sábado, 25 de outubro de 2014

Atualidade


Morrer: um ato profundamente humano

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Dentro em breve estaremos comemorando o Dia de Finados. Veremos uma procissão de pessoas visitando os cemitérios. Alguns irão apenas formalmente, pois pega mal os vizinhos saberem que a família nem sequer visitou o túmulo dos falecidos. Outros chorarão lágrimas de crocodilo, uma vez que, enquanto seus familiares eram vivos, nunca se preocuparam com eles. Outros, ainda, farão visitas verdadeiras para, junto ao túmulo dos mortos, fazer memória de seus antepassados. Mas creio que pouquíssimos aproveitarão deste momento para meditar sobre a morte como mistério profundamente humano.

A vida termina no momento da morte da pessoa. Ao dar seu último respiro o ser humano volta à terra de onde foi retirado (Gn 3,19; Sl 90,3; Jó 34,15). A morte é um fenômeno natural que atinge todos os seres viventes. Não conhecemos nenhum ser vivo que não passe por essa experiência. Todos nós somos concebidos, gestados, nascemos, vivemos por um período e depois morremos. É a lei da natureza e da qual não há como fugir. Afeta todos os seres vivos, sem exceção.

            É claro que existem mortes fora do tempo e antes da hora. Mortes provocadas pela violência, pelo ódio, pela fome, pelas guerras, pelas drogas e pelo egoísmo humano. Este tipo de morte não é natural e nem normal. Contra essa forma de morte devemos nos opor de maneira decidida, uma vez que ela violenta um direito fundamental dos seres vivos, que é morrer depois de uma boa longevidade e de morte natural. Mas, fora isso, a morte faz parte do ritmo da vida e não há como escapar dela.

            Mas por que, sendo um fenômeno natural, temos tanto medo da morte? Por que sofremos quando alguém parte, mesmo depois de uma longa vida? Porque também isso é natural (Jo 11,33-36). Tão natural como o medo que o bebê sente quando tem que deixar o útero para entrar nesta vida, como dizem os estudiosos do assunto. A morte lança a pessoa numa dimensão nova e da qual ainda não podemos participar, por enquanto. Porque ficamos, e não vamos com a pessoa amada, sofremos com a sua perda, com a sua separação.

            Até certo tempo atrás os cristãos pensavam que a morte biológica era o resultado do pecado. Acreditava-se que os nossos progenitores, designados como Adão e Eva, não teriam morrido se não tivessem pecado. Acreditava-se também que a humanidade descendente de Adão e Eva não morreria se não tivesse acontecido aquele primeiro pecado de nossos pais (Gn 3). Essa crença estava fundamentada numa interpretação literal, e até fundamentalista, de alguns textos bíblicos (Rm 5,12).

Hoje, porém, com a ajuda dos conhecimentos científicos, já temos condições de saber que todos os seres vivos morrem e que a morte é parte da dinâmica da vida. Morrer é natural e humano. Assim sendo, não podemos mais continuar acreditando que a morte biológica é consequência do pecado de Adão e Eva, mesmo porque Adão e Eva não foram personagens históricos reais, mas apenas nomes simbólicos que representam a humanidade de todos os tempos. Adão significa literalmente humano, ou melhor, aquele que foi feito com o barro (Gn 2,7). Eva literalmente significa “a Vivente” ou “a mãe de todo vivente” (Gn 3,20).

Quando a Bíblia afirma que a morte é fruto do pecado ela não está falando da morte biológica, mas de outros dois tipos de morte. Antes de tudo da experiência pavorosa da morte que atormenta a humanidade. De fato, mesmo sabendo que vamos morrer; que a morte é natural, nós temos medo de morrer. Temos medo de morrer porque não amamos. A falta de amor gera em nós o medo e o pavor (1Jo 4,18). Aliás, existem pessoas que vivem como se não fossem morrer e quando começam a perceber que “não vão ficar para a semente” entram em pânico e em desespero. Esse medo é provocado em nós pela experiência do pecado. Porque nos sentimos pecadores, ou seja, porque não amamos, tememos a hora derradeira, o encontro definitivo com Deus.

Além disso, ao associar a morte ao pecado, a Bíblia não está falando da morte biológica, mas daquilo que o livro do Apocalipse chama de “segunda morte” (Ap 2,11; 20,6; 21,8), ou seja, da perdição definitiva. Trata-se da decisão deliberada da pessoa de não aceitar a salvação oferecida por Deus (Hb 10,26-31). Esta é a morte definitiva. Porém, nenhum de nós pode afirmar que alguém morreu definitivamente, ou seja, rejeitou a salvação oferecida, pois o julgamento cabe somente ao Filho de Deus (Jo 5,22). E o julgamento é sempre de salvação e não de condenação (Jo 3,17).

Ao morrer, a pessoa morre por inteira, morre na sua totalidade para depois ressuscitar. Antigamente se pensava que morria somente o corpo e que a alma, sendo imortal, permanecia viva esperando o dia da ressurreição. Hoje, com o avanço científico dos estudos bíblicos, sabemos que o ser humano é uma unidade. Quando falamos de alma e de corpo não estamos falando de duas realidades separadas, mas de um único ser humano que possui duas dimensões inseparáveis: a dimensão corporal, ou seja, de visibilidade e de relacionamento com os outros e a dimensão de interioridade, de subjetividade. Assim sendo, quando a pessoa morre, ela morre por completo.

No judaísmo antigo não existia a crença na ressurreição. Acreditava-se que a vida terminava com a morte biológica. A vida das pessoas, particularmente do homem (macho) continuava na descendência (Sl 102,28-29) e no que ele deixava como grandes realizações (Pv 10,7; Sl 112,2.6). Jó, um dos maiores cantores dessa realidade, assim proclama: “quem desce ao túmulo, nunca mais subirá” (7,9). Para o salmista “os mortos já não louvam a Javé, nem os que descem ao lugar do silêncio” (Sl 115,17). Mais tarde passou-se a acreditar que as pessoas eram colocadas no Sheol (ou Xeol), uma espécie de lugar para a purificação provisória dos mortos que esperavam a ressurreição. Porém, no judaísmo antigo, o Sheol significava simplesmente túmulo, cova ou abismo. Não se acreditava em ressurreição.

Portanto, a crença na ressurreição é tardia. Começa a aparecer depois que o povo hebreu passou pela amarga experiência do exílio, da diáspora, da dominação e da perseguição. Alguns, diante de tanto sofrimento, da prepotência do opressor, começaram a se perguntar se a vida se resumia a apenas aquilo: dor, sofrimento, injustiça etc. Começa, então, a nascer a esperança de que há algo além da morte. Inicialmente não era uma crença na vida após a morte, mas a certeza de que o opressor seria destruído e, por isso, era preciso resistir até o fim, a fim de conhecer a libertação (Dn 8-10). Aos poucos, por influência da cultura grega, essa crença vai se transformando em crença na ressurreição, ou seja, numa vida que continuaria depois da morte. Assim, já próximo dos tempos de Jesus, os escritos gregos do Primeiro Testamento, como os Livros dos Macabeus, vão falar de ressurreição dos mortos.

Mas, mesmo no tempo de Jesus, a crença na ressurreição ainda não era coisa pacífica. Conhecemos a polêmica do Mestre com os saduceus, que afirmavam não existir ressurreição (Mt 22,23). Será o cristianismo, a partir da experiência de Jesus, a proclamar definitivamente a crença na ressurreição. Paulo será o grande apóstolo da ressurreição, chegando a afirmar que se Cristo não ressuscitou a fé cristã seria ilusória (1Cor 15,16-19).

