próprias escrituras sagradas.

Neste instante veio em minha mente as chocantes imagens dos corpos dilacerados, ensangüentados, carbonizados dos palestinos vítimas da truculência dos dirigentes do Estado de Israel, de modo particular os corpos de crianças, as quais nada têm a ver com o que está acontecendo. O modo de agir do estado israelense pode ser comparado aos horrores praticados contra os hebreus em vários períodos da história, especialmente pelo nazismo. Os atuais dirigentes de Israel parecem esquecer a própria história. Qualquer mente sã e humana não pode ficar indiferente diante da forma brutal com a qual este país age em relação ao povo palestino. A necessária convivência pacífica entre os povos daquela região não pode ser construída com a prática da violência brutal e desumana.

Diante do que está acontecendo no Oriente Médio e em tantas outras partes do mundo, as religiões devem ser não só interpeladas, mas profundamente questionadas e até responsabilizadas. É nosso dever dizer para todas as religiões, sem exceção, que elas precisam urgentemente educar os povos para a paz. E educar não quer dizer apenas fazer apelos genéricos, como fez recentemente o papa Francisco. Os apelos genéricos são bonitos, mas, se ficam apenas nisso, não servem para nada. As religiões, de modo particular seus dirigentes, precisam mudar suas práticas. Aquelas práticas que estimulam o ódio, a divisão, a competição e até mesmo a guerra santa. Todas as religiões precisam recuperar seus princípios éticos originais, nos quais é possível encontrar os fundamentos para a paz e a convivência pacífica entre as pessoas e os povos.

Hoje todas as pessoas aspiram à paz, mesmo que, às vezes, sejam a favor e até promovam a guerra. A paz não é só ausência de guerra, mas a presença de todos os bens indispensáveis a uma vida digna e humana e a eliminação de toda forma de preconceito e de discriminação. Diante disso, a tarefa da religião é revisitar as próprias tradições e as suas afirmações básicas para descobrir aí um grande potencial em favor da paz, de modo que isso sirva de referencial para esse anseio da humanidade.

Tarefa da religião, aqui neste caso, é voltar-se para o seu próprio patrimônio, ajudando a encontrar nele elementos que ajudem a romper com todas as formas de guerra e incentivem seus adeptos a participar ativamente dos processos de construção da paz. Existe um consenso inter-religioso acerca da potencialidade positiva e qualitativa de todas as religiões para a paz. Por isso, como já afirmara Hans Küng, não haverá paz no mundo sem paz religiosa. Para que haja paz, todas as religiões precisarão retornar de forma crítica às suas tradições não só para descobrir suas potencialidades em favor da paz, mas também para rever com humildade e transparência os momentos em que estiveram apoiando e sustentando destruições e violências.

De fato, como afirmou a Cúpula do Milênio que, em 2004, reuniu líderes representantes das grandes religiões na sede das Nações Unidas, as religiões têm contribuído para a paz no mundo, mas também têm sido usadas para criar divisões e alimentar hostilidades. Por essa razão, acreditam os líderes religiosos reunidos na Cúpula Mundial, as religiões precisam ter uma atitude de reverência à vida, à liberdade, e à justiça. E, através de um entendimento mútuo, do diálogo, procurarem se unir para erradicar as situações de miséria, pobreza e exclusão e, no compromisso com um desenvolvimento sustentável, garantir um mundo saudável para as gerações presentes e futuras.

E nós, com nossa reflexão crítica, podemos ajudar as religiões a descobrir as reais possibilidades de estabelecer um processo comum onde a experiência religiosa, a vivência da fé, a espiritualidade entendida como cultivo da relação com o divino, se tornam forças vivas para a construção da paz. Se silenciarmos, se não questionarmos as religiões, se não insistirmos para que mudem de postura, nos tornaremos cúmplices de todo sangue inocente que escorre no mundo, como é o caso do que no momento está sendo derramado no chão da Palestina. Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais. Nosso planeta não irá sobreviver se não houver um ethos global, uma ética para o mundo inteiro” (Hans KÜNG).

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Momento atual


Por que a Copa está acontecendo?

