terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Férias


O tempo sagrado do lazer e do descanso

 José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

No hemisfério sul de nosso planeta o fim e o início do ano civil costumam coincidir com o período de férias em muitos setores da sociedade. Aqui no Brasil, além das escolas, há férias para muitos funcionários públicos e até para diversos seguimentos de empresas e instituições particulares. Costumamos afirmar que o nosso país só volta ao normal depois do Carnaval.

Geralmente há muito preconceito contra as férias e contra o lazer. Não são poucos os que acreditam que nós brasileiros temos feriados em excesso e que gostamos da boa vida. Há inclusive fortes preconceitos contra certas regiões do Brasil, tidas como lugares onde o povo não gosta de trabalhar. Sou nordestino e baiano e não poucas vezes tenho escutado pessoas afirmando de forma descabida e mentirosa que somos um povo de preguiçosos. Embora não faltem estudos acadêmicos, inclusive pesquisas e teses de doutorado, provando o contrário, prevalece, infelizmente, o preconceito. As pessoas preconceituosas ignoram que foram os países mais avançados aqueles que mais lutaram por mais espaço de tempo para o lazer e o descanso, ou seja, pela redução da jornada de trabalho. Apesar disso, nós brasileiros ainda achamos que somos mais preguiçosos do que os países tidos como desenvolvidos.

Tal concepção tem uma conotação cultural. As elites brasileiras – estas, sim, bastante preguiçosas e exploradoras dos trabalhadores – inventaram esta história desde os tempos da escravidão dos indígenas e dos africanos. O objetivo era justificar a exploração dos escravos, os quais foram submetidos a trabalhos forçados e a jornadas extenuantes. Depois da abolição legal da escravidão o preconceito continuou. Os trabalhadores explorados como mão-de-obra barata eram e são ainda apresentados como pessoas que não querem trabalhar. Assim pode-se justificar, com uma desculpa imbecil, a forma massacrante com a qual, ainda hoje, as trabalhadoras e os trabalhadores são submetidos a formas de trabalho desumanas e antiéticas.

O cristianismo, de modo particular a Igreja Católica Romana, contribuiu muito para que esse preconceito fosse reforçado. Abençoando as elites exploradoras dos pobres e trabalhadores, esse tipo de cristianismo, especialmente aqui no hemisfério sul, apresentou o trabalho como uma obrigação da qual não se pode fugir. Numa interpretação fundamentalista e ideológica da Bíblia, esta forma de cristianismo via no trabalho um castigo pelo pecado original. O ser humano, depois de pecar, “se alimentará com fadiga” (Gn 3,17) e “comerá seu pão com o suor do seu rosto, até que volte para a terra de onde foi tirado” (Gn 3,19). Desta forma, submeter ontem o escravo, e hoje o trabalhador, a uma atividade extenuante deve ser visto como normal, pois afinal de contas eles estão descontando seus pecados. Assim esse cristianismo aberrante legitimava – e certamente ainda legitima – a exploração das trabalhadoras e dos trabalhadores.

Porém, se olharmos atentamente para alguns textos da Sagrada Escritura vamos perceber que isso não é verdade. O próprio Deus bíblico é um Deus que busca o prazer do lazer e do descanso. Já nas primeiras páginas da Bíblia encontramos um Deus que “curte” a ociosidade, o prazer de não fazer nada em certos momentos (Gn 2,1-3). Aliás, diga-se claramente, este texto foi escrito depois da experiência dolorosa do exílio, quando o povo hebreu foi submetido a trabalhos forçados, sem direito a nenhum tipo de descanso. Depois disso, o direito ao descanso semanal, tanto para homens e mulheres, como para os animais, passa a fazer parte da legislação judaica e é visto como uma lei divina (Êx 20,8-11). E para que o povo não se esquecesse desse detalhe a literatura deuteronomista vai trazer a memória da escravidão na terra do Egito (Dt 5,12-15). Negar o direito ao descanso semanal é voltar aos tempos da escravidão egípcia; é tornar-se escravo do faraó.

            É claro que para aceitarmos esta perspectiva temos que excluir a função meramente econômica da vida, ou seja, viver somente em função do consumo e da acumulação de bens. Temos que entender que Deus, ao criar o mundo, fez muitas coisas que, por si só, não têm nenhum valor econômico. Seu objetivo, ao criar, foi apenas proporcionar ao ser humano o prazer do lazer, da ociosidade e do descanso. Podemos afirmar, sem medo de errar, que se trata do prazer do ócio, daquela experiência agradável de ficar um tempo sem fazer nada. Talvez isso seja difícil de entender numa cultura como a nossa que valoriza o ativismo e a produção e que tem dificuldade de encontrar tempo para o prazer de descansar, para o prazer de parar para ficar sem fazer nada. Na era do consumismo e da busca obsessiva de ter dinheiro para gastar, o ser humano vai perdendo o prazer do ócio. Trabalha como louco para poder ter um dia um tempo livre para gastar o dinheiro (Ecle 5,9-16). Mas a obsessão é tanta que ele nunca consegue parar para descansar, pois “a fartura do rico não o deixa dormir” (Ecle 5,11). No cristianismo chegou-se à obsessão de pensar que o descanso e o ócio eram pecados.

            Em outras culturas religiosas a coisa é bem diferente. Elas chegaram a criar a figura do deus otiosus, ou seja, do deus que se afasta da sua criação e não faz nada, a não ser descansar. Nas religiosidades africanas, por exemplo, temos a figura de Olorum, o deus criador, que depois de ter começado a criação se afasta definitivamente dela para descansar, confiando a responsabilidade de concluir a sua obra a Obatala. 

            Portanto, o Deus bíblico, o Deus cristão, é um Deus lúdico, ou seja, que gosta do prazer de se divertir e aproveita de momentos de folguedo para passear e praticar o lazer. Neste sentido é muito significativa a cena do livro do Gênesis (3,8) segundo a qual Deus, aproveitando a brisa da tarde, passeia pelo jardim por ele criado. O Deus da Bíblia é um Deus que adoraria estar com os seres humanos curtindo gostosamente as maravilhas da criação e saboreando a alegria de uma boa diversão, de uma boa festa. Temos, pois, que resgatar esse elemento teológico para valorizarmos melhor o nosso tempo de lazer e de descanso.

Isso se encontra também no Segundo Testamento, o qual vai apresentar o Reino ou Reinado de Deus como sendo uma grande festa prazerosa, com muita comida, muita bebida e muita diversão (Lc 14,15-24; Mt 22,1-14). Considerando que segundo estes e outros textos bíblicos o Reino e o Reinado de Deus não podem ser confundidos com o céu, ou seja, com a vida após a morte, isso adquire um significado muito profundo para o tema do lazer e do descanso. Significa que no projeto divino para o seu Reino e para o seu Reinado está incluída, já aqui nesta vida terrena, também uma vida prazerosa de descanso e de lazer para os seus filhos e filhas.

O próprio Jesus se apresentou ao povo de sua terra como sacramento de um Pai que gosta de muito lazer, festa e descanso. Quebrando regras convencionais, tradições seculares, Jesus é alguém que gosta da “boa vida”, do não fazer nada, e de curtir momentos prazerosos, regados a base de muita comida e de muita bebida, inclusive na companhia de gente de má fama.

O primeiro sinal por ele realizado, segundo o Evangelho de João, foi a transformação de água em vinho, no final de uma festa de casamento, quando todo mundo já estava bêbado (Jo 2,1-12). Os Evangelhos mostram um Jesus que gosta e que promove entre os seus o lazer e o descanso (Mc 6,31-32; 10,13-16; Lc 10,38-42). Como já dissemos antes, ele amava a “boa vida”, as festas e o descanso. Esse seu tipo “boêmio” mereceu-lhe a fama de fanfarrão, comilão, beberrão, além de ser acusado de ser amigo de pessoas indecentes (Lc 7,33-34).