Não se pense, porém, que a vida que brota da ressurreição é algo que não tem nenhuma relação com a vida presente. A vida a partir da ressurreição é diferente, é “semente incorruptível”, mas sua origem será sempre, como diz Paulo, aquela mesma que foi “semeada corruptível” (1Cor 15,42), ou “semeada corpo animal” (1Cor 15,44). Não será outra vida diversa daquela que vivemos aqui. Estas palavras do apóstolo nos deveriam ajudar a valorizar melhor essa vida e também a morte, como experiência profundamente humana. Mais do que ficar focados ou até obcecados pelo “céu”, para onde queremos ir, deveríamos viver mais intensamente esta vida presente e nos prepararmos para morrer de uma forma profundamente humana. “Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24). Não seria a atual solidão das pessoas uma expressão visível do medo de encarar a morte de maneira mais humana e natural? Não seria a depressão, tão marcante em nossa sociedade, uma forma de negar a realidade da morte, tão natural e tão humana? Vale a pena, pelo menos no dia de Finados, pensar um pouco nisso.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Realidade eclesial


Não adianta tapar o sol com a peneira
 
José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário
            Dias atrás publiquei em meu blog um artigo sobre a impostura dentro do ministério ordenado. O artigo também foi replicado pela agência de notícias Adital e por vários outros sites e blogs. Após a publicação do artigo recebi algumas mensagens desaforadas de pessoas completamente transtornadas, que, ao invés de pararem para refletir sobre o assunto, preferiram me “desqualificar”, como se a atitude de desqualificar alguém pudesse diminuir substancialmente a verdade dos fatos.
            É claro que ser desqualificado por determinadas pessoas não me afeta e nem me afetará, já que considero normal que certos indivíduos transtornados, incapazes de dialogar de igual para igual, prefiram a baixeza e a vulgaridade. Diante da evidência dos fatos tentam negá-los não com a clareza científica e o rigor da lógica, mas apelando para a violência, a agressividade e a difamação.
            Mas não adianta tapar o sol com a peneira. Ele continuará brilhando sobre a cabeça do tonto que fizer isso. Tomás de Aquino, na Suma Teológica, afirma que a verdade vem sempre do Espírito Santo, mesmo se proclamada por um demônio. A impostura no ministério ordenado existe desde o início do cristianismo e, creio, sempre existirá. Entendo a impostura, seguindo a indicação dos melhores dicionários, como sendo a ação de enganar com falsas aparências ou falsas imputações. A impostura é o mesmo que embuste, engano artificioso, afetação de grandeza, de superioridade, de orgulho. Toda impostura é sempre acompanhada de presunção e de vaidade. No âmbito do ministério ordenado a impostura está sempre relacionada com a sede de poder, com a avareza ou amor ao dinheiro e a ambição pela fama. É claro que na raiz de tudo está sempre o amor ao dinheiro (1Tm 6,10), fazendo com que certos ministros ordenados transformem a piedade em fonte de lucro (1Tm 6,6). Para conseguir estes três objetivos alguns ministros ordenados não temem mentir, enganar, aparentar, fazer de conta etc.
            Quero reafirmar o que disse no artigo anterior: a maioria absoluta dos ministros ordenados são pessoas equilibradas, honestas, simples, doadas, dedicadas inteiramente ao povo. Eles estão espalhados por todos os cantos, principalmente pelas periferias das grandes cidades, pelos interiores, vivendo muitas vezes em situação de pobreza, sem quase nenhum conforto, trabalhando com muita paixão e muito gosto por amor à causa do Reino. Eles não vivem de aparências e artificiosamente porque não têm ambições, a não ser aquela de servir com humildade e simplicidade a comunidade à qual foram enviados como ministros. Eu, pessoalmente, conheço centenas desses ministros ordenados.
          Porém, não se pode negar a presença no ministério ordenado de verdadeiros impostores que, mesmo em número bem inferior aos ministros honestos, causam muitos desastres dentro da Igreja e geram escândalos para o povo cristão. No momento atual a impostura se faz mais visível devido a certo marketing católico, liderado por sujeitos que transformaram a cruz de Cristo em produto de consumo, que tende a colocar em destaque exatamente estes ministros impostores e transtornados. Uma análise criteriosa, metodológica e científica da presença de certos padres na mídia confirmaria o que estou dizendo. O modo como falam, gesticulam histericamente, se vestem etc. etc. fala por si mesmo e denuncia a presença de um impostor, de um transtornado que precisa aparentar e falsificar.
            Sim, é inútil querer tapar o sol com a peneira. A impostura no ministério ordenado é uma realidade que não se pode negar a não ser com a própria impostura. Como disse no artigo anterior, nas últimas duas décadas foram publicados inúmeros estudos que não deixam dúvidas. Gostaria de citar apenas um, publicado mais recentemente e que, para mim, é a síntese de todos os estudos sérios nos quais aparece com forte evidência a questão da impostura de ministros ordenados. Trata-se do livro Sofrimento psíquico dos Presbíteros do professor da PUC de Minas Gerais, o Dr. William César Castilho Pereira. O livro com 542 páginas é pautado pela metodologia científica da pesquisa de campo, com fundamentação teórica consistente, acompanhado de coleta de dados, observação e análise qualitativa durante 15 anos. Portanto, um estudo científico sério, cujos dados finais só podem ser contestados através de um outro estudo científico igualmente sério e rigoroso.
            Mas, como já afirmava no artigo anterior, mesmo que não existissem estudos sobre o assuntos, os fatos não me deixariam mentir. Os recentes casos de pedofilia dos padres, os escândalos financeiros que penetraram até no Vaticano, as intrigas e futricas clericais das quais tomamos conhecimento a toda hora, não me permitiriam dizer que está tudo bem e que não há imposturas no ministério ordenado. Elas ressoaram inclusive no último conclave e o atual papa, Francisco, não as esconde. Volta e meia, em suas falas, ele volta ao assunto e questiona a impostura de certos ministros ordenados. Basta ler os pronunciamentos dele, especialmente aqueles dirigidos aos padres, para perceber isso com muita clareza.
            Além disso a minha experiência pessoal não me permitiria fingir, fazendo de conta que nada disso existe. Tive a graça de, como teólogo, assessorar centenas de encontros e cursos ligados à área das vocações e dos ministérios. Estive dando assessoria em todos os estados do Brasil, exceto Amapá e Roraima, embora nos encontros e cursos realizados nos outros estados do norte do país sempre encontrei pessoas desses estados. Devido aos temas estudados em minhas assessorias a questão da impostura dos ministros ordenados sempre aparecia. Pessoas simples e também pessoas com mais conhecimento acadêmico e mais capacidade de análise crítica relatavam nesses cursos e encontros diversos casos e situações. Percebia-se nitidamente que não estavam inventando e nem mentindo, mas apenas expondo situações que as deixavam, muitas vezes, tristes e decepcionadas, pois amavam profundamente a Igreja e sofriam com as formas de impostura que relatavam.
            Também durante o período que estive como assessor do Setor Vocações e Ministérios da CNBB (1999 – 2003) pude tomar conhecimento de inúmeros casos de impostura de ministros ordenados. Várias vezes entregamos dossiês completos de situações para os bispos do Conselho Permanente e da Comissão Episcopal de Pastoral. Lembro perfeitamente de um caso bem escabroso que nos foi enviado por um juiz de direito de uma comarca do estado de São Paulo, que havia julgado e condenado um padre. O juiz, que nos mandou os autos do processo, perguntava à CNBB porque os bispos não estavam atentos a esses casos e por que nada faziam para não mais permitir que situações como aquela acontecessem. Mas os bispos, inclusive aqueles do Conselho Permanente e da Comissão Episcopal de Pastoral, de fato, nunca fizeram nada. Nossos dossiês eram recebidos e esquecidos. Somente uma vez, por pressão do bispo que presidia o Setor, tratou-se dos problemas numa reunião. Mas os bispos presentes saíram pela tangente e recusaram-se a aceitar o óbvio e a tomar alguma providência.
            Pude ainda tomar conhecimento de outros casos de impostura de ministros ordenados quando fui assessor e depois presidente do Instituto de Pastoral Vocacional (IPV), com sede em São Paulo. Como o IPV, formado por congregações de carisma vocacional, tinha atividades que envolviam pessoas de todo o Brasil, era possível, em seus encontros e cursos, tomar conhecimento de muita coisa. Mesmo porque um dos objetivos do IPV era preparar animadores e animadoras vocacionais para lidar com situações e casos como o da impostura dos ministros e que acabavam interferindo no serviço de animação vocacional.
            Seria muito melhor para mim falar de outras coisas e não ter que vir a público denunciar esses casos. Mas como discípulo-missionário, seguidor de Jesus Cristo, eu não posso me calar, ainda que outros, que têm o dever de fazer isso, se calem e se omitam. O que espero é que a Igreja Católica Romana tenha a coragem de enfrentar essas situações e ouse encontrar soluções concretas para esse caso, de modo que o ministério ordenado seja cada vez menos infestado pela impostura de certos ministros ordenados. Aliás, é bom registrar que a própria Igreja Romana já dispõe de ótimos instrumentais para realizar isso. Aqui no Brasil, por exemplo, temos excelentes documentos como as Diretrizes para a Formação dos Diáconos Permanentes, as Diretrizes para a Formação dos Presbíteros, o documento sobre o Egressos, que dá orientações acerca de como lidar com seminaristas que saem ou são expulsos de seminários. Nestes documentos as orientações são bem claras e situações, como a impostura por parte de futuros ministros ordenados, levadas em conta, com indicações práticas bem precisas. Mas, tendo presente também a minha experiência, a maior parte dos bispos não leva a sério o que nestes documentos está escrito. Continuam agindo institivamente, subjetivamente e segundo as necessidades imediatas.
            Paulo Freire, há mais de quarenta anos, numa carta endereçada a um “jovem teólogo”, assim se expressava: “Já é tempo de os cristãos distinguirem essa coisa tão óbvia, que é Amor, das suas formas patológicas: sadismo e masoquismo. O contrário do amor não é, como se pensa muitas vezes, o ódio, e sim o medo de amar, que é o medo de ser livre [...]. Os Seminários, para se constituírem em vozes a favor da modificação da estrutura social, devem constituir-se desde já em centros utópicos, ou seja, em denúncia das estruturas desumanizantes nas quais os homens possam ser mais, sorrir, cantar, criar, recriar. Somente assim, os Seminários poderão ser proféticos e falar autenticamente de esperança. É o que eu também desejo e espero, de modo que a impostura entre ministros ordenados caminhe progressivamente para a sua extinção.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Mês missionário