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Há um ano o Brasil foi tomado por uma invasão de manifestações. Pelo ritmo da coisa, parecia que iam acontecer grandes transformações no país. Entre essas transformações, o que parecia mais evidente era que não aconteceria o Campeonato Mundial de Futebol em nosso país. O refrão “não vai ter Copa” passou a ser repetido durante vários meses. Porém, na medida em que se aproximava a realização da Copa, o refrão foi diminuindo. Aos poucos o verde-amarelo foi tomando conta das ruas e o refrão passou a ser considerado “coisa do passado”, praticamente ignorado pela quase totalidade da população brasileira.

            A Copa veio, teve início, está acontecendo a todo vapor, os estádios estão lotados, as ruas enfeitadas, os gringos satisfeitos com a acolhida dos brasileiros. E o que há um ano parecia profecia agourenta, hoje foi sepultado pela maré das cores da nossa bandeira espalhadas por todos os cantos do Brasil. As manifestações estão praticamente vazias. Somente algumas dezenas ou pouquíssimas centenas de pessoas ainda arriscam sair às ruas para gritar alguns chavões que quase ninguém escuta.

            Tenho procurado estudar a razão de tudo isso. Por que certos brasileiros, de repente, parecem acordar de um sono profundo, fazem muito barulho e depois desaparecem de cena, como se nada tivesse acontecido? E isso não aconteceu somente no ano passado. É algo comum à nossa cultura. Quem não se lembra dos “caras pintadas” que saíram às ruas para exigir a renúncia de Collor de Mello? Passando aquele momento eles entraram em letargia para só acordar mais de vinte anos depois. Parece-me que esse fenômeno tem explicações.

            A primeira e principal delas, a meu ver, é que esse tipo de manifestação é promovido e teleguiado pelas elites brasileiras que, usando dos recursos públicos que estão em sua mão (como, por exemplo, a grande mídia), insuflam as pessoas. Mas, como não têm propostas concretas e verdadeiramente voltadas para as reais necessidades do povo, terminam por perder a credibilidade. As elites tentam com essas manifestações criar um clima de insatisfação, visando desestabilizar o momento político e tirar vantagens disso. Mas quando percebem que “o feitiço pode se voltar contra o feiticeiro”, elas mesmas se encarregam de jogar uma ducha fria sobre os fatos. E como lamentavelmente mais de dois terços da população brasileira é formado de analfabetos funcionais, esse contingente de pessoas termina por ser massa de manobra das elites e deixando-se influenciar pelos jargões e refrões. Porém, mesmo sendo analfabetas funcionais, aos poucos vão se dando conta de que tudo não passa de fumaça que, aos poucos, se desmancha no ar. E, de repente, resolvem ficar em casa, vestir-se de verde-amarelo e torcer pela seleção canarinho.

            A segunda explicação está na burrice da atual esquerda brasileira, incapaz, incompetente, desunida, arrogante e ególatra. Quem me fez perceber essa realidade nua e crua foi Rubem Alves. No seu livro Variações sobre o prazer (São Paulo: Planeta, 2013) Alves, muito perspicazmente, faz uma relação entre consciência crítica e erótica. Diz, sem meios-termos, que é a erótica que julga as coisas “em função do prazer que elas lhe causam” (p. 64). E, refazendo-se a Nietzsche, afirma que a esquerda, e no nosso caso a esquerda brasileira, como o espírito alemão criticado pelo filósofo, se encontra com os “intestinos perturbados”, sofre de uma tremenda indigestão: “a esquerda se parece com o espírito alemão, identifica consciência crítica com intestinos perturbados. A consciência crítica da esquerda é sempre a consciência infeliz: padece de indigestão crônica” (p. 64).

            Continuando sua crítica, Alves relembra que as pessoas são corpo. E, como tais, gostam de coisas gostosas e rejeitam as que não são gostosas. E aprofundando ainda mais a sua crítica, o autor dispara sem dó e piedade, dizendo que “toda a esquerda é cartesiana, acredita nos poderes da razão. Argumenta com ideias claras e distintas. Por oposição, são os nazismos, os fascismos e a propaganda que se movem no mundo subterrâneo dos sentimentos sem nome, do irracional. A esquerda usa, como armas contra o irracionalismo, a transparência ideológica e as ideias claras e distintas, que moram na consciência. A esquerda gosta de luzes. Ela ignora que as ideias que moram nas luzes não conseguem se comunicar com o corpo” (p. 77).