Jesus era assim porque ele via em primeiro lugar a vida e não a religião. E a vida não era para ser vivida debaixo do sofrimento e da penitência, mas para ser desfrutada e saboreada com imenso prazer. Para Jesus a vida é felicidade completa, gozo, paz, harmonia, ou seja, prazer completo. Uma vida sofrida, maltratada, oprimida, castigada é indigna de Deus e não pode ser aceita e nem mesmo estimulada.

Foi por isso que o cristianismo, desde os seus primeiros momentos, se apresentou como uma religião alegre e prazerosa (Fl 4,4; Gl 4,27; Ap 19,7). Pena que, aos poucos, foi abandonando as pegadas de Jesus e se fechando num tipo de religiosidade que suprimiu quase que de forma absoluta a alegria e o prazer. Mas podemos afirmar que o descanso e o lazer são direitos sagrados que estão na origem da fé judaica e da fé cristã. Do ponto de vista bíblico é legítimo e natural divertir-se e descansar.

Hoje, porém, o desafio está em saber como curtir o lazer e como descansar. Infelizmente a quase totalidade das pessoas não descansa de verdade e nem pratica um lazer sadio, uma vez que estão estressadas pelo consumismo e pelo corre-corre da vida. Quando vão descansar e em busca do lazer levam consigo toda a parafernália do consumismo (laptop, celulares, músicas estressantes, aparelhos sonoros, carros barulhentos etc. etc.). São incapazes de descansar contemplando coisas bem simples, como o voo de uma ave e o desabrochar de uma flor (Mt 6,25-29). Mesmo porque, num ambiente totalmente urbanizado como o nosso, faltam espaços para esse tipo de descanso e de lazer.

Nesse contexto, o cristianismo tem a missão de contribuir para o resgate sadio dessa dimensão indispensável da vida humana. Mas será que também os cristãos e as cristãs não estão estressados e nevróticos? Estão descansando de verdade e cultivando o lazer? Os leigos e as leigas, que trabalham a semana inteira para o próprio sustento, não estão sendo explorados nos finais de semana pelos padres, bispos e pastores? Dessa forma têm condições de ajudar os outros? Podem ser referencial para o restante da sociedade? As próprias celebrações religiosas não são, muitas vezes, estressantes, chatas, moralistas e cansativas? Está na hora de pensar e de agir e não apenas de invejar e criticar aqueles que buscam formas sadias de descansar e de relaxar.

 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Avaliação de início de ano


“No início não foi assim”

 José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            O começo de um novo ano civil é apenas uma convenção humana e nada mais. Há bilhões de ano a Terra gira em torno do Sol, completando uma volta em torno dele a cada 365 dias e algumas horas. Assim sendo, o começo de um novo ano não significa nada, além do início da recontagem de um novo período de 365 ou 366 dias. Isso não tem nenhuma influência sobre as pessoas e sobre as suas vidas, a não ser levá-las a trocar de calendário. Mas hoje nem precisamos fazer isso, pois os computadores e as outras formas de tecnologias, como os celulares, se encarregam de fazer a troca. Desta forma até mesmo aquilo que antes era uma novidade, hoje se tornou rotina. Minutos após a virada do ano e a queima de fogos tudo volta a ser como antes; tudo volta ao normal.

Porém, para as cristãs e os cristãos, o início de um novo ano pode se apresentar como uma oportunidade para uma reflexão mais séria. Embora o evento não passe de um mero início de nova recontagem de dias e da troca de algum dígito no calendário, pode ser uma ocasião para aprofundarmos alguns elementos de nossa fé e para a reconstrução de nossas vidas, para a nossa conversão. Pode ser um verdadeiro sinal dos tempos, como nos alertava Jesus (Lc 12,54-57) e como amava repetir o papa João XXIII e o Concílio Vaticano II. Podemos aproveitar deste momento para uma parada, para um balanço de vida, para uma avaliação ou análise da realidade de nossa vida pessoal e comunitária.

Neste artigo quero propor que façamos esta avaliação a partir do conceito de início, do conceito de princípio, assim como aparece na Bíblia. Trata-se de aproveitar da ocasião da chegada de um novo ano para uma reflexão profunda sobre o que significa voltar ao início, voltar ao princípio, voltar às origens.

Quando Jesus foi interpelado por alguns fariseus acerca da prática do divórcio, ele deixou bem claro que tal prática era ilícita e injusta. E para fundamentar a sua posição ele recorre às origens: “Moisés permitiu o divórcio, porque vocês são duros de coração. Mas não foi assim desde o início” (Mt 19,8). Ao dizer isso, Jesus deixa claro que há um projeto de Deus que remonta às origens, o qual foi desvirtuado pelo egoísmo e pelos caprichos humanos. Por essa razão é preciso voltar ao início, ou seja, ao projeto inicial de Deus. Se não houver essa volta estaremos na contramão, destruindo por completo o sonho do Criador para a humanidade.

Pena que as Igrejas, até hoje, tenham tratado o divórcio apenas como uma questão de sexo e não tenham conseguido entender o que Jesus queria propor. Para o Mestre o divórcio não era permitido por causa de possíveis relações sexuais fora do casamento, com uma terceira pessoa, mas por ser uma decisão unilateral e arbitrária do homem, que deixava a mulher numa situação dramática. Dentro da cultura palestina da época, a mulher repudiada passava a ser discriminada e odiada. Dificilmente achava um homem que quisesse se casar com ela. E como, culturalmente, a mulher era totalmente dependente do homem, ela ficava completamente desemparada. Só lhe restava morrer de fome, mendigar ou prostituir-se. Diante do exposto pelos fariseus, Jesus se posiciona contra o divórcio, não para condenar uma possível relação sexual extraconjugal, mas para defender a igualdade e a dignidade da mulher, e livrá-la de uma tremenda injustiça. E fundamenta a sua defesa voltando às origens, lembrando que “o Criador, desde o início, os fez homem e mulher” (Mt 19,4).

A partir do exemplo que acabei de apresentar, podemos aproveitar do início do novo ano para fazer uma grande avaliação de nossa vida pessoal e de nossa vida comunitária e social. O que está de acordo com o projeto inicial de Deus? O que precisa ser refeito, tendo presente o princípio de tudo, a proposta original do Criador?

É bom começar pela própria vida pessoal. Em termos pessoais poderíamos avaliar o nosso tipo de religiosidade. Como é a minha prática religiosa? Sou daqueles que gostam de muita pompa, de muito incenso, de muita loa, daquele tipo de culto que Deus rejeita como “coisa nojenta”, porque desprovido de toda sensibilidade para com a justiça (Is 1,10-15)? Ou procuro uma forma de vivência da fé que se preocupa em “acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos” (Is 58,6-7)? Sinto-me incomodado com aquela Igreja que anuncia a Boa-Nova aos pobres (Lc 4,18-19) e denuncia explicitamente a exploração praticada pelos ricos (Tg 5,1; Lc 6,24-25)? Quero uma Igreja que não se meta em política, que não fale de injustiças e das desigualdades sociais ou prefiro uma Igreja comprometida e corajosa, capaz de rejeitar toda piedade transformada em “fonte de lucro” (1Tm 6,6)?

Mas tal avaliação não deve ficar apenas no âmbito da individualidade. É preciso que façamos juntos uma grande avaliação de nossa vida comunitária e de nossa vida social. Poderíamos começar, por exemplo, com uma avaliação de nossas celebrações eucarísticas, ou, como chamam algumas Igrejas, da celebração da Ceia do Senhor. Será que elas, como se desenvolvem atualmente, conservam aquela essência das origens? Não são celebrações excludentes, que deixam de fora os mais pobres, aqueles que não têm nada (1Cor 11,20-22)? Será que em nossos templos luxuosos os mais pobres têm espaço? Ou, de repente, “sem querer, querendo”, estamos empurrando os mais pobres e excluídos para fora de nossos templos e de nossas assembleias (Tg 2,1-4)? Será que a celebração da Ceia do Senhor, instituída como memorial da morte e ressurreição de Jesus (1Cor 11,23-26), e para “a remissão dos pecados” (Mt 26,28), não está excluindo aqueles que os “donos das Igrejas” consideram “pecadores”? Em minha comunidade, quem pode participar da Ceia do Senhor? Com qual autoridade alguns “doutores da Lei” tentam impedir que os tidos por eles como “pecadores” sentem-se à mesa, comam e bebam com o Mestre (Mc 2,15-17)?