Dimensão missionária da Igreja

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            No Brasil, há algumas décadas, a Igreja Católica Romana considera outubro como mês missionário. O objetivo, certamente, é levar os católicos a tomarem cada vez mais consciência de uma das dimensões fundamentais do discipulado ou seguimento de Jesus. A Igreja é, por natureza, toda ela missionária, nos lembrava há 50 anos atrás o Concílio Vaticano II. A dimensão missionária, explica o documento conciliar Ad Gentes, brota da missão do Filho e do Espírito Santo. O Pai manda, na plenitude do tempo, o seu Filho que nasce de mulher (Gl 4,4) e envia, através de Jesus (Jo 15,26), o Espírito (Jo 14,16). O Filho, por sua vez, envia os discípulos como missionários pelo mundo inteiro (Mc 16,15), os quais são revestidos da força do Espírito (At 1,8). Portanto, uma comunidade cristã que não é missionária, não é Igreja (ekklesía), ou seja, não é comunidade de fé convocada e reunida pela Santíssima Trindade. Pode ser um clube, uma associação de pessoas religiosas, um grupo de amigos, mas não Igreja, no sentido bíblico e teológico desta palavra.

            Dizer que a Igreja é, por natureza, missionária implica saber e entender qual é a sua missão. A missionariedade decorre da missão. Qual é, então, a missão da Igreja? A mais antiga definição da missão da comunidade cristã, ou seja, da Igreja encontra-se no evangelho de Marcos: “Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Nova para toda a humanidade” (Mc 16, 15).

Três aspectos importantes da missão aparecem neste mandato que Marcos atribui a Jesus. Em primeiro lugar, o núcleo central da missão. Trata-se de “anunciar a Boa Notícia”. Mas, qual “Boa Notícia”? Lucas e Mateus nos dão a resposta. Segundo Lucas, a “Boa Notícia” é dirigida aos pobres e consiste em “proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista”. O objetivo da missão da Igreja é “libertar os oprimidos” e “proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). Mateus, por sua vez, afirma que, para Jesus, o sinal da sua messianidade está exatamente nisso: “aos pobres é anunciada a Boa Notícia” (Mt 11,5). Fica, pois, evidente que a essência da missão da Igreja é, pela palavra e pela ação, contribuir para a libertação dos pobres e dos oprimidos. O restante deve ser apenas consequência disso. Portanto, entre a opção preferencial pelos pobres e a missão da Igreja há um vínculo indissolúvel. Separar as duas coisas é o mesmo que diluir o essencial da missão. Não por acaso o papa Francisco voltou a nos relembrar recentemente este aspecto (EG, 197), que estava sendo sepultado por uma Igreja Católica, que tinha decididamente se voltado para um estilo direitista e ultraconservador durante o pontificado de João Paulo II e Bento XVI. Há razão, pois, a CNBB quando afirma que “o caminho da redenção está assinalado pelos pobres” (Estudos 107, nº 153).

O segundo aspecto importante da missão, assinalado pelo texto de Marcos, é o fato de que a Igreja precisa pensar a missão como ação destinada ao mundo inteiro. Isso significa que o anúncio da Boa Notícia aos pobres deve chegar a todos os cantos da terra. A missão da Igreja deve ser tão marcante e impactante, a ponto de ressoar em todos os lugares de nosso planeta. Este aspecto supõe uma Igreja ousada, corajosa, que não fique trancada dentro dos templos (Jo 20,19), com medo de ser contaminada ou perseguida. Supõe uma Igreja profética, que não aceita fazer pactos com os ricos e poderosos desse mundo, mas que se declara e assume com coragem a causa dos pobres, denunciando os ricos (Lc 6,24-25) e os exploradores dos pobres (Tg 5,1-6). Uma Igreja “frouxa”, medrosa, comprometida com os ricos e poderosos não é e nunca será missionária.

O terceiro aspecto da missão evidenciado por Marcos tem a ver com os destinatários: o anúncio da Boa Notícia deve ser dirigido a toda a humanidade. Todos os homens e todas as mulheres têm o direito de receber da Igreja este anúncio. E não é preciso que se “convertam” ao catolicismo. Em suas próprias culturas, em suas próprias religiosidades, em suas situações concretas, os povos e as pessoas têm o direito de receber da Igreja o testemunho de uma opção firme e decida em favor dos pobres. Este é um tipo de anúncio que todo mundo entenderá, independentemente de sua língua e de sua cultura. E é isso que falta à Igreja, especialmente à Igreja Católica. Ela não consegue sinalizar para a humanidade que está decididamente do lado dos pobres, combatendo toda forma de opressão e promovendo a libertação integral das pessoas e dos povos. Daí o fracasso da sua missão nas mais diversas partes do mundo, inclusive nos países do hemisfério sul, uma vez que falar aqui de cristianismo, de Igrejas, é o mesmo que falar de colonialismo. E as pessoas mais inteligentes, em número cada vez maior, que habitam o sul do planeta, sabem muito bem o que significou para seus países, para suas culturas e para seus povos o colonialismo implantado pelos países “cristãos”.

E não estou dizendo isso por acaso. Todos sabemos que a partir do momento em que a Igreja, contrariando a vontade de Jesus, começou a imitar e a copiar o estilo dos poderosos deste mundo (Mc 10,42-44), ela passou a entender a missão como “plantatio ecclesiae”, ou seja, como mero transplante do estilo europeu de Igreja para as demais regiões do mundo. Fazer missão, missionar, era o mesmo que impor às demais culturas a religião católica. A missão consistia em destruir e eliminar por completo as culturas, tidas como idolátricas, selvagens e pagãs, impondo a ferro e fogo o catolicismo. Foi o que aconteceu, por exemplo, na América Latina, ainda hoje marcada pela violência e pelos massacres praticados contra os indígenas pelos conquistadores espanhóis e portugueses, em nome da fé católica.

Lamentavelmente a maioria dos bispos e dos padres ainda entende a missionariedade da Igreja nesta perspectiva colonialista. Acreditam piamente que fazer missão é o mesmo que fazer proselitismo, ou seja, converter o maior número possível de pessoas para o catolicismo. A maioria deles não tem presente a perspectiva bíblica da missão, sobretudo no que diz respeito à questão do seu significado como anúncio de uma Boa Notícia para os pobres e oprimidos. Várias vezes, em reuniões de bispos, pude escutar alguns deles questionando o modo de evangelizar de instituições como o CIMI e a CPT, que optam pelo diálogo com as culturas e não pelo proselitismo barato. Esses bispos são do parecer que se deve chegar nesses espaços fazendo proselitismo, ou seja, convertendo de qualquer jeito ao catolicismo as pessoas que ali estão. Minha posição foi sempre a de que esse modo de “evangelizar” é de grupos fundamentalistas cristãos e não de verdadeiros discípulos de Jesus.