            A crítica de Alves dói bastante, mas é a pura verdade. Até hoje, a nossa esquerda não conseguiu se desvencilhar de um linguajar e de um método que ignora por completo a realidade corporal do ser humano. Continua falando e agindo como se o mundo tivesse parado na segunda metade do século passado. Enquanto a direitona consegue sacudir os corpos humanos e envolvê-los numa dança erótica que visa atingir suas intenções e objetivos, a esquerda burra continua pensando como Descartes, como se o ser humano não tivesse corpo e fosse apenas um ser pensante abstrato. Alves conclui: “É preciso entender que a batalha não se trava entre consciência e inconsciência, razão e não razão, entre a cabeça e o corpo. A batalha se trava entre deuses e demônios, ambos habitantes do corpo e, como tais, criaturas do inconsciente” (p. 78).

            E se alguém ainda tem dúvida disso basta olhar a situação da atual esquerda brasileira: totalmente dividida em meros frangalhos, disputando entre si míseros pedaços de poder, incapaz de se unir para derrotar o inimigo comum, enquanto a direita, disfarçada de democracia e de socialismo, deita e rola em cima de tudo e de todos. Mais uma vez aquela que seria a “autêntica esquerda” chegará às eleições completamente dividida e obterá resultados inexpressivos. Veremos que em seus breves programas políticos se limitarão a repetir velhos refrões e chavões contra o capitalismo, sem apresentar propostas concretas para pessoas que, além de pensar, hoje têm necessidades básicas que lhe são sinaladas por um corpo vivo. A essa esquerda se junta outra esquerda burra, aquela eclesiástica, que influenciada pelo maniqueísmo é incapaz de ajudar a esquerda política a se dar conta de que o mundo mudou. Caberia à esquerda eclesiástica, a partir dos mais elementares ensinamentos evangélicos, lembrar aos demais esquerdistas que, no mundo real, anjos e demônios estão misturados. Que essa coisa de fazer política sem querer “sujar as mãos”, ou seja, sem se unir a outras forças democráticas menos esquerdistas é pura ilusão e não leva a lugar nenhum.

            Assim, por exemplo, ao invés de se associar à “paixão brasileira”, no momento representado pelo futebol, insiste em negar o óbvio, acreditando que o povo brasileiro vai abrir os olhos e rejeitar a Copa Mundial de Futebol. Ao invés de se apoderar, positivamente, daquilo que está no sangue dos brasileiros, e promover uma reflexão gostosa que causa prazer, a esquerda pretende burramente impor aos brasileiros que não vibrem com um evento mundial que está acontecendo no país e mobiliza a metade da população do planeta. Ao invés de reconhecer as conquistas, as melhorias, os avanços obtidos até agora, mesmo por quem não a representa totalmente, a esquerda insiste em negar que o país cresceu e superou muitos obstáculos e situações críticas. Desta forma termina fazendo o jogo das elites que, com simples encenações midiáticas, manipula as massas e impede um avanço mais significativo em direção a “outro mundo possível”.

            Continuando dessa forma a esquerda jamais conseguirá mobilizar as pessoas e contribuir efetivamente para uma mudança na direção daquele mundo justo com o qual tanto sonhamos. É hora de uma grande revisão, de sair da ilusão e ser mais realista. Os nossos métodos de esquerda utilizados no passado tiveram seu valor para aqueles tempos. E disso não devemos ter vergonha. Mas o mundo mudou. Talvez esteja na hora da esquerda aprender com o esquerdista Paulo Freire, que dizia: “Desaprender os saberes acumulados a fim de aprender a sabedoria não dita do corpo”. Mais corpo nas ideias, pois, diz ainda Alves, o “corpo sabe ensinar, naturalmente, da mesma forma que a centopeia sabe andar sem tropeçar” (p. 78).