E como anda o nosso compromisso social? Somos apenas comedores de hóstias, frequentadores de templos, de cultos, de missas ou estamos comprometidos com a transformação de nossa sociedade? Apenas reclamamos da corrupção ou fazemos algo para não permitir que isso aconteça? Será que também nós, cristãos e cristãs, não somos corruptores? Não costumamos aproveitar de certas ocasiões para sair “levando vantagem em tudo”? Será que não estamos transformando a prática religiosa num meio para encobrir as nossas maracutaias?

Como anda a nossa coragem profética? Estamos denunciando aqueles que estão explorando os pobres, os trabalhadores (Tg 5,1-6)? Ou, de repente, fazemos parte daquele grupo de gente muito piedosa que não paga o salário justo, que não respeita o direito dos trabalhadores, da pessoa que limpa a nossa casa, lava e passa a nossa roupa? No prédio onde moro, por exemplo, há uma família muito católica. Vive o dia todo com a televisão conectada nas redes católicas, rezando o terço da misericórdia e venerando como deuses Padre Marcelo, Padre Robson, Padre Fábio de Melo etc. etc. Mas não paga o salário justo à diarista que faz a limpeza da casa e chega mesmo a negar-lhe o almoço, obrigando-a a ter que ir almoçar fora. Quando a diarista almoça com a família, a comida é descontada do pagamento da diária.

E como anda a nossa participação na política? Somos políticos ou politiqueiros? Pensamos no bem comum, no bem de todas as pessoas, ou estamos interessados em fazer politicagem, de modo que o nosso voto traga benefícios pessoais? Como nos comportamos nas últimas eleições? Defendemos candidatos que tinham projetos sérios e em favor dos mais pobres e excluídos ou nos juntamos àqueles que defendiam um projeto neoliberal excludente? Ao votar, ou até deixar de votar, pensamos nos pequenos e indefesos ou aderimos a partidos e candidatos que “esmagam o fraco” (Am 5,11), que exploram os necessitados e são “opressores dos pobres do país” (Am 8,4-6)?

Poderíamos multiplicar as perguntas. Mas penso que aquelas aqui apresentadas já são suficientes para que possamos entender o que significa essa avaliação de final e de início de ano, na perspectiva bíblica daquilo que os texto sagrados chamam de “início”. O importante é estar acordado, ou seja, perceber que a cada momento da vida Deus nos interpela e nos convida à mudança de vida, à conversão. E felizes aqueles “que o Senhor encontra acordados quando chega” (Lc 12,37).

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Sentido do Natal


Natal: comemoramos, mas não entendemos

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Conhecemos a origem da festa cristã do Natal. Ela remonta aos tempos da chegada do cristianismo à capital do império romano. Ao chegar a Roma os cristãos encontram, por volta do dia 25 de dezembro, uma festa ao deus Sol. Tratava-se de uma celebração para comemorar o solstício de inverno do polo norte. A partir dessa data os dias começavam a ser mais longos, o frio ia diminuindo, o calor aumentando. A terra ia ficando aquecida e favorecendo o plantio. Numa tentativa de inculturação, o cristianismo vai substituindo essa festa pela comemoração do nascimento de Jesus, considerado a “luz do mundo”, ou “a luz da vida” (Jo 8,12).

            Embora significativa, a festa do Natal não entrou de imediato no calendário litúrgico cristão, voltado inicialmente, e quase que exclusivamente, para a celebração da Páscoa, memorial da morte e da ressurreição de Jesus. Com o passar do tempo a celebração do nascimento de Jesus foi sendo misturada com a comemoração de São Nicolau, santo que teria vivido no IV século, um velhinho bondoso que, segundo a tradição, distribuía esmolas e presentes para as pessoas, especialmente para as crianças. Aos poucos acontece a “noelização” do Natal, ou seja, a substituição do Menino Jesus por Papai Noel. A comemoração do nascimento do Menino Jesus cede lugar ao velhinho de barbas brancas que, na noite de Natal, sai deslizando pela neve com o seu trenó, a fim de levar presentes para as pessoas.

            De acordo com uma tradição, São Francisco de Assis teria feito uma tentativa de resgate do significado cristão do Natal, armando o primeiro presépio da história. Ele queria expressar plasticamente a singeleza, a pobreza, a ternura e a humildade do Filho de Deus. Buscava, assim, retornar às fontes evangélicas e dar outro sentido àquela celebração. Mas, também depois disso, a celebração do Natal não conseguiu encarnar na prática o que ela devia significar. Os presépios se sofisticaram e aquela que deveria ser a festa da singeleza do nascimento do Filho de Deus virou uma comemoração qualquer, praticamente desvestida do seu sentido cristão mais profundo.

            Com a chegada do capitalismo deu-se a comercialização do Natal. Este passou a ser uma festa do consumo. Houve um distanciamento total do Menino Jesus, o qual foi substituído por personagens e símbolos insignificantes e sem sentido. No hospital onde estou fazendo tratamento, por exemplo, já foi feita a decoração do Natal. Não há nenhum símbolo e nenhuma figura que lembre aquela criança que, segundo o evangelho de Lucas, teria nascido pobre, numa manjedoura, na periferia de uma cidade periférica da periferia do império romano. Uma rede de lojas aqui do Distrito Federal está fazendo uma propaganda intitulada “Natal sem estresse”. As pessoas podem ficar despreocupadas, pois essa rede possui mais de cinco mil produtos à disposição da clientela e ninguém precisa ficar estressado, pois as lojas vão garantir produtos em quantidade suficiente para todos fazerem suas compras natalinas.

            Ora, tudo isso mostra que nós celebramos o Natal, mas não entendemos nada da sua mensagem cristã. Num país como o Brasil, onde os que se declaram cristãos chegam a quase 90% da população, isso é muito triste e revela a fragilidade desse cristianismo, incapaz de entender e, sobretudo, de viver de sua essência. Ao mesmo tempo revela a responsabilidade desses cristãos, particularmente de suas lideranças, diante do que acontece. De fato, a comercialização do Natal é apenas um dos aspectos de um cristianismo que, em nosso país, foi perdendo progressivamente a sua capacidade profética de sacudir as consciências, principalmente dos próprios cristãos.

            Recentemente o teólogo Renold BLANK, através de seu livro Deus e sua criação (Paulus, 2013), nos ajudou a repensar o Natal numa perspectiva mais cristã, ou seja, mais evangélica. Partindo do dado fundamental da fé, o qual afirma que, através de sua encarnação, Jesus nos revelou a verdadeira identidade de Deus (Jo 14,9), Blank nos convida a refazer nosso modo de celebrar o Natal. Diz ele: “Somente na religião cristã veneramos um Deus que se revela na pequenez de uma criança, em sua impotência e fraqueza, mas também em sua carência de amor. Costumes natalinos desenvolvidos ao longo de séculos expressaram esse saber em imagens que são, em parte, folclóricas. Todas elas, porém, permaneceram, por assim dizer, na superfície do evento” (p. 189).

            Eis a melhor definição para a atual celebração natalina, mesmo por parte dos cristãos: pura superficialidade. E isso por várias razões. Em primeiro lugar porque, ao fomentar o consumo, esse tipo de celebração se distancia daquele que é a razão de sua existência, o Menino Jesus, nascido pobre e simples na periferia de uma cidade insignificante. Em segundo lugar, porque ao se apresentar como uma criança totalmente desprotegida, necessitada de tudo, inclusive de carinho e de amor, o Natal deveria revelar a verdadeira face de Deus. Não um Deus onipotente, poderoso, castigador, dominador, mas um Deus humilde e simples e que quer ser venerado assim. Mas os cristãos não entenderam até hoje esta lição do Natal e continuam adorando um Deus distante, poderoso e até mesmo aterrorizador. Um Deus general, controlador, fiscal, e que fica cobrando de nós um monte de dívidas. Por fim, o Natal se tornou uma festa superficial porque não afeta os nossos relacionamentos. Há troca de presentes, congratulações, lágrimas etc., mas deixamos tudo como está. Como cristãos não nos importamos como o que está acontecendo. Não nos importamos com as injustiças, com a miséria, com as desigualdades, com os males que afetam uma sociedade, que se orgulha de ser cristã.