Talvez ainda precisamos aprender com os grandes santos em que consiste realmente a missão. Lembro-me, neste instante, de Charles de Foucauld, cuja vida foi um mergulho profundo no escondimento e no silêncio. Mas duvido que alguém tenha sido mais missionário do que ele. O irmão Carlos de Jesus entendeu, como santa Teresinha do Menino Jesus, que a missão é essencialmente amar o próximo e não fazer proselitismo. Por isso não tinha medo de dizer que ele estava ali no deserto não para converter os tuaregues, mas para compreendê-los. Tinha a convicção, dizia em 1905, que falar de Jesus para eles significaria afugentá-los. Não que o nome de Jesus, por si só, assustasse os mulçumanos, mas a associação que eles faziam de Jesus com os bárbaros e violentos europeus cristãos. De fato, naquele mesmo período a França dominava a região e praticava as maiores barbaridades contra os nativos, tratando-os como escravos e como objetos quaisquer. Para o irmão Carlos, numa situação como essa, bastava que os tuaregues sentissem que ele era apenas seu amigo e seu serviçal. Isso já era missão, já era evangelização.

“O amor é o meio mais poderoso de atrair o amor, porque amar é o meio mais poderoso de fazer-se amar” (Charles de Foucauld). Assim, continua o irmão Carlos de Jesus, a melhor forma de realizar a missão da Igreja é amando, mesmo sem dizer uma palavra: “sem nunca dizer-lhes uma palavra de Deus, nem de religião, sendo paciente como Deus é paciente, sendo bom como Deus é bom, amando, sendo um irmão cheio de ternura, e rezando”.

Faço votos de que o mês missionário nos ajude a entender tudo isso. Faça-nos perceber que a missão não é algo a mais a se fazer, uma pastoral a mais na Igreja, mas uma dimensão que deve perpassar toda a vida da Igreja. Faça-nos entender que missionar não é fazer prosélitos, mas anunciar a Boa Notícia da libertação dos pobres e oprimidos a todos os homens e mulheres da Terra. E acima de tudo nos faça entender que “a Igreja não é o centro. Cristo é o centro!” (Estudos da CNBB 107, nº 148). E por essa razão é indispensável “passar de atitudes fechadas à formação de uma nova cultura, que constrói cidadania no diálogo e que não tem medo de acolher o que o outro, o diferente, tem a oferecer” (Ibid., nº 157).

A missão, quando entendida desta forma, faz a Igreja deixar de se um amontoado de delirantes alienados, carolas e de beatos para ser uma Igreja laical, isto é, uma Igreja comprometida em testemunhar Jesus Cristo “em todas as circunstâncias, no interior da comunidade humana, tão marcada por dinâmicas excludentes, indiferenças, buscas desenfreadas de consumo e satisfação” (Ibid., nº 163). Quando se entende a missão na perspectiva bíblica a Igreja deixa de ser “um clube de eleitos” (Ibid., nº 146), uma “alfândega controladora da graça de Deus” (EG, nº 47), para ser “uma Igreja pobre, para os pobres, com os pobres e os que se encontram nas periferias existenciais” (Estudos da CNBB 107, nº 151).

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Experiência


Como a erva do campo

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Minhas amigas e meus amigos tomaram conhecimento do problema de saúde que se abateu sobre mim, pegando-me de surpresa e obrigando a submeter-me a um longo tratamento que durará, no mínimo, uns seis meses. Tive a graça de acolher a surpresa com naturalidade, sem revoltas, sem desespero e sem ânsia. Os vinte e oito dias passados inicialmente na Ala de Hematologia do Hospital de Base do Distrito Federal me ofereceram a oportunidade única de refletir sobre a vida humana. Dessa reflexão nasceu o presente artigo que pretende ser apenas a introdução a um texto que, com minha esposa Ana Márcia, pretendo publicar depois que tudo passar. O texto já tem até título: Como a erva do campo. Reflexões sobre a fragilidade e a brevidade da vida humana.

            De um modo geral todas as culturas religiosas afirmam que é vontade dos deuses que os seres humanos tenha vida plena e vida longa. Ter uma vida pela metade e uma vida curta não faz parte do projeto inicial das divindades criadoras. No caso da tradição judaica e da tradição cristã isso é muito explícito. Já nas primeiras páginas do Gênesis encontramos o “jardim em Éden, no Oriente”, onde Deus coloca as pessoas humanas que ele acabara de “modelar” (Gn 2,8). Este jardim, com um rio dividido em quatro braços, rico de árvores formosas de todas as espécies, com frutas “boas de comer” (Gn 2,9), é símbolo da abundância e, portanto, da vida plena querida por Deus para os seres por ele criados. Tal narrativa, na verdade, representa uma síntese de toda a tradição judaica, que a partir de experiências dolorosas, simbolizadas pelo êxodo do Egito e pela travessia do deserto, aprendeu que é desejo de Javé que as pessoas humanas tenham acesso a uma vida plena e intensa. Mais tarde, já no cristianismo, as comunidades cristãs vão lembrar o dito de Jesus que afirmou: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

            Mas para a tradição judaica e para a tradição cristã vida plena significa vida longa. Não se pode falar de vida em abundância quando as pessoas são condenadas a morrer jovens, por qualquer motivo, sem atingir uma boa longevidade. Desta forma, a vida longa, que ultrapassa os cem anos, vai sendo considerada uma bênção divina para o ser humano. Isso era tão claro que a Bíblia judaica, citada aqui na versão Pastoral (Paulus), ao falar do novo céu e da nova terra que Javé irá criar, chega a afirmar: “Aí não haverá mais crianças que vivam alguns dias apenas, nem velhos que não cheguem a completar seus dias, pois será considerado ainda jovem quem morrer com cem anos, e quem não chegar aos cem anos será tido por amaldiçoado” (Is 65,20). Num ambiente onde a média de vida era baixíssima e a mortalidade infantil altíssima estas palavras do profeta devem ter ressoado com grande impacto e gerado muita esperança.

            Porém, a tradição judaica e a tradição cristã são realistas. Sabem que vida plena e vida longa não significam possuir a imortalidade dos deuses. O ser humano faz parte da criação e, enquanto criatura, ele é finito, limitado, frágil e mortal. Como os demais seres vivos, os humanos nascem, crescem, passam pela terra e depois morrem. A ideia, muito cultivada no passado, de que se não tivesse existido aquilo que costumamos chamar de “pecado original”, os humanos seriam imortais, ou seja, não morreriam, não tem hoje o menor fundamento e a menor consistência. A morte da qual fala o Gênesis (2,17) não se refere à morte física, mas à incapacidade de, nas decisões e nos projetos existenciais, escolhermos a vida e a felicidade (Dt 30,15-20). Isso é fácil de perceber inclusive nos dias atuais: temos dificuldade de aderir a projetos de vida e, quase sempre, apoiamos ou cedemos a projetos de morte, como aqueles que, no momento, destroem o ambiente em que vivemos.

Portanto, mesmo sendo vontade do Criador que os humanos tenham vida plena e vida longa, a fragilidade e a brevidade marcam profundamente a existência humana. “Os dias do homem são como a relva, ele floresce como a flor do campo. Roça-lhe um vento, e já não existe, e ninguém mais reconhece o seu lugar” (Sl 103,15-16). E, muitas vezes, tal fragilidade e tal brevidade se tornam ainda mais dramáticas porque os seres humanos se recusam a caminhar pela lógica divina. Isso torna a vida penosa, difícil e hostil e o próprio ambiente passa a ser agressivo e desumano (Gn 3,17-19). Basta olharmos, hoje, à nossa volta para constatarmos essa realidade. Por isso mesmo a condição para uma vida plena e longa é aceitarmos a nossa condição de simples criaturas e aprendermos a conviver com tal condição, sem revoltas e sem resignações: “os dias que me destes são um palmo apenas” (Sl 39,6).