quinta-feira, 12 de junho de 2014


Nova tentativa de assassinato da Teologia da Libertação

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

                A Teologia da Libertação (TdL) foi gestada na 2ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (CELAM), realizada em 1968 em Medellín, na Colômbia. Naquela ocasião os bispos do nosso continente tentaram aplicar o Concílio Vaticano II à realidade que marcava a vida dos nossos povos e dos nossos países. Logo depois, a TdL foi sistematizada pela obra de Gustavo Gutiérrez e de outros teólogos, os quais tentaram fazer uma reflexão teológica que desenvolvesse a intuição de Medellín, que era centrar a sua atenção sobre o ser humano do continente, frustrado em suas legítimas aspirações, devido às enormes injustiças e à opressão que assolavam os diversos países.

                Depois de alguns anos de aceitação e de esforço para traduzir na prática as suas intuições, a TdL passou a ser incompreendida e perseguida. Isso aconteceu de modo particular a partir de 1978, com o início do pontificado do polaco Wojtyla. Este papa, assessorado por uma Cúria ultraconservadora, foi podando sistematicamente e cruamente todas as iniciativas da Igreja da Libertação. Censurou e até cassou alguns dos mais renomados teólogos da libertação, nomeou bispos tradicionalistas e perseguiu aqueles que tinham desenvolvido em suas dioceses uma pastoral da libertação. Esta política continuou no pontificado do alemão Ratzinger. Com a chegada do papa Francisco houve uma diminuição da perseguição, mas ainda existem resquícios de tentativas de assassinato da TdL.

                A mais recente tentativa de assassinato aconteceu poucos dias atrás. Segundo informação do site do Instituto Humanitas da Unisinos, os membros da presidência do CELAM, em sua visita anual à Santa Sé, afirmaram em entrevista que a TdL está “muito velha, se não é que já está morta”. Embora tenha reconhecido os esforços dos teólogos da libertação, o presidente do CELAM, dom Carlos Aguiar Retes, disse que depois da TdL “temos uma reflexão teológica mais sapiencial” que abandonou a luta de classes e a confrontação entre ricos e pobres. Com estas afirmações o ilustre prelado, presidente do CELAM, tentou desacreditar a TdL: ela está velha ou morta e não é uma teologia “sapiencial”.

                Os membros da presidência do CELAM, resquícios de um episcopado alinhado com a Cúria Romana de Wojtyla e Ratzinger, ainda tentam sufocar uma teologia original, autêntica e que incomodou muita gente, especialmente os empacotados de roxo e os purpurados que frequentavam as luxuosas casas e as cozinhas das “raposas” (Lc 13,32) que patrocinaram a opressão, a injustiça e a miséria em nosso continente.

                Mas um simples olhar mostra que a TdL não morreu e nem envelheceu. Ela continua nova e vigorosa, antes de tudo no legado que nos foi deixado por pastores como Oscar Romero, Dom Hélder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga e Dom Angélico Sândalo Bernardino, só para citar alguns nomes. O legado desses pastores da libertação ultrapassou as fronteiras da própria Igreja Católica Romana e as fronteiras do tempo. Hoje, no mundo, centenas de milhares de mulheres e homens continuam a testemunhar a sua fé, graças ao testemunho desses pastores da libertação. Milhares de iniciativas surgiram por conta da ação pastoral desses bispos católicos e continuam existindo e agindo, apesar dos ventos que sopram em sentido contrário.