            Blank afirma que no Natal, “Deus mostra que ele não está interessado no poder. Em vez disso, ele vai ao encontro dos seres humanos no sorriso de uma criança. De uma criança, porém, ninguém tem medo [...]. Um Deus que se manifesta na forma de uma criança necessitada de proteção, esse Deus pode ser amado porque não precisamos ter medo dele” (p. 190-191). Disso se conclui que o verdadeiro espírito de Natal não está nas lojas, nas ceias e nem mesmo nas celebrações sofisticadas ou, às vezes, tediosas que se fazem nas igrejas. Celebrar o Natal de verdade, dentro da dinâmica da encarnação de Jesus, é amar um Deus que rejeitou todas as formas de poder e de dominação. Mas é, acima de tudo, renunciar a todos os “mecanismos do poder, seja no plano político, seja no plano religioso ou privado. Diante de uma história secular de poder do cristianismo, isso deve ser ressaltado com toda clareza” (p. 191-192).

            O Natal nos revela que Deus não quer ser visto, venerado, adorado como rei potente, todo-poderoso, vingativo, castigador, rico e amigo dos ricos. Ele quer ser acolhido, amado, adorado como um Deus fraco, que escolhe a fraqueza e os fracos; que escolhe o caminho da insignificância, da pequenez, da pobreza. Ele quer ser visto pelos cristãos e pelas cristãs como o Deus dos pobres, dos pequenos, dos humildes e dos simples. Um Deus-criança que suscita ternura, desperta carinho, alegria e do qual não é preciso ter medo.

            O fato de ainda continuarmos vendo Deus de outra forma, e vivendo de maneira diferente daquela através da qual ele se manifestou, prova que não entendemos nada do Natal. Celebramos, gastamos, enfeitamos ruas e casas, mas não percebemos a mensagem essencial desta festa. Revela a nossa responsabilidade de cristãos e de cristãs em reverter essa situação. Precisamos retornar com urgência ao espírito original do Natal. Àquele verdadeiro espírito que o evangelista Lucas quis nos comunicar quando registrou que o Filho de Deus foi colocado “na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7).

            Precisamos fazer o Natal voltar a ser a festa do nascimento do Menino Jesus. Precisamos desvestir o Natal de toda caricatura neoliberal, comercial e exploradora. Os cristãos e as cristãs precisam voltar a ser discípulos do menino de Belém. Um bebê pobre, indefeso, carente, pequeno e bem humano. Precisam mudar suas concepções e suas experiências do Deus de Jesus. Melhor dizendo, os cristãos e as cristãs precisam mudar de deus, deixando de ser idólatras, adoradores de um falso deus. Nós, como o menino de Belém, precisamos aprender a amar de verdade, pois somente o amor verdadeiro revoluciona o espírito do Natal. É claro que isso não é fácil, pois, “de repente fica menos fácil cantar os antigos hinos de Natal, sem começar ao mesmo tempo a amar as pessoas, abrir-lhes o coração e responder suas perguntas com amor” (Blank, p. 195). Não podemos celebrar o Natal sem responder às grandes perguntas que a humanidade de nossos dias, especialmente o mundo dos pobres e excluídos, coloca para o cristianismo. Não há outro caminho para devolver ao Natal o seu espírito cristão senão aquele de um Deus incômodo que nos desestabiliza por completo ao se apresentar como uma criança que “toma inequivocamente partido pelos escravos e contra o sistema de dominação político-econômico” (Blank, p. 199). Um Deus que, na manjedoura de Belém, opta decididamente pelos derrotados, pelos excluídos e pelos marginalizados.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Advento


Advento: “quem sabe faz a hora”

 José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            No cristianismo, especialmente no Catolicismo Romano, a celebração do Natal é sempre precedida de um tempo de preparação conhecido como Advento. São quatro semanas nas quais os cristãos e as cristãs se preparam para celebrar o nascimento de Jesus. São características do Advento as atitudes de espera e de expectativa. A atitude da espera remonta ao tempo dos reis, quando estes costumavam visitar alguma cidade ou algum lugar. O povo ficava esperando o rei e essa espera se revestia ao mesmo tempo de expectativa acerca daquilo que o rei iria trazer para os súditos. Na maioria das vezes a espera e a expectativa eram revestidas de muita angústia, um vez que a visita de um rei quase sempre significava más notícias para o povo: mais impostos, mais decretos, mais opressão etc. Por essa razão esse tempo de espera era acompanhado de muita passividade, exceto quando alguns cidadãos mais exaltados resolviam se rebelar contra o rei e espera-lo com uma revolta, a qual geralmente era sufocada brutalmente pelo exército do rei.

            Na liturgia cristã a espera e a expectativa, típicas do tempo do Advento, têm uma conotação bem diferente. Não se trata de esperar um rei poderoso que vai chegar, trazendo más notícias para os seus súditos. Por isso não é um tempo de angústia e de tristeza, mas de uma expectativa alegre, uma vez que aquele que vai chegar é alguém profundamente simples e humilde; uma criança totalmente dependente e carente de tudo. E, enquanto criança carente e dependente, não mete medo. Pelo contrário, suscita nas pessoas sentimentos de ternura, de compaixão e de confiança. A espera cristã, da qual fazemos memória no Advento, também não é uma espera passiva, mas um convite a confiar e agir, pois aquele que vai chegar nos anima na direção do engajamento e do compromisso.

            Todo e qualquer tempo litúrgico que celebramos na Igreja tem como finalidade nos lembrar uma dimensão permanente da existência cristã. Não se trata de viver determinadas atitudes por um período e depois nos esquecermos totalmente delas. Nesse sentido, o tempo do Advento quer nos chamar a atenção para uma dimensão constante da existência cristã. Todo cristão, toda cristã, toda comunidade eclesial precisa viver num permanente estado de espera e de expectativa do Senhor que está para vir. A Igreja aproveita da celebração do Natal para relembrar, durante quatro semanas que o antecedem, esta condição permanente da vida cristã. A espera e a expectativa cristãs não devem acontecer apenas no período do Advento, mas durante toda a vida de um cristão e de uma cristã. As primeiras comunidades cristãs perceberam isso com muita nitidez. Em suas reuniões e celebrações costumavam suplicar: Maranatá, expressão aramaica que literalmente significa “vem Senhor” (Ap 22,20; 1Cor 16,22). Aliás, uma expressão já usada pelos judeus, antes do cristianismo. Normalmente quando um judeu encontrava outro judeu costumava dirigir-se a ele com essa expressão, manifestando a sua crença na eminente vinda do Messias.

            Enquanto dimensão permanente da vida cristã o Advento, a espera e a expectativa expressam antes de tudo a convicção de que o Deus de Jesus se manifesta sempre na história, ou seja, na realidade da vida cotidiana. Ele se faz sempre presente em nossa existência, convidando-nos ao seguimento de seu Filho e a nos engajarmos em ações concretas que revelem a presença do Reinado de Deus no meio de nós.

Porém, a característica principal dessa manifestação é a surpresa. Deus não avisa que ele vai chegar, que ele vai se manifestar, que ele vai se revelar às pessoas e às comunidades. Ele chega de improviso (Mt 24,43-44): “Eis que venho como um ladrão” (Ap 16,15). Geralmente as manifestações de Deus se dão de maneira bem simples: em situações, lugares e pessoas que nós nem sequer imaginamos. Por esse motivo Jesus nos convida a ficarmos atentos e atentas para sabermos “interpretar o tempo presente” (Lc 12,54-57), ou seja, para percebermos nos acontecimentos do momento em que estamos vivendo os apelos de Deus.