            Convém, porém, salientar que, segundo a tradição judaica e a tradição cristã, há uma maneira simples e fecunda de resgatar a plenitude da vida, suavizando e até eliminando os impactos duros e violentos da fragilidade e da brevidade da existência humana. E esta forma simples não toca à divindade, mas aos humanos. Cabe a nós realizar essa importante tarefa. Trata-se da solidariedade e do amor. Ao sermos solidários com os que sofrem e ao manifestarmos em profundidade o nosso amor, especialmente pelos mais sofridos, nós contribuímos concretamente para que o projeto original de Deus volte a acontecer no mundo. Tanto a Bíblia judaica como a Bíblia cristã estão permeadas desse convite permanente à solidariedade e ao amor. O povo hebreu foi sempre chamado a “abrir a mão” para o irmão pobre, para os indigentes, oferecendo-lhes o que eles necessitam, sem “pensamento mesquinho”, sem má vontade, sem avareza. A “mão fechada”, ou seja, a falta de solidariedade é considerada pela Bíblia hebraica um pecado grave que Javé repudia (Dt 15,7-11). Jesus segue essa tradição judaica e, diversas vezes, exorta as pessoas a serem solidárias. Ao contar a parábola do “bom samaritano” ele convida o seu interlocutor a “fazer a mesma coisa” (Lc 10,37).

            Creio que a maior graça que me foi dada nestes dias que passei no hospital foi sentir de perto a solidariedade das pessoas. Além do carinho, da ternura, do amor e do cuidado de minha amada esposa Ana Márcia, as amigas e os amigos do Distrito Federal logo se mobilizaram para nos apoiar de todas as formas possíveis. Pelo Brasil e até no exterior pessoas me davam forças através de uma palavra de ânimo e através da oração. Recebemos dezenas de telefonemas. Outros se perderam, pois não dávamos conta de responder a todos.  Como precisei de transfusão de sangue e de plaquetas, estes amigos organizaram uma rede de doadores e mais de quarenta pessoas foram até o Hemocentro de Brasília para doar sangue. Assim, não somente eu, mas outras pessoas que estavam na mesma situação puderam se beneficiar disso.

            Antes eu disse que é preciso aceitar a condição humana da fragilidade e da brevidade sem revoltas, mas isso não pode significar resignação. Desta forma, uma das maneiras de rezarmos nestas horas é protestando, reclamando de Deus que “permitiu” tal situação. Lamentavelmente uma certa religiosidade alienante das Igrejas eliminou esta forma de rezar, classificando-a de blasfêmia e obrigando as pessoas a aceitarem tudo como sendo vontade de Deus. Mas tanto na Bíblia judaica como na Bíblia cristã protestar contra Deus, reclamando do que acontece é uma das formas clássicas de oração. Os salmistas foram especialistas na oração de protesto. Eles reclamam porque Deus fica mudo e imóvel diante do mal (Sl 83,2). Conhecemos as palavras do Salmo 22 que, segundo os evangelistas, foram recitadas por Jesus no momento de sua morte na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? Apesar dos meus gritos, minha prece não te alcança! De dia eu grito, meu Deus e não me respondes. Grito de noite, e não fazes caso de mim!” (Sl 22,2-3).

Mas o principal ícone deste protesto contra Deus é Jó que, diferentemente do que se pensa, não pode e nem deve ser tido como símbolo de paciência, mas, pelo contrário, de protesto contra um Deus que faz sofrer o inocente. Diante dos amigos que insistem em lhe dizer, segundo a mentalidade da época, que o seu sofrimento era a “retribuição” por crimes ou pecados cometidos por ele, Jó protesta e não aceita resignadamente o sofrimento. Reclama de Deus que lhe “nega justiça” e lhe “enche de amargura” e declara que não aceita a acusação de estar pagando pelo que fez, pois isso seria o mesmo que dizer falsidade e pronunciar mentiras, ou seja, violar os mandamentos da Torá (Jó 27,1-4). E conclui: “Longe de mim dar razões a vocês! Vou me declarar inocente até o meu último suspiro. Vou me agarrar à minha justiça, e não vou ceder. Minha consciência não reprova nenhum dos meus dias” (Jó 27,5-6)

            Também eu tive que protestar, pois foi no campo religioso que tivemos a experiência mais negativa durante a minha estadia no Hospital de Base do Distrito Federal. De vez em quando, especialmente nos finais de semana, com a conivência de certos funcionários do Hospital, a enfermaria onde eu me encontrava era invadida por evangélicos e alguns católicos que caiam sobre nós como verdadeiros urubus em cima de uma carniça. Sem o menor respeito pelo ambiente público, pela diversidade, sem pedir a devida licença, chegavam fazendo suas pregações histéricas e moralistas à base de gritos, alaridos, ameaças, deixando entender para nós doentes que a nossa enfermidade era castigo e que só restava uma alternativa: “se converter a Jesus”.

            Certo dia apareceu uma mulher que se identificou como sendo da Pastoral da Saúde da Paróquia São Camilo de Lélis. Não se diferenciava dos evangélicos na histeria e na pregação moralista. Notei que não havia nenhum preparo para ser agente da Pastoral da Saúde e conclui que as paróquias e seus párocos precisam preparar melhor essa gente. Fiquei pensando no paradoxo: enquanto ali na enfermaria tinham pessoas precisando de solidariedade, de calor humano, de carinho, de ternura e até de coisas básicas como uma roupa, um lençol e um remédio, aquela mulher da Pastoral da Saúde fazia para nós apenas um discurso histérico, moralista e vazio. Imaginei São Camilo de Lélis decepcionado com aquela cena, ele que não saiu pelos hospitais fazendo pregações moralistas, mas pelas ruas recolhendo, tratando e, sobretudo, amando os pobres doentes. Penso que se ele estivesse naquela enfermaria teria, como Jesus no templo, enxotado a chibatadas aquela mulher que de Pastoral da Saúde nada entendia.

            “Mesmo no mais escuro da noite temos o direito de esperar alguma iluminação” (Hannah Arendt). Note-se bem o que diz Arendt: “temos o direito de esperar”. A minha estadia no hospital convenceu-me de que precisamos cuidar mais de nossos doentes, particularmente dos mais pobres, cujo sofrimento é duplicado pela condição social em que se encontram. E as Igrejas, aos invés de pregações histéricas, idiotas e vazias, precisam ser solidárias com tais pessoas. Como bem nos ensina a parábola de Lucas, o samaritano que encontrou o homem “meio morto” (Lc 10,30), na estrada que desce de Jerusalém para Jericó, não lhe fez discursos vazios e moralistas, para depois seguir adiante “pelo outro lado” (Lc 10, 31). Ele aproximou-se do ferido, fez curativos e o levou para um lugar onde ele poderia se recuperar totalmente, pagando todas as despesas. Ou seja, foi solidário. Precisamos apenas fazer isso, pois o resto é hipocrisia, religião fingida e idolátrica, histérica e desumana.

domingo, 21 de setembro de 2014

Eleições


Desfazendo “mitos” eleitoreiros

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor

            Mais uma vez nos encontramos em período eleitoral. E nesta época sempre aparecem os “mitos”, uma vez que os brasileiros costumam discutir política não com a razão, mas com a emoção, com a mesma paixão que discutem futebol nos botequins das esquinas. Neste período, assim como acontece na discussão sobre futebol, aparecem 200 milhões de “cientistas políticos”, cada um pretendendo arrogantemente entender de política mais do que os outros.

            Não se trata de não colocar paixão na reflexão de um tema que permeia toda a vida da nação e afeta cada um de nós brasileiros. Como já dizia o poeta e dramaturgo alemão, Bertold Brecht, tudo em nossa vida depende da política: a comida, o transporte, a educação, a saúde, a roupa, o calçado etc. etc. Que bom seria que em todos os espaços, em todos os lugares, em todos os ambientes se discutisse com muita seriedade o tema da política. Mas a questão está exatamente na forma como discutimos. De um modo geral fazemos isso sem consciência crítica, sem discernimento e sem nem mesmo saber do que estamos falando. Vamos muito pelo que diz a grande mídia, envolvida e totalmente comprometida com a elite e a burguesia brasileira, as quais querem manter seus privilégios às custas do sacrifício da maioria da população brasileira. Para defender os interesses dos poderosos, a grande mídia, geralmente controlada por eles, inventa e divulga alguns “mitos” que terminam confundindo a cabeça do eleitor desavisado, levando a acreditar e a votar exatamente em quem ele nunca deveria crer e votar. Vejamos agora alguns dos “mitos” inventados pela nossa mídia.