                Também alguns bispos e pastores de outras Igrejas irmãs, como a Igreja de Confissão Luterana, a Igreja Anglicana, a Igreja Metodista, a Igreja Presbiteriana, descobriram na TdL o caminho para uma ação mais incisiva em nosso continente e no mundo. Não posso deixar de lembrar a figura de dois representantes destas Igrejas: o pastor presbiteriano Jaime Wright e o pastor luterano Milton Schwantes, verdadeiros ícones das Igrejas da Reforma no Brasil e que encontraram na TdL o caminho para a evangelização. Ainda hoje homens e mulheres dessas Igrejas, teólogas e teólogos, pastoras e pastores desenvolvem suas atividades de anúncio da Boa-Notícia tendo como ponto de apoio a TdL. Sem falar depois nas inúmeras iniciativas ecumênicas ainda hoje em pleno vigor e que tiveram o seu berço na TdL. Basta lembrar, por exemplo, o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) com a sua vasta produção de subsídios para a animação bíblica popular. Por fim, cabe lembrar também a maravilhosa experiência das Comunidades Eclesiais de Base, expressão máxima de uma Igreja que bebe na fonte da libertação. Alguns tentam hoje minimizar essas comunidades, mas elas continuam aí, existindo como jeito novo de ser Igreja. No último Intereclesial, realizado no início deste ano em Juazeiro do Norte (CE), a terra do Padim Ciço, elas mostraram a sua força e a sua pujança.

                No campo da reflexão teológica, depois da chegada do papa Francisco, houve uma retomada da TdL, até então sufocada e proibida pelos monsenhores curiais. O pai da TdL, Gustavo Gutiérrez, publicou recentemente com o Cardeal Gerhard Ludwig Müller , atual Prefeito da Congregação Vaticana para a Doutrina da Fé, um texto no qual retomam os principais elementos dessa teologia. O livro, originalmente escrito em alemão, foi traduzido para o português e publicado no início deste ano por Edições Paulinas, com o título: Ao lado dos pobres. Teologia da Libertação. Muito significativa a intervenção do Cardeal Müller, especialmente no capítulo quatro do livro, no qual o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé fala das controvérsias em torno da TdL. Antes de tudo o Cardeal Müller reconhece a sua legitimidade, afirma a sua necessidade para a Igreja e diz tratar-se de uma autêntica teologia. Lembra que a teologia latino-americana ajudou a corrigir a “clássica doutrina social da Igreja”, construída a partir de um dualismo entre mundo natural e mundo sobrenatural.

O Cardeal Müller reconhece também a legitimidade da mediação socioanalítica, lembrando inclusive que esse tipo de recurso não é novidade na teologia católica. Grandes teólogos, como Tomás de Aquino, já tinham utilizado tal método, uma vez que é impossível fazer teologia abstrata, ou seja, sem partir da realidade. O Cardeal chega mesmo a reconhecer a importância da mediação da análise marxista e até da referência à luta de classes, lembrando-nos que o marxismo não deve ser confundido com o totalitarismo ideológico leninista e stalinista. Aliás, diga-se de passagem, foram os teóricos do capitalismo, que não conheciam o pensamento marxista, que confundiram Marx com Lênin e Stalin. Para o Cardeal Müller, ao mencionar a luta de classes, a TdL não entende desenvolver uma guerra de eliminação de uma classe, mas apenas lembrar que “a história não se desenvolve a partir do desenvolvimento harmônico de suas virtualidades, mas mediante o antagonismo de princípios e de interesses opostos”. A menção à luta de classes é um convite a participar “na luta da graça contra o pecado e, concretamente, também, de uma encarnação da salvação nas estruturas sociais promotoras da vida e uma superação do pecado e de sua objetivação em sistemas exploradores”. Isso porque “a graça e o pecado não existem simplesmente de modo puramente idealista e espiritualista em si, mas sempre unicamente junto com sua encarnação e materialização nas condições de vida humanas”.

A fala da presidência do CELAM tem um lado positivo: mostra que no momento, em Roma, há um clima de distensão, de mais respeito e de mais diálogo. Até alguns meses atrás seria impensável que bispos discordassem abertamente do pensamento do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Tal discordância era punida severamente, mesmo que fosse apenas com o puro isolamento e descrédito dos interessados. A presidência do CELAM ousou discordar do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que, como vimos, tem outro olhar sobre a TdL. E isso é positivo.