            Por essa razão um outro elemento significativo que caracteriza o Advento, enquanto estado permanente da vida cristã, é a vigilância (Lc 12,35-48). Vigiar não é ficar apavorado, com medo, com ânsia, com insônia, temendo a chegada de um carrasco. Vigiar é dispor-se a escutar o chamado divino que se manifesta no cotidiano da vida e dispor-se a realizar a tarefa que ele quer nos confiar. Os Evangelhos expressam tal convicção através de uma simbologia estupenda: “Estejam com os rins cingidos e com as lâmpadas acesas” (Lc 12,35). A vigilância é, pois, essa atitude de quem está antenado, sintonizado com a realidade para nela perceber os apelos divinos.

Note-se que não se trata de estar sintonizado diretamente com Deus, mas com a realidade na qual Deus se manifesta. Há muitos que perdem tempo querendo descobrir a voz de Deus e se esquecem de que ele está falando por meio dos sinais dos tempos, através daquilo que está acontecendo no mundo. Pelo menos é o que a Bíblia nos ensina através dos relatos de vocação. O vocacionado ou vocacionada fica querendo saber diretamente de Deus o que ele quer, mas ele sempre os convida a ver, a ouvir, a enxergar, a dar-se conta da realidade onde ele está se manifestando (Êx 3,7-10).

O tempo do Adento é, pois, uma oportunidade que temos de reavivar a nossa espera e a nossa expectativa, entendidas como dimensões permanentes da vida cristã. Porém, não sei se isso está realmente acontecendo em nossas Igrejas. E isso por duas razões. Em primeiro lugar porque os cristãos, de um modo geral, são também infectados pela onda de consumismo que antecede o Natal. Salvo raríssimas exceções, os cristãos e as cristãs se preparam para o Natal indo às compras, frequentando shoppings e gastando o que não podem. Em segundo lugar porque, depois da compra de presentes, se lembram de ir ao templo fazer algumas orações e assistir a alguma missa ou culto. Reduzem a espera e a expectativa a atos de beatice e de carolice. A reza, por si só, não conduz ao clima do Advento, entendido como espera e como expectativa da vinda de Cristo, do jeito e da forma como ele costuma se manifestar. A reza, por si só, não conduz à vigilância, ou seja, à capacidade de ler os sinais dos tempos. A reza excessiva, diferentemente do que se pensa, pode levar à incredulidade (Mt 28,17; Lc 24,41).

O que se espera é que as lideranças cristãs saibam orientar bem as pessoas neste período do Advento. Que não fiquem iludindo os fiéis e reduzindo a preparação para o Natal a um amontoado de rezas, de novenas, de velas coloridas e de incenso. Que sejam capazes de ajuda-las a perceberem os sinais dos tempos e a serem, de fato, vigilantes. Capazes de estimulá-las ao compromisso e à ação. No Advento se deveria cantar com paixão o refrão da música de Geraldo Vandré: “Vem, vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Quem, no Advento, cruza os braços e espera acomodado as manifestações de Deus, não entendeu nada do espírito desse tempo litúrgico. “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino do Céu. Só entrará aquele que põe em prática a vontade do meu Pai, que está no céu” (Mt 7,21). Quem reduz seu Advento a rezas, novenas, loas, missas e cultos, não compreendeu nada do que ele significa. Não está cultivando a verdadeira espera e a verdadeira expectativa cristãs.

sábado, 15 de novembro de 2014

Atualidade


Preconceito contra nordestinos:
Perda da racionalidade e da essência do cristianismo

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Nasci no Nordeste brasileiro, no município de Araci (Bahia), numa região conhecida como “Polígono da Seca”. Nasci no meio da caatinga, porque nasci na zona rural. No período entre 1961 e 1963, quando eu estava entre os cinco e sete anos de idade, a região enfrentou uma grande seca. Lembro-me bem que com apenas cinco anos de idade já acompanhava meu pai e minha mãe no enfrentamento da seca. Eles não me faziam trabalhar, mas eu, com a curiosidade própria de criança, observava tudo muito bem. Depois cresci, ganhei o mundo, fui estudar na Europa, tornei-me teólogo e rodei por todo o Brasil em encontros e assessorias. Fiz amigos por toda parte, inclusive no sul do país, onde sempre fui tratado com muito carinho, respeito e consideração. Não me lembro de ter sido maltratado alguma vez no sudeste ou no sul do país por causa de minhas origens nordestinas.

            Porém, nas eleições de 2010 e nestas últimas eleições senti-me profundamente maltratado e discriminado, pois o preconceito contra os nordestinos, espalhado pelas redes sociais, atingiu-me profundamente e deixou-me muito triste. Deixou-me triste, sobretudo, não apenas porque sou nordestino, mas porque atitudes como essas revelam a face perversa do ser humano, capaz de desatinos como esse. Fiquei triste porque a história da humanidade mostra com suficiência o quanto o ódio, a discriminação e o preconceito contra determinadas categorias de pessoas foram capazes de gerar massacres e sofrimentos para a humanidade. E, mesmo assim, não aprendemos a lição. Continuamos, burramente, a repetir o mesmo erro.

            Mas a tristeza maior é saber que, na maioria das vezes, tais atitudes partem de pessoas que se dizem ou se professam cristãs. São frequentadoras de templos, de cultos, de missas, “comedores de hóstia”, devotos da Bíblia Sagrada. Andam proclamando por toda parte que “aceitaram Jesus”, mas o crucificam diariamente ao discriminar ou cultivar preconceitos contra certas categorias de pessoas.

O Censo de 2010 revelou que 93% da população brasileira se declara adepta de uma religião. Quase 90% afirma pertencer a uma confissão cristã. O que nos autoriza a dizer que boa parte, senão a totalidade daqueles e daquelas que discriminam os nordestinos é formada de cristãos e de cristãs. Mesmo porque, de um modo geral, os que se declaram ateus ou agnósticos e as pessoas das religiões não cristãs, que vivem no Brasil, costumam ser mais tolerantes. Pelo menos esta é a minha experiência.

            Antes de mais nada é preciso dizer que todo preconceito contra determinadas pessoas ou grupos de pessoas é fruto da ignorância, ou seja, da falta de conhecimentos mais elementares. E como tenho percebido que tais atitudes partem quase sempre de pessoas que possuem formação acadêmica ou científica, isso se torna ainda mais grave e a responsabilidade dessas pessoas, diante da humanidade e diante de Deus, aumenta ainda mais. Hoje qualquer pessoa que tenha cursado o ensino fundamental e o ensino médio sabe o que dizem as diversas ciências. Somos todos, sem exceção, descendentes dos hominídeos, macacos-homens, ou homens-macacos, que habitavam a Terra a partir de quatro milhões de anos atrás. Estes, por sua vez, são descendentes dos primatas. Hoje há certo consenso, por parte dos cientistas, de que a vida humana teria surgido na África, de um único e mesmo tronco, quando, por uma obra maravilhosa do processo evolutivo, alguns descendentes dos primatas desenvolveram melhor o seu cérebro, tornando-se “homo erectus” (que anda a pé) e, um pouco depois, “homo sapiens” (capaz de desenvolver tecnologias para facilitar a vida). Esse processo levou ao que os antropólogos chamam de hominização, ou seja, o ser humano desenvolveu a capacidade de pensar, de refletir, inclusive sobre si mesmo, e de saber que é um ser pensante. Portanto, somos todos descendentes dos primatas, dos hominídeos; somos todos parentes uns dos outros. O fato de ter nascido numa determinada região do planeta não torna alguém superior a ninguém. Esse dado não elimina a sua condição de descendentes dos primatas e de parente de todos os humanos da Terra. Pode, sim, tirar a sua condição de hominização, pois quem acredita ser superior aos demais seres humanos por ter nascido em uma região da Terra já perdeu a sua capacidade de pensar, de refletir com lógica e racionalidade. Já perdeu a principal característica que o distingue dos primatas.