            O primeiro deles é passar a impressão de que um candidato “ficha limpa” é um anjo, alguém sem nenhum defeito, sem nenhuma mácula. Ora, isso, além de ser falso, é irreal. Há milênios as grande culturas e as grandes experiências religiosas detectaram que “todo homem é mentiroso, todo homem”. Não há, pois, candidatos genuinamente puros, totalmente revestidos de uma lisura ímpar. Quem ainda acredita nisso é um iludido, é um idiota que não se dá conta da realidade concreta do ser humano. Como já diziam os grandes filósofos gregos, em cada um de nós habita pelo menos um anjo e um demônio. Pensar que há alguém desprovido de seu lado demoníaco é pura idiotice. O que resta fazer, então? É procurar pessoas, candidatos equilibrados, ou seja, pessoas nas quais o lado demoníaco não prevaleça. E como isso dá trabalho e as pessoas se recusam a fazer como Zaratustra, o personagem de Nietsche, saindo pelas ruas com uma tocha acesa, em pleno dia claro, à procura desses candidatos equilibrados, terminam por aderir e votar nos que aparentam ser totalmente anjos. Aliás, uma das artimanhas dos demônios é exatamente criar a ilusão de que eles são anjos puríssimos. E com o marketing em alta, isso é possível ser feito sem maiores problemas.

            Um segundo “mito”, também criado intencionalmente pela mídia “golpista”, é pensar e acreditar que “todo político é igual”, que “todos os partidos políticos são iguais”. E isso não só é falso como é profundamente enganador. No Brasil existem partidos políticos cujos programas estão totalmente voltados para os interesses das elites brasileiras. O passado destes partidos, as figuras que os compõem hoje, representam o que há de mais nojento na política brasileira. Pode-se dizer, sem medo de errar, que esses partidos hoje são bem representados pelo PSDB, pelo DEM e pelos partidos nanicos que gravitam em torno deles e a eles são subservientes. Todo eleitor crítico, consciente, ciente não vota nestes partidos. Mas há ainda bons partidos e bons políticos, cujos programas são sérios e bem significativos para o país. Mas devido ao assédio da mídia corrupta estes partidos e essas pessoas terminam permanecendo na penumbra ou sendo totalmente ignorados.

            Outro “mito” que afeta a política brasileira é pensar que a solução de todos os problemas do país passa pela eleição do poder executivo. Assim, se elegermos o presidente da República, o governador do Estado e o prefeito do município, todas as questões serão resolvidas num toque de mágica. Esse mito está tão impregnado em nossa cultura política que, neste período eleitoral, se fazem somente debates públicos com os candidatos ao executivo. Deixamos de lado e não nos importamos com a eleição dos membros do poder legislativo. Estes, porém, são aqueles que fazem as leis e porque não há debate sério sobre eles, as pessoas terminam votando em elementos não comprometidos com o bem público. Basta dar uma olhada na atual bancada da Câmara e do Senado para perceber que a maioria dos que lá estão não poderia e nem deveria ter sido eleita.

            Recentemente as elites, com o apoio da mídia a elas subservientes, criaram outro “mito”: o de que o Partido dos Trabalhadores (PT) é o único partido corrupto do Brasil. Tiveram a ajuda de um Judiciário parcial, que usando métodos questionados por eminentes juristas, tudo fizeram para massacrar algumas figuras do PT. Não se defende aqui a inocência dos membros do PT que foram acusados e condenados. O que se questiona é o fato de que a mídia e o Judiciário não tenham usado da mesma severidade com outros partidos e outros políticos. Por que, por exemplo, não puniram com o mesmo rigor o PSDB, envolvido até o pescoço na lama da privataria tucana e no escândalo do metrô de São Paulo, cujas empresas ligadas ao dito escândalo continuam descaradamente patrocinando as campanhas dos candidatos suspeitos? Por que os políticos da “Caixa de Pandora” do Distrito Federal, pegos repartindo polpudas propinas, continuam impunes até agora? Alguns deles inclusive concorrendo, no momento, a cargos políticos ou obrigados a renunciar por serem “fichas sujas”, mais porcos do que “pau de galinheiro”. Percebe-se, então, que tudo não passou de uma armadilha, com o objetivo explícito de desviar a atenção dos verdadeiros corruptos. O próprio Ministério Público, por exemplo, não quis “cortar na própria carne”. Deixou impune até agora um dos seus membros, o ex-senador Demóstenes Torres, moleque de recado do bandido Carlinhos Cachoeira no Senado. Não se pode acreditar na seriedade de um poder judiciário que prende “ladrões de galinha” e deixa solto este tipo bandido de alta periculosidade para o povo, para a nação e para o país. Este tipo de judiciário já perdeu por completo a sua credibilidade juntos às pessoas sérias, dotadas de cérebro pensante e que raciocinam com espírito crítico.

            Por fim um outro mito: a do messianismo político, ou seja, da figura do salvador da pátria. De repente, no cenário político, surge alguém com ideias mirabolantes, com a história de única alternativa possível, teatralizando, como sendo a salvação da pátria. E boa parte dos brasileiros fica encantada com o discurso bonito, com o espetáculo teatral bem montado, e se deixa enganar. Não percebe que se trata de alguém que não traz nenhuma novidade concreta. Pegou carona com outros partidos, aproveitou-se do espaço que lhe foi dado, comportou-se de maneira desleal com os seus aliados de outrora, e, de repente, se apresenta como a grande alternativa. Mas basta prestar atenção para se ver que, na prática, não há nada de novo. Mesmo porque os grandes problemas da nação não se resolvem nos palanques e com palavrórios bonitos dos programas políticos.

            Portanto, se queremos votar bem temos que desfazer todos esses “mitos”, refletir com seriedade, usando a razão e não apenas a emoção. Há candidatos sérios, comprometidos com o bem comum. Temos que nos dar ao trabalho de procurá-los e de encontrá-los. Temos que recusar veementemente os “clichês” fabricados pela grande mídia. Temos que nos reunir para conversar, deixando de lado paixões desenfreadas, guiando-nos pela lógica, pela objetividade e pela racionalidade. Do contrário seremos apenas marionetes e terminaremos por votar em quem nunca deveríamos votar. Mas para fazer tudo isso temos que agir com humildade, escutando os outros, aprendendo com os outros e com a história e até abrindo mão de visões deturpadas, parciais, que até então carregávamos conosco. Convém jamais esquecer de que, na prática, a teoria é outra, especialmente na política. Quem chega com ideias mirabolantes, com chavões ultrapassados, fazendo teatro para chamar a atenção sobre si, prometendo resolver tudo num toque de mágica, é um mentiroso, um falso político, um hipócrita. Este sujeito não merece a confiança do eleitor sério e honesto.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Análise de conjuntura eclesial


Os impostores no Ministério da Ordem

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor

            O meu amigo, Pe. José Antônio, do clero da arquidiocese de Mariana (MG), com quem tive a grata satisfação de trabalhar no Setor Vocações e Ministérios da CNBB (1999-2003), em recente artigo divulgado na internet, levantava a pergunta acerca do principal medo do papa Francisco. A pergunta poderia ser muito bem invertida para evidenciar quais são as pessoa que, na Igreja Católica, mais temem as audaciosas propostas de renovação apresentadas pelo papa Francisco, e que, a meu ver, estão condensadas na sua exortação Evangelli Gaudium. Quem, na Igreja Romana, teria medo de propostas como esta: “Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades” (EG, 33)?

            Com certeza estariam em primeiro lugar os grupos católicos ultraconservadores, bem representados pela Fraternidade São Pio V, fundada pelo bispo cismático Lefebvre. Porém, os conservadores católicos não causam tanto medo ao papa e nem o papa lhes provoca medo. Reagir a toda mudança na Igreja está no DNA desses grupos, os quais acreditam piamente que o único modelo histórico de Igreja é aquele construído a partir do Concílio de Trento, ou, pior ainda, a partir do espírito da Contrarreforma.

            Quem, então, causaria medo ao papa Francisco, ou, melhor dizendo, quem tem medo das propostas do papa Francisco? Pe. José Antônio, sem rodeios, afira que é o “clero camaleônico”, ou seja, aqueles padres que vendo o ministério ordenado como status, como profissão bastante rentável, como pedestal para a fama e o sucesso, temem um papa que insiste em dizer que o ministério ordenado é serviço e que os padres precisam “sentir o cheiro das ovelhas”.