Porém, é lamentável que tenham tentado, a partir de Roma, decretar a caduquice e a morte da TdL; tenham efetivado mais uma tentativa de assassinato da teologia latino-americana. É lamentável porque foram essas tentativas que fizeram a Igreja Católica regredir em nosso continente, perdendo a credibilidade e um número cada vez mais expressivo de fiéis, como têm apontado as recentes pesquisas, mesmo que os eclesiásticos queiram minimizar esses dados. Na Europa, onde a TdL nunca foi admitida, o catolicismo agoniza, a Igreja envelhece rapidamente, tornando-se cada dia mais feminil e senil. Os prelados do CELAM deveriam aprender com o europeu Cardeal Müller, o qual afirma no texto acima mencionado que a Igreja, tanto no nosso continente como no mundo inteiro, “não pode renunciar à continuação e ao uso da Teologia da Libertação”, pois “a pretensão metodológica da Teologia da Libertação, de empregar uma práxis transformadora, outra coisa não é senão a nova formulação do evento original da teologia em absoluto”. Por isso, no “contexto regional e para a comunicação teológica mundo afora, a Teologia da Libertação é imprescindível” (p. 109).

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Momento eclesial


Em busca da unidade perdida

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Tentei acompanhar de perto a visita do papa Francisco aos “lugares santos” da Palestina e de Israel para comemorar os cinquenta anos da histórica visita de Paulo VI àquelas terras, no ano de 1964, em pleno período da realização do Concílio Vaticano II. Aquelas terras possuem um valor afetivo muito grande para boa parte da humanidade, uma vez que são o berço do cristianismo, o espaço da atuação de Jesus de Nazaré, de seus primeiros discípulos e das primeiras comunidades cristãs.

Mesmo que um cristão nunca tenha ido até lá, aquela região permanece para ele um referencial simbólico de grande monta. Logo, o que ali acontece se reveste de um caráter profundamente afetivo e termina mexendo com todo o inconsciente coletivo cristão. Mas, antes mesmo do cristianismo, aquelas terras são a razão de ser do povo hebreu, povo sofrido e maltratado até hoje, em cujo seio nasce a experiência do seguimento de Jesus, do qual o cristianismo herda um patrimônio espiritual incalculável. Sem o povo judeu não haveria cristianismo. Além disso, aquela região tem ainda um significado muito grande para o povo islâmico e, de modo particular, para o povo palestino, obrigado até hoje a viver na incerteza, na insegurança, na dor e no sofrimento, sem ter direito a um reconhecimento pleno e definitivo de sua pátria. A convivência pacífica dessas três grandes religiões e o reconhecimento real de uma pátria para o povo palestino é de fundamental importância para o futuro da paz mundial. Assim sendo, urge encontrar um caminho para se chegar a essa tão sonhada paz.

Acompanhei de modo particular o encontro do papa Francisco, bispo da Igreja de Roma, líder mundial dos católicos, com o patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, líder da grande e valiosíssima Igreja Ortodoxa, portadora de uma grande riqueza espiritual para todo o cristianismo. Fiz questão de seguir ao vivo pela televisão este momento histórico, pois não puder fazer isso a cinquenta anos atrás, quando Paulo VI e Atenágoras se encontraram. Quis seguir este momento por estar convencido de que a unidade do cristianismo no futuro passará por aquilo que acontecer entre essas duas grandes Igrejas.

Confesso que esperava gestos mais ousados de ambas as partes, após cinquenta anos do primeiro grande encontro, no qual os dois líderes de então retiraram a mútua excomunhão que vigorava entre as duas Igrejas, desde a triste ruptura no século XI. Senti muito formalismo e pouca espontaneidade no encontro. Os estudiosos dizem que a fisionomia das pessoas costuma revelar muita coisa. Fiz questão de observar atentamente este detalhe: os rostos dos que estavam presentes ao encontro. Não havia alegria, nem mesmo nos dois principais protagonistas; aquela alegria que devia caracterizar o reencontro de irmãos, depois de um longo período sem se ver. O que se via eram expressões de uma profunda tensão. Os dois líderes pareciam estar menos tensos, mas a platéia ao seu redor manifestava visivelmente sinais de muita tensão. Aliás, em alguns rostos era bem visível a raiva, o ódio, o fechamento. Fiz um esforço, mas não consegui em nenhum momento enxergar pelo menos o esboço de um sorriso na face dos outros padres e bispos que rodeavam o papa e o patriarca. Isso, para mim, diz muita coisa.