            Dito isso, convém salientar que toda forma de preconceito e de discriminação é uma negação explícita da fé cristã. Os textos do Segundo Testamento, fundamentados no Primeiro Testamento, são muito claros em rejeitar toda forma de preconceito contra determinadas classes de pessoas. Jesus, o fundador e o fundamento da fé cristã, combateu de forma veemente todo preconceito e toda discriminação. O Evangelho de Marcos, considerado o mais antigo dos evangelhos canônicos, apresenta Jesus, logo no início de seu ministério, como alguém que se mistura com publicanos, cobradores de impostos e prostitutas (Mc 2,13-17). Estas categorias de pessoas, dentro da cultura judaica da época, eram vítimas de preconceitos e, por isso, profundamente discriminadas e excluídas do convívio social.

Do ponto de vista geográfico e regional, a elite judaica desprezava os samaritanos, pois os considerava um povo que tinha se misturado com não-judeus, durante o período do cativeiro babilônico. E, como povo misturado, não era de “pura raça”. O preconceito era tão forte que os judeus não falavam com os samaritanos (Jo 4,9). Jesus quebra esse preconceito regional, dialogando publicamente com uma mulher samaritana (Jo 4,7-27), fazendo elogios rasgados a um samaritano (Lc 17,16-19) e apresentando um deles como modelo perfeito de discípulo (Lc 10,25-37). E quando um grupo de samaritanos, certamente impulsionados pelo preconceito do qual eram vítimas, se recusa a hospedar Jesus em um dos seus povoados, os discípulos querem se vingar. Mas Jesus não aceita tal comportamento vingativo e os repreende, entendendo perfeitamente o gesto daquelas pessoas (Lc 9,52-56).

Os exemplos podiam ser multiplicados, se quiséssemos mostrar mais exaustivamente como Jesus se posicionou contra toda forma de preconceito e de discriminação. Mas podemos parar por aqui para lembrar um outro aspecto da vida de Jesus, que não é acidental e ter um valor incalculável para a compreensão do que estamos dizendo. Trata-se do fato de que, ao encarnar-se, o Filho de Deus não escolhe nascer em Jerusalém, centro cultural, religioso e político daquele período da história judaica, mas na periferia, na Galileia. A Galileia no tempo de Jesus era discriminada, da mesma forma que o Nordeste brasileiro hoje é discriminado por certas pessoas do Sudeste e do Sul. Era tida como terra de gente atrasada, ignorante, inculta e o seu povo considerado “zé povinho” pelos mandatários de Jerusalém. A Galileia era tida pela elite de Jerusalém como a região cujo povo “ficava nas trevas” (Mt 4,16), um eufemismo para afirmar “civilizadamente” que era uma terra de gente ignorante.

E como se isso não bastasse, o Filho de Deus decide viver com sua família em Nazaré, um povoado da Galileia profundamente discriminado pelos judeus (Jo 1,46). O título de “Nazareno” (Jo 19,19), dado a Jesus pelas autoridades religiosas e políticas da sua época não visava apenas apontar a sua origem. Tinha como objetivo principal discriminá-lo e desacreditá-lo diante do povo. Esse aspecto da encarnação de Jesus era tão significativo para o cristianismo primitivo que, segundo a versão canônica mais antiga dos Evangelhos (Mc 16,7; Mt 28,7), será preciso retornar à Galileia para “ver” Jesus. Ou seja, para ser verdadeiro, o cristianismo terá que optar pelos derrotados, pelas vítimas do preconceito. Terá que se identificar com aqueles que são excluídos do convívio social por causa de sua origem e por causa de sua pertença a uma determinada classe de pessoas

Esse detalhe geralmente passa despercebido para a quase totalidade dos cristãos. Mas, como notou muito bem Renold BLANK, em seu livro Deus e sua criação (Paulus, 2013, pp. 188-253), se levarmos a sério a fé na encarnação, somos obrigados a crer que, em Jesus, Deus opta pelos derrotados e questiona os sistemas tradicionais de valores. Ser galileu, ser nazareno, não é um detalhe periférico. É elemento central da encarnação, mistério que alicerça, fundamenta, a fé cristã. Deus quis que seu Filho pertencesse a uma classe de derrotados e discriminados pelo sistema religioso e político de sua época. E se “Deus é assim como ele se comportava em Jesus Cristo, surge disso uma exigência inevitável para todas as pessoas que nele creem: elas precisam verificar se seu sistema de valores religiosos corresponde a esses parâmetros. E se não corresponde ou somente em parte, elas precisam reconsiderar o sistema, modificar seus projetos e reorientar sua organização religiosa e eclesiástica segundo a ótica daquele Deus” (BLANK, p. 224).

Podemos, então, concluir que o preconceito e a discriminação são negação explícita da fé cristã. Podemos até rezar muito, frequentar templos, sermos comedores de hóstia na Igreja Católica, ler a Bíblia etc. etc. etc. Mas se ainda discriminamos grupos e pessoas, como os nordestinos, ainda estamos num estágio pré-cristão. Ainda não aderimos à pessoa de Jesus. A fé que dizemos possuir é sacrílega, é verdadeira idolatria, pois o Deus que Jesus veio anunciar não discrimina e não alimenta preconceito contra ninguém (At 10,34-36; Mt 5,45) e não aceita falsos adoradores que praticam esse tipo de abominação. Ele é aquele Deus que “continua a se mostrar, em Jesus, como um Deus que se inclina cheio de misericórdia aos fracos, aos descartados e aos pisoteados” (BLANK, p. 214).

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Eclesiologia


VRC com prazo de validade vencido

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Tem circulado na internet um artigo do Pe. Alfredo Gonçalves, scalabriniano, conhecido também como Pe. Alfredinho. Tive a grata satisfação de ser colega do Pe. Alfredinho na CNBB, quando ele era assessor das Pastorais Sociais e eu assessor do Setor Vocações e Ministérios. Nutro por ele uma grande consideração. O referido artigo, com o título “Vocações com prazo de validade” questiona a juventude e o modo de agir dos jovens de hoje que chegam à Vida Religiosa Consagrada (VRC). Mesmo conhecendo o autor do artigo e acreditando na sua “boa intenção”, não posso deixar de discordar de alguns aspectos do seu texto.

            Depois de ler o artigo do Pe. Alfredinho fiquei com a sensação de que ele culpabiliza os jovens de hoje e a sociedade “pela arte do disfarce, da dissimulação e do engano”. Eles são culpados por cultivarem “motivações oblíquas e obtusas para pavimentar o caminho que leva à VRC”. Desenvolvem uma “capacidade inegável de camaleão”. Eles “abraçam a vida religiosa sem qualquer compromisso”, diluindo “no oceano nebuloso e fugidio da modernidade” instituições históricas portadoras de um grande patrimônio e de autênticas tradições. Essa juventude transviada volatiza ou liquidifica os valores sólidos e solidamente enraizados em compromissos duradouros, transformando experiência em experimento. Por trás dessa juventude “líquida” estaria a sociedade contemporânea que, controlada pelo “mercado de consumo”, dita as suas leis, especialmente nesses tempos de avanço da informática que, embora útil, não deixa de, através de suas “mensagens eletrônico-virtuais”, destruir amizades, amores e até noivados.

         Tudo isso seria suportável se não faltasse alguma coisa essencial. Em seu artigo o Pe. Alfredinho omite por completo qualquer referência à responsabilidade das instituições eclesiásticas, como é o caso da VRC. Se existem “vocações com prazo de validade” é porque existem também instituições eclesiástica com “prazo de validade vencido”. O atual estilo ou formato de VRC está superado há muito tempo. O próprio Concílio Vaticano II, através do parágrafo 2 do Decreto Perfectae Caritatis, já reconhecia esse fato e pedia às congregações religiosas que realizassem uma profunda mudança, voltando às origens, ou seja ao Evangelho. Mas, nesses cinquenta anos que nos separam do Vaticano II, não houve uma revolução no estilo da VRC. Tivemos algumas tentativas, como foi o caso da inserção aqui na América Latina. Mas, no seu conjunto, a VRC, no seu modus vivendi (modo de ser) e no seu modus faciendi (modo de agir), continua esclerosada, superada, ultrapassada. Ela ainda se pauta por um estilo tipicamente medieval e, pior ainda, da Contrarreforma.