            Prosseguindo em sua reflexão, o Pe. José Antônio alerta para um particular assustador: a quase totalidade desse “clero camaleônico” é formada por padres jovens e por seminaristas, futuros padres, que já se comportam como se fossem ministros ordenados. É assustador porque era de se esperar que padres jovens e seminaristas, formados depois do Concílio Vaticano II, fossem capazes de acolher com entusiasmo e paixão a proposta de renovação da Igreja apresentada pelo papa Francisco. Mas não é isso que estamos vendo. Boa parte deste clero permanece indiferente ao que o papa Francisco vem dizendo. Sinal claro dessa indiferença é a falta de divulgação, de conhecimento, de estudo e de aplicação pastoral da exortação Evangelli Gaudium. Pude constatar isso pessoalmente em recente assessoria a um grupo numeroso de pessoas, na sua quase totalidade formada por leigos, sobre a exortação papal. A queixa geral era de que os padres não falam da Evangelli Gaudium. Constatou-se inclusive o caso de padres que nem sequer sabiam da existência da exortação. Há poucos dias uma senhora de uma paróquia do interior da Bahia perguntava ao jovem pároco de sua cidade porque na sacristia da igreja paroquial ainda não tinha sido colocada a fotografia do papa Francisco. Queria saber porque tudo tinha parado na foto do papa Bento XVI. O pároco respondeu-lhe que a razão era o fato de que os vidraceiros da cidade estavam sem moldura. Conversa essa que não colou, pois a senhora, do alto da sua experiência de idosa, percebeu que o pároco estava mentindo.

            Mas há também aquele grupo de padres e de seminaristas que faz de conta que acolhe as propostas do papa Francisco. Age, porém, como camaleão, por mero oportunismo e para continuar levando vantagem em tudo, visando não perder as benesses oferecidas pelo acesso ao ministério ordenado. Este grupo de clericais externamente faz de conta que aderiu ao papa Francisco, mas, na prática, sempre que pode, oculta, desvirtua e desvia os ensinamentos papais, não permitindo que o povo tome conhecimento daquilo que o papa Francisco está propondo com certa insistência.

            Diante do que acabamos de expor vem de imediato a pergunta: o que leva padres e seminaristas a agir desta forma? Por que temem o papa Francisco? Por que agem com indiferença ou fazendo de conta que acolhem a palavra do bispo de Roma?

            Inúmeros estudos publicados nos últimos anos explicam de modo suficiente este problema. São estudos com dados incontestáveis, baseados em pesquisas sérias. A própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Organização dos Seminários e Institutos do Brasil (OSIB) e a Comissão Nacional de Presbíteros (CNP) patrocinaram alguns desses estudos,

            Duas causas estariam por trás desse comportamento. A primeira delas é a visão de vocação presbiteral como sendo a vocação por excelência. Ser padre é “dez”, é estar acima de qualquer coisa. Chegar a ser padre é colocar-se acima de tudo e de todos os mortais. A segunda causa seria o desejo das dioceses de suprir a falta de padres, levando-as a admitir nos seminários e no presbitério verdadeiros impostores que olham para o ministério ordenado como a forma mais fácil de adquirir poder, status, fama e dinheiro. A tais pessoas não lhes importa o serviço ao povo, mas as vantagens que vão ter com o acesso ao ministério ordenado.

            A filósofa, socióloga e teóloga Arlene Denise BACARJI realizou recentemente um estudo sobre essa questão, baseando-se em dados de pesquisas feitas em diversas partes do mundo por eminentes pesquisadores. O próprio título do seu estudo é, por si mesmo, bem sugestivo: A impostura no Ministério da Ordem. Transtornos de personalidade e perversão no Clero à luz da psicanálise e da psiquiatria. O estudo acaba de ser publicado pessoalmente pela autora. É lamentável que ela não tenha encontrado uma editora católica capaz de assumir a publicação, obrigando-a a fazer uma edição privada. Essa recusa não deixa de trazer um grande prejuízo para a própria Igreja Católica.

            Em seu estudo, depois de analisar a origem do problema da impostura no Ministério da Ordem, a autora se detém cuidadosamente na reflexão sobre os transtornos e as perversões dentro dos quadros da Igreja, particularmente entre o clero. Fala dos desvios institucionais, de personalidade antissocial, narcisista patológica e sobre as perversões propriamente ditas. No final aponta algumas possibilidades de saída do impasse.

            Arlene Bacarji mostra como a natureza hierárquica, uma falsa compreensão da misericórdia, a segurança que o ministério ordenado proporciona e o celibato visto como um modo de não se relacionar em profundidade com ninguém atraem com muita facilidade pessoas com transtorno de personalidade e muita gente perversa. A pessoa com essas patologias “sempre consegue um bispo desavisado, misericordioso, confiante em sua remissão, que o acolherá” (p. 36). Bacarji lembra que o sistema eclesiástico favorece tais pessoas, uma vez que “elas aprendem rapidamente como subir em postos de poder, como fazer para serem elevados a bispos, cardeais” (p. 43).

            A autora apresenta o perfil do impostor no Ministério da Ordem: “O poder, o brilho, o sucesso, só dependem de sua eloquência no altar, de sua capacidade de sedução e poder de atração, e de sua capacidade retórica, persuasão, de introjetar os sentimentos e emoções na sua fala de modo que impressione o público, para que seja admirado, endeusado e adorado. O Altar se torna um palco. Pois a oficialização desse poder já está dada. A impostura no Ministério da Ordem por estas personalidades todas que tratamos neste livro se caracteriza pela grandessíssima capacidade da pessoa de fazer ‘teatro’. Elas representam muito bem” (p. 43). E representam tão bem que são capazes de camuflar a aversão ao papa Francisco e ao que ele propõe, bastando para tanto apenas um “discurso bonito” (p. 44), ou seja, aquele discurso lacunar, através do qual a pessoa fala um monte de baboseira que seduz os desprovidos de senso crítico, mas que não diz absolutamente nada.

            O que fazer? Existem saídas? É claro que sim. O problema é saber se os bispos estão dispostos a coloca-las em prática. Eu aponto pelo menos três. A primeira delas é desmistificar a figura do padre, retirando dele toda auréola sacral que o envolve. Apresentá-lo como um homem comum, normal, igual aos outros, chamado por Deus a ser diákonos, ou seja, mero servidor dos demais. Homem sinal sacramental de Cristo servo de todos, que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,35-45). Nessa perspectiva o acento deve ser colocado sobre a vocação comum batismal, como nos lembrou o Vaticano II na Lumen Gentium. O importante não é ser padre, mas discípulo, seguidor de Jesus, missionário, como enfatiza diversas vezes o Documento de Aparecida.

            Uma segunda saída seria a revisão do atual modelo de ministério ordenado, focado excessivamente no padre celibatário que passa entre oito e nove anos no seminário e que sai de lá bastante treinado para ser “aparentemente normal”, mas que, na prática, é uma pessoa cindida, tendendo para a mentira crônica (Bacarji, p. 45-64). Não há como resolver o problema da impostura no ministério ordenado enquanto não se fizer uma reforma séria no ministério ordenado, incluindo nele novas formas de ministérios que descentralizem o poder e quebrem o monopólio e o autoritarismo dos padres.

            A terceira proposta de saída é a mudança de comportamento com relação a essas pessoas. Bacarji lembra “que Cristo e o Evangelho não são tolerantes com a hipocrisia e com a falsidade” (p. 45). Por isso, ela afirma que “a misericórdia com estas pessoas deve ser pensada em outros moldes que não a habitual. Talvez seja mais misericordioso impedi-las de terem oportunidade de vivenciar suas perversões e patologias anti-sociais ou narcisistas, fazendo mal às pessoas da Igreja, à própria Igreja, a Deus e a si” (p. 67). Isso significa que a formação inicial dos candidatos aos ministérios ordenados precisa ser mais séria, capaz de identificar possíveis impostores e impedindo-os de chegar à ordenação. Mas para isso é preciso que à frente dos seminários estejam pessoas equilibradas e não seres transtornados e perversos.