Sabe-se que o ambiente onde se deu o encontro entre Francisco e Bartolomeu, tido como o sepulcro de Jesus e o local de onde partiu o anúncio da ressurreição, é ainda hoje palco de verdadeiras disputas entre as Igrejas cristãs. Têm-se conhecimento inclusive de cenas recentes de violência física entre membros das diferentes Igrejas neste local, que deveria ser um ponto de comunhão, de união e de convivência amorosa. Há uma verdadeira luta pelo controle dos espaços físicos e isso só nos pode causar dor e tristeza.

Ora, isso não pode continuar acontecendo. A unidade dos cristãos é indispensável para o futuro da humanidade. Não podemos continuar insistindo na paz mundial, se os seguidores daquele que foi considerado “o Senhor da paz” (2Ts 3,16) continuam se digladiando, a começar do local em que, segundo a tradição, teria sido colocado o corpo do Mestre, após a sua crucifixão, e de onde ele teria saído vitorioso sobre a morte. Todos os apelos das Igrejas pela paz no mundo se tornam insignificantes se a humanidade sabe que os cristãos continuam divididos, disputando entre si inclusive a posse pelos “lugares santos”. Os discípulos e as discípulas de Jesus têm o grave dever de buscar a unidade, se não quiserem continuar sendo acusados de serem os responsáveis pelas divisões existentes hoje no mundo. Historicamente o cristianismo é o grande responsável por grandes tragédias mundiais, como a primeira e a segunda guerra mundial. Os países envolvidos nestas tragédias são herdeiros da cultura cristã, incapaz de fomentar, ainda hoje, a harmonia e a paz entre os povos.

No que diz respeito à busca da unidade entre as Igrejas cristãs históricas há que se voltar ao modelo anterior às grandes rupturas entre a Igreja de Roma e a Igreja do Oriente, no século XI, e entre a Igreja Romana e os herdeiros de Lutero e Calvino no século XVI. E o que existia antes? Inicialmente cada Igreja local tinha a sua autonomia, como núcleo de discípulos e discípulas de Jesus. Estas Igrejas, na medida em que iam se constituindo, escolhiam alguém para presidi-las e, consequentemente, para presidir a ceia do Senhor ou Eucaristia. Este presidente tinha nomes diferentes, conforme a cultura do local em que se encontrava a Igreja. Podiam ser chamados de bispos, presbíteros e diáconos. Quando, por acaso, surgia entre elas alguma dificuldade isso era resolvido através de encontros, de reuniões, de sínodos e, mais tarde, de concílios. Tal costume foi introduzido ainda na época dos apóstolos, como nos atestam os escritos neotestamentários (At 15,13-35).

Algum tempo depois, quando as Igrejas adotam o sistema piramidal vigente no Império, os bispos passam a deter o poder de consagrar os novos bispos, os presbíteros e os diáconos. Aos poucos as Igrejas locais vão se constituindo ao redor dos bispos, os quais, sempre segundo o esquema imperial, passam a ter também funções de administração de um grupo de Igrejas locais de uma determinada região. Com o passar do tempo, as Igrejas vão se aglutinando em torno de três grandes Igrejas locais: Roma, Alexandria e Antioquia. Mais tarde, especialmente durante o concílio de Éfeso e de Calcedônia, reconheceu-se o direito de algumas Igrejas locais se reunirem em torno da Igreja de Jerusalém, tido como a primeira Igreja. Em 381 se reconhece a posição da Igreja de Constantinopla, capital do império oriental.

Assim sendo, as Igrejas locais, todas com sua autonomia, vão se congregando em torno de cinco grandes Igrejas que se situavam em pontos estratégicos do Império romano: Roma, Alexandria, Antioquia, Jerusalém e Constantinopla. E com isso foi se criando a tradição de que os cinco bispos destas Igrejas formavam uma espécie de pentarquia. As cinco Igrejas passam a ser consideradas patriarcados e os cinco bispos, chamados patriarcas, tidos como sucessores dos apóstolos e pastores supremos, são vistos como escolhidos pelo Espírito Santo para guiar a Igreja em posição de igualdade. Isso se baseava numa tradição segundo a qual estas cinco Igrejas eram de origem apostólica, isto é, tinham sido fundadas por apóstolos de Jesus.