         Já na primeira metade dos anos 1970 o jesuíta Raimundo Hostie publicou o resultado de uma pesquisa, na qual salientava muito bem essa questão. Na metade dos anos 1990 Felicísimo Martinez Díez, por meio do seu livro Vida Religiosa: carisma e missão (Paulus) evidenciava o completo falimento do atual modelo de VRC e chegava à conclusão de que, para algumas congregações, só restava a morte como futuro. Trazendo dados interessantes Hostie e Díez mostravam que 75% das ordens e congregações fundadas já morreram, já foram extintas. E dizem, sem pudor, que a “causa mortis” destes institutos teria sido a “esclerose múltipla institucional”, causada pelo distanciamento das origens e pela absorção de um estilo de vida distante da radicalidade inicial.

         As pesquisas e os estudos realizados por Rulla, Manenti, Cencini e outros pesquisadores, especialmente da Faculdade de Psicologia da Universidade Gregoriana de Roma, dão conta de que, na dinâmica da psicologia da vocação, os semelhantes se atraem. Logo, se chegam até às congregações e seminários “vocações com prazo de validade” é porque foram atraídas por instituições semelhantes. Os pesquisadores mencionados chamam a atenção para a importância da propaganda vocacional das instituições eclesiásticas que atrai somente aquelas pessoas que se identificam com elas. Portanto, a responsabilidade ética e moral das instituições eclesiásticas pelos casos das “vocações com prazo de validade” é indiscutível. São elas que, com seu estilo, atraem este tipo de jovem vocacionado.

         Além do mais é preciso distinguir claramente a vocação das formas concretas históricas que ela assume no decorrer do tempo. É preciso dizer com toda a ênfase que só existe uma única vocação: o chamamento divino para ser pessoa humana (Gn 1,27-31) e para seguir Jesus Cristo (Mc 1,16-20). O Vaticano II, na Lumen Gentium (cap. V), chamou isso de vocação universal à santidade. O que vem depois é consequência disso. Assim sendo é perfeitamente possível, do ponto de vista bíblico e teológico, que alguém, para viver plenamente a sua vocação humana e cristã, possa mudar a sua forma concreta, histórica, no decorrer dos anos (1Cor 7,17-35). O problema é que a Igreja, a partir do IV século, vai absolutizando a vocação específica do padre, do frade e da freira, como sendo as únicas e verdadeiras vocações. Por isso não se aceita a possibilidade de que uma pessoa deixe a vida religiosa ou o exercício do ministério. Isso é visto como traição. Confunde-se a vocação humana e cristã com suas formas momentâneas. Porém, muitas vezes, as pessoas, para não traírem a vocação fundamental, precisam se distanciar de determinadas formas específicas esclerosadas, arcaicas e ultrapassadas.

         Outro aspecto a considerar é de ordem teológica e tem a ver com a fé. Deus não deixou de chamar pessoas para que vivam intensamente a sua humanidade e para seguir Jesus Cristo. E é preciso afirmar claramente que Deus não chama desmiolados, mas pessoas sérias. Às vezes existem momento de crise (1Sm 3,1), mas a responsabilidade não é de Deus, mas da mediação humana. Aqueles que são encarregados de comunicar o chamamento divino se corrompem e impedem que Deus chame através deles (1Sm 2,12-36).

         Cabe, porém, esclarecer que essas vocações sérias chamadas por Deus não obedecem padrões e critérios convencionais estabelecidos pela instituição eclesiástica (1Sm 16,6-7). Deus é livre de chamar quem ele quer. Por isso, muitas vocações são rejeitadas pelas instituições eclesiásticas porque não se encaixam nas “formas” por elas estabelecidas. Terminam permanecendo apenas aquelas subservientes, bajuladoras, carreiristas, oportunistas etc. Mas é preciso também evidenciar que Deus não chama pessoas “boazinhas”. Ele tem preferência por aquelas que fogem completamente dos padrões convencionais das instituições eclesiásticas (1Cor 1,26-30). Basta dar uma olhada no grupo que Jesus escolheu para se perceber essa verdade. Todos, sem exceção, tinham defeitos (Mc 8,14-21). No grupo havia carreiristas (Mc 10,35-37), covardes (Mc 14,66-72) e até ladrão (Jo 12,6). Portanto, as instituições eclesiásticas precisam admitir o princípio de que Deus continua chamando e chamando pessoas assim, com a ideia de que vocação tem “prazo de validade”. Cabe-lhes a responsabilidade de educá-las para a radicalidade evangélica. Desta forma, o fracasso não está nos jovens e na sociedade, mas no modelo eclesiástico incapaz de transformar os jovens “camaleônicos” em discípulos e discípulas corajosos de Jesus (Mc 16,20; Lc 24,33-35). E a sua incapacidade advém do seu estilo pouco evangélico e mais identificado com os “tiranos deste mundo” (Mc 10,42-43).

         Lamentavelmente o Pe. Alfredinho usa, no seu artigo, uma pedagogia que a Igreja vem usando há séculos, mas que nunca funcionou, a não ser para afastar dela as pessoas. Trata-se de considerar a instituição eclesiástica como infalível e, por causa disso, atribuir todos os males à humanidade e ao mundo. Por esse motivo, na Idade Média, a hierarquia da Igreja Católica Romana não quis dialogar com as pessoas que pensavam diferente, preferindo queimá-las ou enforca-las através da “santa Inquisição”. Se tivesse dialogado a doutrina católica, hoje, seria bem diferente e ela não carregaria na sua história um dos seus piores estigmas. Na Idade Moderna não quis dialogar com o iluminismo e com a ciência, preferindo fechar-se em concepções arcaicas e ultrapassadas que ainda hoje fazem rir. Por fim, na idade contemporânea, se opôs decididamente contra as grandes conquistas da humanidade como a autonomia, a liberdade, a democracia, o socialismo e a liberdade de consciência. E no apagar das luzes do século XIX, o papa Pio IX ainda condenava e excomungava quem aderisse a essas ideias. O resultado foi que estas coisas foram conquistadas apesar da Igreja e, quase sempre, contra ela.

         Infelizmente, como afirmou recentemente um teólogo, a instituição eclesiástica continua com a sua “incapacidade de sequer perceber que estruturas precisam ser modificadas. Os respectivos portadores de decisões fecham-se, numa verdadeira cegueira diante do sistema, contra a intelecção necessária” (BLANK, Renold. Deus e sua criação, Paulus, 2013, p. 104). Mas os cristãos e as cristãs são chamados por Deus “para modificar também todas aquelas estruturas que não correspondem a sua vontade e a suas ideias” (ibidem). E não só. Terão que abolir todas as condições que levaram ao surgimento dessas estruturas que precisam ser mudadas.

Seria, pois, desejável que o Pe. Alfredinho revisse o seu artigo e não culpabilizasse apenas os jovens e a sociedade, mas deixasse bem clara a responsabilidade das instituições eclesiásticas pelo fenômeno das vocações “com prazo de validade”. É preciso, com muita humildade, reconhecer que tais instituições, inclusive a VRC, estão viciadas, dominadas por estruturas de pecado que corrompem até mesmo as pessoas mais inocentes e bem intencionadas. Os recentes acontecimentos no interior da Igreja não nos deixam mentir.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Atualidade


Morrer: um ato profundamente humano

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário

            Dentro em breve estaremos comemorando o Dia de Finados. Veremos uma procissão de pessoas visitando os cemitérios. Alguns irão apenas formalmente, pois pega mal os vizinhos saberem que a família nem sequer visitou o túmulo dos falecidos. Outros chorarão lágrimas de crocodilo, uma vez que, enquanto seus familiares eram vivos, nunca se preocuparam com eles. Outros, ainda, farão visitas verdadeiras para, junto ao túmulo dos mortos, fazer memória de seus antepassados. Mas creio que pouquíssimos aproveitarão deste momento para meditar sobre a morte como mistério profundamente humano.