            Por fim, é preciso dizer que a maioria dos padres é formada por homens honestos, sérios, simples e inteiramente doados ao povo. E isso é uma grande consolação. Mas, na maioria das vezes, esses padres não são valorizados, não são apresentados pela mídia católica, sendo sobrepujados pelos impostores, geralmente midiáticos e “carismáticos” que se apresentam ao povo como os únicos modelos de presbíteros. Com isso o estrago está feito, pois o povo, iludido por “lobos vestidos com peles de ovelhas” (Mt 7,15), acaba deixando-se seduzir. “As batinas, hábitos, clergyman, para estas pessoas, representam poder e também especialidade em relação aos outros mortais, por isso muitos deles fazem questão dessas coisas já desde o seminário” (BACARJI, p. 62). Precisamos, pois, estar muito atentos, pois a impostura no ministério ordenado “costuma confundir muitos superiores e a todos nós” (Ibid., p. 70).


O livro de Arlene Bacarji pode ser solicitado pelo e-mail arlened@uol.com.br

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Conjuntura mundial


Quando as religiões matam

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Segundo dados da ONU, em 2013 existiam no mundo oitenta (80) conflitos ou guerras. Destes, setenta e dois (72), ou seja, noventa por cento (90%) tinham motivações religiosas. Ficava, assim, evidente que em pleno século XXI as religiões continuam matando. Aquilo que deveria religar as pessoas entre elas, e estas com a divindade, continua sendo a raiz de divisões, de ódio, de violência e de massacre.

            Isso é profundamente lamentável e triste. Depois de tantos milênios, de experiências dramáticas, mas também de avanços no conhecimento, de contribuições significativas das diferentes ciências, as religiões não conseguem avançar e dar uma contribuição efetiva para a paz mundial. Elas continuam paralisadas, inertes, impotentes, ou, pior, incentivando a violência e o ódio entre as pessoas e os povos.

            O que leva a isso? Por que as religiões não só não conseguem contribuir para a paz, mas chegam a estar na raiz da quase totalidade dos conflitos mundiais? Acredito que, antes de tudo, a razão disso está na incapacidade das religiões de avançarem na hermenêutica de sua história e de seus textos sagrados. Não só as pessoas simples que compõem as religiões, mas, acima de tudo, suas lideranças continuam lendo a própria história e as suas escrituras sagradas de uma forma totalmente fundamentalista. Fazem uma leitura literal dessas realidades, como se o divino, de forma mágica, tivesse determinado diretamente e oralmente o decorrer de sua história e cada palavra dos textos sagrados.

            Além disso, as próprias lideranças não têm nenhum interesse em educar as pessoas para uma correta compreensão da história da própria religião e das escrituras sagradas. Tais lideranças, na sua maioria absoluta, sabem que a história de uma religiosidade e os textos sagrados não podem ser lidos ao pé da letra. Sabem que na construção de uma história sagrada e na elaboração de um texto religioso entraram muitos fatores ideológicos, sociológicos, políticos e psicológicos. Pense-se, por exemplo, na constituição do povo de Israel a partir da história do Êxodo. Qualquer pessoa que tenha estudado, mesmo que minimamente, essa questão sabe que a formação do povo hebreu não se deu exatamente como está narrado na redação final do Primeiro Testamento. Moisés não foi um mágico que foi tocando o povo com uma varinha de condão, rachando o mar Vermelho em duas partes, furando uma rocha para sair água, fazendo codornizes pousarem suavemente na frente dos hebreus. A coisa foi muito mais complexa e muito mais humana do que divina.

Quem estudou um pouquinho da história da constituição do povo de Israel sabe que a redação final dos textos bíblicos, que falam do assunto, sofreu profunda modificação no período da monarquia, com o objetivo de justificar as mazelas praticadas pelos reis e pelo sistema dominante imposto por eles.  Assim sendo, a Bíblia judaico-cristã não pode ser lida de forma fundamentalista, mas somente com a colaboração de uma profunda e sadia hermenêutica que nos ajude a destrinchar o que se encontra por trás da constituição desses textos. Porém, as lideranças religiosas se recusam a ajudar o povo a tomar conhecimento disso, uma vez que uma interpretação mágica dos textos sagrados serve à manutenção dos status quo e para a manipulação do próprio povo. E o que foi dito aqui sobre o caso da história do povo hebreu e da religião hebraica, nas devidas proporções, vale para todas as outras. Todas as religiões, sem exceção alguma, devem ser responsabilizadas pelo sangue inocente que hoje escorre no mundo, quando se recusam a rever o modo de interpretar a própria história e as próprias escrituras sagradas.

Neste instante veio em minha mente as chocantes imagens dos corpos dilacerados, ensangüentados, carbonizados dos palestinos vítimas da truculência dos dirigentes do Estado de Israel, de modo particular os corpos de crianças, as quais nada têm a ver com o que está acontecendo. O modo de agir do estado israelense pode ser comparado aos horrores praticados contra os hebreus em vários períodos da história, especialmente pelo nazismo. Os atuais dirigentes de Israel parecem esquecer a própria história. Qualquer mente sã e humana não pode ficar indiferente diante da forma brutal com a qual este país age em relação ao povo palestino. A necessária convivência pacífica entre os povos daquela região não pode ser construída com a prática da violência brutal e desumana.

Diante do que está acontecendo no Oriente Médio e em tantas outras partes do mundo, as religiões devem ser não só interpeladas, mas profundamente questionadas e até responsabilizadas. É nosso dever dizer para todas as religiões, sem exceção, que elas precisam urgentemente educar os povos para a paz. E educar não quer dizer apenas fazer apelos genéricos, como fez recentemente o papa Francisco. Os apelos genéricos são bonitos, mas, se ficam apenas nisso, não servem para nada. As religiões, de modo particular seus dirigentes, precisam mudar suas práticas. Aquelas práticas que estimulam o ódio, a divisão, a competição e até mesmo a guerra santa. Todas as religiões precisam recuperar seus princípios éticos originais, nos quais é possível encontrar os fundamentos para a paz e a convivência pacífica entre as pessoas e os povos.

Hoje todas as pessoas aspiram à paz, mesmo que, às vezes, sejam a favor e até promovam a guerra. A paz não é só ausência de guerra, mas a presença de todos os bens indispensáveis a uma vida digna e humana e a eliminação de toda forma de preconceito e de discriminação. Diante disso, a tarefa da religião é revisitar as próprias tradições e as suas afirmações básicas para descobrir aí um grande potencial em favor da paz, de modo que isso sirva de referencial para esse anseio da humanidade.

Tarefa da religião, aqui neste caso, é voltar-se para o seu próprio patrimônio, ajudando a encontrar nele elementos que ajudem a romper com todas as formas de guerra e incentivem seus adeptos a participar ativamente dos processos de construção da paz. Existe um consenso inter-religioso acerca da potencialidade positiva e qualitativa de todas as religiões para a paz. Por isso, como já afirmara Hans Küng, não haverá paz no mundo sem paz religiosa. Para que haja paz, todas as religiões precisarão retornar de forma crítica às suas tradições não só para descobrir suas potencialidades em favor da paz, mas também para rever com humildade e transparência os momentos em que estiveram apoiando e sustentando destruições e violências.

De fato, como afirmou a Cúpula do Milênio que, em 2004, reuniu líderes representantes das grandes religiões na sede das Nações Unidas, as religiões têm contribuído para a paz no mundo, mas também têm sido usadas para criar divisões e alimentar hostilidades. Por essa razão, acreditam os líderes religiosos reunidos na Cúpula Mundial, as religiões precisam ter uma atitude de reverência à vida, à liberdade, e à justiça. E, através de um entendimento mútuo, do diálogo, procurarem se unir para erradicar as situações de miséria, pobreza e exclusão e, no compromisso com um desenvolvimento sustentável, garantir um mundo saudável para as gerações presentes e futuras.

E nós, com nossa reflexão crítica, podemos ajudar as religiões a descobrir as reais possibilidades de estabelecer um processo comum onde a experiência religiosa, a vivência da fé, a espiritualidade entendida como cultivo da relação com o divino, se tornam forças vivas para a construção da paz. Se silenciarmos, se não questionarmos as religiões, se não insistirmos para que mudem de postura, nos tornaremos cúmplices de todo sangue inocente que escorre no mundo, como é o caso do que no momento está sendo derramado no chão da Palestina. Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais. Nosso planeta não irá sobreviver se não houver um ethos global, uma ética para o mundo inteiro” (Hans KÜNG).