Um pouco antes da formação dos patriarcados, provavelmente ainda no final do primeiro século da era cristã, se introduziu o costume de se apelar para a Igreja de Roma, quando surgia algum tipo de problema entre as Igrejas locais. Isto porque não era mais possível reunir todos os bispos que presidiam as Igrejas, uma vez que o número de Igrejas locais tinha aumentado e a realização de um concílio se tornava cada vez mais difícil e oneroso. Muita coisa era resolvida através de sínodos ou concílios regionais ou provinciais. Mas quando não se conseguia um consenso, apelava-se para a Igreja de Roma, cujo bispo era convidado a dar a palavra final sobre o assunto. E o que o bispo de Roma dizia era tido por todas as Igrejas como a palavra definitiva sobre a questão. Disso surgiu a expressão latina: Roma locuta, causa finita est, ou seja, “Roma falou, a causa está encerrada.

Este costume de apelar para Roma surgiu a partir de uma tradição, segundo a qual os apóstolos Pedro e Paulo teriam sido martirizados naquela cidade. E por serem considerados os apóstolos mais representativos do anúncio do Evangelho de Jesus ao mundo (Gl 2,7), a Igreja de Roma passa a ser vista como aquela que tem a primazia sobre as demais Igrejas, ou seja, aquela que pode dar uma palavra final sobre determinadas questões. Porém, inicialmente esta primazia não significava um primado e nem o bispo de Roma era considerado sucessor de Pedro. Não se atribuía ao bispo de Roma as prerrogativas que lhe serão atribuídas mais tarde, inclusive com a interpretação literal de textos bíblicos, como aquele de Mateus (16,17-19).

Uma interpretação desse tipo vai aparecer pela primeira vez no século V, com o papa Bonifácio I (418-422); se radicaliza com o papa Gregório VII. Este papa, reagindo à intromissão de imperadores e príncipes na Igreja, empreende uma reforma que culmina na absolutização do poder papal. Gregório VII (1073-1085) entendia que o poder do papa, tornado automaticamente santo a partir do momento em que era eleito (daí o título de “santidade” ou de “santo padre” atribuído ao papa), estava acima de todos e acima de tudo. Somente o papa recebeu o “poder das chaves”, ou seja, o poder de “ligar e desligar” (Mt 16,19). Por essa razão todas as pessoas da Terra devem se submeter ao seu poder. Tal interpretação chega ao seu auge no final do século XIX, quando o primeiro Concílio realizado no Vaticano, por forte pressão do papa Pio IX, decreta a infalibilidade papal.

Pode-se concluir, então, que a primazia da Igreja de Roma, que vigorou durante o primeiro milênio, não incluía uma centralização de poder absoluto, a ponto de fazer do bispo de Roma um super bispo e da Cúria Romana uma monarquia absoluta, com poderes absolutos, a ponto de intervir autoritariamente e indevidamente sobre a vida das Igrejas locais. A primazia era da caridade, ou seja, para ajudar as Igrejas locais a viverem em paz e concórdia. Jamais foi pensada em termos absolutos, autoritários e de dominação, como lamentavelmente aconteceu no segundo milênio, sendo inclusive uma das causas das muitas divisões na Igreja. Por essa razão, para se chegar à unidade desejada, é indispensável que a Igreja de Roma volte a ser o que era no início, renunciando a todo tipo de autoritarismo e de mando sobre as demais Igrejas. Que volte a ser serviço de caridade para a unidade e não exercício de poder monárquico absoluto sobre todo o cristianismo. É indispensável também que as demais Igrejas, inclusive aquelas nascidas a partir da Reforma, acolham esta função da primazia da Igreja local de Roma. Sem esse esforço mútuo, a unidade entre os cristãos não virá e a mensagem do Evangelho será cada vez mais enfraquecida pelo contra-testemunho da divisão.