A vida termina no momento da morte da pessoa. Ao dar seu último respiro o ser humano volta à terra de onde foi retirado (Gn 3,19; Sl 90,3; Jó 34,15). A morte é um fenômeno natural que atinge todos os seres viventes. Não conhecemos nenhum ser vivo que não passe por essa experiência. Todos nós somos concebidos, gestados, nascemos, vivemos por um período e depois morremos. É a lei da natureza e da qual não há como fugir. Afeta todos os seres vivos, sem exceção.

            É claro que existem mortes fora do tempo e antes da hora. Mortes provocadas pela violência, pelo ódio, pela fome, pelas guerras, pelas drogas e pelo egoísmo humano. Este tipo de morte não é natural e nem normal. Contra essa forma de morte devemos nos opor de maneira decidida, uma vez que ela violenta um direito fundamental dos seres vivos, que é morrer depois de uma boa longevidade e de morte natural. Mas, fora isso, a morte faz parte do ritmo da vida e não há como escapar dela.

            Mas por que, sendo um fenômeno natural, temos tanto medo da morte? Por que sofremos quando alguém parte, mesmo depois de uma longa vida? Porque também isso é natural (Jo 11,33-36). Tão natural como o medo que o bebê sente quando tem que deixar o útero para entrar nesta vida, como dizem os estudiosos do assunto. A morte lança a pessoa numa dimensão nova e da qual ainda não podemos participar, por enquanto. Porque ficamos, e não vamos com a pessoa amada, sofremos com a sua perda, com a sua separação.

            Até certo tempo atrás os cristãos pensavam que a morte biológica era o resultado do pecado. Acreditava-se que os nossos progenitores, designados como Adão e Eva, não teriam morrido se não tivessem pecado. Acreditava-se também que a humanidade descendente de Adão e Eva não morreria se não tivesse acontecido aquele primeiro pecado de nossos pais (Gn 3). Essa crença estava fundamentada numa interpretação literal, e até fundamentalista, de alguns textos bíblicos (Rm 5,12).

Hoje, porém, com a ajuda dos conhecimentos científicos, já temos condições de saber que todos os seres vivos morrem e que a morte é parte da dinâmica da vida. Morrer é natural e humano. Assim sendo, não podemos mais continuar acreditando que a morte biológica é consequência do pecado de Adão e Eva, mesmo porque Adão e Eva não foram personagens históricos reais, mas apenas nomes simbólicos que representam a humanidade de todos os tempos. Adão significa literalmente humano, ou melhor, aquele que foi feito com o barro (Gn 2,7). Eva literalmente significa “a Vivente” ou “a mãe de todo vivente” (Gn 3,20).

Quando a Bíblia afirma que a morte é fruto do pecado ela não está falando da morte biológica, mas de outros dois tipos de morte. Antes de tudo da experiência pavorosa da morte que atormenta a humanidade. De fato, mesmo sabendo que vamos morrer; que a morte é natural, nós temos medo de morrer. Temos medo de morrer porque não amamos. A falta de amor gera em nós o medo e o pavor (1Jo 4,18). Aliás, existem pessoas que vivem como se não fossem morrer e quando começam a perceber que “não vão ficar para a semente” entram em pânico e em desespero. Esse medo é provocado em nós pela experiência do pecado. Porque nos sentimos pecadores, ou seja, porque não amamos, tememos a hora derradeira, o encontro definitivo com Deus.

Além disso, ao associar a morte ao pecado, a Bíblia não está falando da morte biológica, mas daquilo que o livro do Apocalipse chama de “segunda morte” (Ap 2,11; 20,6; 21,8), ou seja, da perdição definitiva. Trata-se da decisão deliberada da pessoa de não aceitar a salvação oferecida por Deus (Hb 10,26-31). Esta é a morte definitiva. Porém, nenhum de nós pode afirmar que alguém morreu definitivamente, ou seja, rejeitou a salvação oferecida, pois o julgamento cabe somente ao Filho de Deus (Jo 5,22). E o julgamento é sempre de salvação e não de condenação (Jo 3,17).

Ao morrer, a pessoa morre por inteira, morre na sua totalidade para depois ressuscitar. Antigamente se pensava que morria somente o corpo e que a alma, sendo imortal, permanecia viva esperando o dia da ressurreição. Hoje, com o avanço científico dos estudos bíblicos, sabemos que o ser humano é uma unidade. Quando falamos de alma e de corpo não estamos falando de duas realidades separadas, mas de um único ser humano que possui duas dimensões inseparáveis: a dimensão corporal, ou seja, de visibilidade e de relacionamento com os outros e a dimensão de interioridade, de subjetividade. Assim sendo, quando a pessoa morre, ela morre por completo.

No judaísmo antigo não existia a crença na ressurreição. Acreditava-se que a vida terminava com a morte biológica. A vida das pessoas, particularmente do homem (macho) continuava na descendência (Sl 102,28-29) e no que ele deixava como grandes realizações (Pv 10,7; Sl 112,2.6). Jó, um dos maiores cantores dessa realidade, assim proclama: “quem desce ao túmulo, nunca mais subirá” (7,9). Para o salmista “os mortos já não louvam a Javé, nem os que descem ao lugar do silêncio” (Sl 115,17). Mais tarde passou-se a acreditar que as pessoas eram colocadas no Sheol (ou Xeol), uma espécie de lugar para a purificação provisória dos mortos que esperavam a ressurreição. Porém, no judaísmo antigo, o Sheol significava simplesmente túmulo, cova ou abismo. Não se acreditava em ressurreição.

Portanto, a crença na ressurreição é tardia. Começa a aparecer depois que o povo hebreu passou pela amarga experiência do exílio, da diáspora, da dominação e da perseguição. Alguns, diante de tanto sofrimento, da prepotência do opressor, começaram a se perguntar se a vida se resumia a apenas aquilo: dor, sofrimento, injustiça etc. Começa, então, a nascer a esperança de que há algo além da morte. Inicialmente não era uma crença na vida após a morte, mas a certeza de que o opressor seria destruído e, por isso, era preciso resistir até o fim, a fim de conhecer a libertação (Dn 8-10). Aos poucos, por influência da cultura grega, essa crença vai se transformando em crença na ressurreição, ou seja, numa vida que continuaria depois da morte. Assim, já próximo dos tempos de Jesus, os escritos gregos do Primeiro Testamento, como os Livros dos Macabeus, vão falar de ressurreição dos mortos.

Mas, mesmo no tempo de Jesus, a crença na ressurreição ainda não era coisa pacífica. Conhecemos a polêmica do Mestre com os saduceus, que afirmavam não existir ressurreição (Mt 22,23). Será o cristianismo, a partir da experiência de Jesus, a proclamar definitivamente a crença na ressurreição. Paulo será o grande apóstolo da ressurreição, chegando a afirmar que se Cristo não ressuscitou a fé cristã seria ilusória (1Cor 15,16-19).

Não se pense, porém, que a vida que brota da ressurreição é algo que não tem nenhuma relação com a vida presente. A vida a partir da ressurreição é diferente, é “semente incorruptível”, mas sua origem será sempre, como diz Paulo, aquela mesma que foi “semeada corruptível” (1Cor 15,42), ou “semeada corpo animal” (1Cor 15,44). Não será outra vida diversa daquela que vivemos aqui. Estas palavras do apóstolo nos deveriam ajudar a valorizar melhor essa vida e também a morte, como experiência profundamente humana. Mais do que ficar focados ou até obcecados pelo “céu”, para onde queremos ir, deveríamos viver mais intensamente esta vida presente e nos prepararmos para morrer de uma forma profundamente humana. “Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24). Não seria a atual solidão das pessoas uma expressão visível do medo de encarar a morte de maneira mais humana e natural? Não seria a depressão, tão marcante em nossa sociedade, uma forma de negar a realidade da morte, tão natural e tão humana? Vale a pena, pelo menos no dia de Finados, pensar um pouco nisso.

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Aproveito para informar que meus artigos sobre assuntos não ligados diretamente à temática religiosa serão publicados, a partir de agora, no blog Centro de Reflexão e de Análise da Realidade (CREAR): http://crear-lisboa.blogspot.com